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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

 

 

 

 

KARINA SOLEDAD MALDONADO MOLINA PAGNEZ

 

 

 

O SER PROFESSOR DO ENSINO SUPERIOR NA ÁREA DA SAÚDE

 

 

 

 

DOUTORADO EM EDUCAÇÃO: PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SÃO PAULO

2007

KARINA SOLEDAD MALDONADO MOLINA PAGNEZ

 

 

 

 

 

 

 

O SER PROFESSOR DO ENSINO SUPERIOR NA ÁREA DA SAÚDE

 

 

 

 

 

Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Doutora em Educação: Psicologia da Educação, sob a orientação da Profa. Dra. Marli Eliza Dalmazo Afonso de André.

 

 

 

 

 

SÃO PAULO

2007


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Banca Examinadora

 

 

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Dedico este trabalho ao Igor, marca eterna em minha vida profissional e pessoal, e ao Prof. Dr. S., mestre, amigo e, acima de tudo, um grande professor.


Agradecimentos

 

Aos meus pais, que me deram força a cada momento e me acolheram com carinho e muito respeito nos momentos em que não lhes dei a atenção merecida.

Ao meu marido Luiz Eduardo, pela paciência nos momentos de verdadeiro abandono e parceria nos momentos em que cuidou dos filhos e de mim. Sem você este trabalho com certeza não teria chegado ao final.

A meus filhos Leonardo e Victória pela companhia e pela imensa compreensão das férias perdidas, do tempo e atenção roubados quando a mamãe só pensava na tese.

A todos os familiares que souberam respeitar a dedicação total ao trabalho, mesmo em momentos que eram encontros de família.

Ao CNPq pelos recursos financeiros concedidos por meio de Bolsa de Estudos.

À coordenadora do Programa Heloísa Szymanski, que me acolheu na nova direção que meu doutorado tomou.

À minha orientadora, Profa. Dra. Marli André, por ter aceitado receber-me como orientanda no meio do processo. Por acreditar em mim como ser humano e como pesquisadora, e por ter investido em meu trabalho e confiado em meu esforço e desejo.

Aos professores doutores Marcos Masetto, Sylvia Helena Batista, Maria Otília Mathias e Vera Placco, pelo acolhimento e pelos caminhos apontados na qualificação do trabalho.

Um agradecimento especial às secretárias do Programa de Psicologia da Educação, Irene e Helena, que foram extremamente profissionais, prestativas e solícitas nos quatro anos de convivência.

Às minhas amigas Profa. Dra. Risomar Alves e Profa. Dra. Roberta Stangerlim, que partilharam comigo as discussões da pesquisa, pelo carinho, pela paciência e pelo apoio nos momentos mais complicados desta caminhada.

À minha querida Profa. Dra. Bernardete Angelina Gatti, que esteve presente em todo o meu doutorado – como entrevistadora na seleção, professora dos seminários metodológicos, como ideal docente e como porto seguro em inúmeras situações.

À minha amiga Dena pelo ombro amigo nos momentos de angústia e desespero, como também nos momentos de alegria e felicidade, todos compartilhados na cumplicidade de nossa amizade sincera e incondicional.

Aos professores que participaram desta pesquisa, que lhe deram vida, ao compartilhar comigo suas trajetórias, desejos e sentimentos na docência. Cada um de vocês fica em minha vida como amigo e como parceiro de caminhada.

À pessoa que abriu os caminhos para que este trabalho pudesse se concretizar, Cecília, meu eterno agradecimento.

À Maria da Graça e todas as meninas que me acolheram enquanto estive no hospital realizando as entrevistas.

À minha querida Malu, pela ajuda ao adequar ao português as minhas idéias, e assim organizá-las também.

À Ana Luiza Dias Batista, por ser minha interlocutora e responsável pela formatação e correção do texto, por sua dedicação, carinho e cuidado.

Aos alunos do curso Docência em Saúde: Aline, Graziela, Enio, Carlos, Vanessa, Angela, Liana, Williane, Anamaria, Alex, Marcos, Marcus, Angela, Carla, Lair, Janete, Lorena, Paulo, Daniela, Sandra, Lidiane, Natália, Caroline, Jane, Sonia e Kadija, que compartilharam comigo o caminho trilhado nesta investigação, por meio das discussões a respeito da Educação e da Saúde, e que a cada momento me mostram o quanto é importante investir nesse diálogo.

Às minhas amigas Simone e Lílian, pela amizade, pelo apoio e pelos momentos de descontração que compartilhamos, os quais foram fundamentais para mim.

E finalmente agradeço a Deus, base de tudo, pela força nos momentos difíceis, pelo amor incondicional que reconheço em diferentes pessoas que estão em minha vida e pela fé no ser humano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Todas as belezas contêm algo de eterno e algo de transitório, de absoluto e de particular. A beleza absoluta e eterna não existe, ou melhor, ela não é mais que uma abstração que deflora na superfície geral das diversas belezas”

Charles Baudelaire


Resumo

 

O objetivo desta investigação foi apreender a concepção de docência de um grupo de professores da área da Saúde e verificar as suas configurações identitárias docentes, construídas nas trajetórias pessoais e profissionais (DUBAR, 2005). O referencial teórico partiu de conhecimentos sobre o ensino superior em seus aspectos legais e de uma discussão a respeito do conceito de formação de professores e da prática docente nesse nível de ensino, para, a partir daí, buscar os subsídios legais e conceituais da prática docente no ensino superior em Saúde. A pesquisa, com abordagem qualitativa, realizou-se em uma instituição particular. Participaram 16 professores com no mínimo 12 anos de atuação na instituição e 3 anos de docência, sendo 7 do curso de Medicina, 2 do curso de Enfermagem, 3 do curso de Fisioterapia, 3 do curso de Terapia Ocupacional e 1 do curso de Nutrição. A coleta de dados deu-se por meio de uma entrevista semi-estruturada, realizada em julho de 2006, e uma entrevista estruturada, realizada em novembro de 2006. Quanto à técnica de análise, privilegiou-se a análise de conteúdo (FRANCO, 2005). O levantamento de temas que pudessem auxiliar na identificação das configurações identitárias exigiu um debruçar sobre o corpus de análise e sobre a teoria. Esses temas foram: formação, docência, aprendizagem da docência, instituição, relação professor e aluno, família, auto-imagem e projetos. Cada um desses temas foi explorado por meio das transações biográficas e relacionais dos professores. Definiram-se as configurações identitárias docentes de cada professor e, com base nos temas e na percepção de crises por parte dos professores, foram elaborados quatro modelos profissionais docentes: pioneiros bloqueados, pioneiros críticos, convertidos resignados e convertidos transformadores. A investigação permitiu que se constatasse que a profissão de professor do ensino superior consolida-se pela busca do diploma via pós-graduação e pelo mandato socialmente atribuído, bem como que a instituição é um eixo norteador da formação, da atuação terapêutica e da atuação docente.

 

Palavras-chave: Ensino Superior. Docência em Saúde. Configuração Identitária Docente. Política e Legislação.

 


Abstract

           

The objective of this inquiry was to apprehend the conception of teaching for a group of teachers in the health area and to verify their teaching identity configurations, constructed in the personal and professional trajectories (DUBAR, 2005). The theoretical framework started with graduate education in its legal aspects and with a quarrel regarding the concepts of teachers' education and teaching practice in the superior level of education, and, from there, it searched the legal and conceptual subsidies of the teaching practices in health education. The research, with qualitative approach, was fulfilled in a particular institution. Sixteen teachers have participated, each one with at least 12 years of experience in this institution and at least 3 years of teaching experience, being 7 of the Medical course, 2 of the Nursing course, 3 of the Physiotherapy course, 3 of the Occupational Therapy course and 1 of the Nutrition course. The data collect included a semi-structuralized interview on July 2006 and a structuralized interview on November 2006. The content analysis (FRANCO, 2005) was privileged as the analysis technique. The teachers' inquiry specificity has demanded a deep study on the collected data and the theory to point out some themes which could help in the definition of identity configurations, which were: graduate, teaching, learning of teaching, institution, student, family, self-image and projects. Each one of these themes was explored through the biographical and relational transactions of the teachers. Each of the teachers' identity configurations have been defined and, based on the themes exploited and on the perception of the crises by the teachers, four teaching professional models have been raised: blocked pioneer, critical pioneer, converted resigned and converted transformers. It could be evidenced that the teaching profession was consolidated in the quest for the diploma by the way of teacher's education courses and social attributed mandate. It was also evidenced that the institution was a guide for their inservice teacher education, therapeutics and teaching practices.

 

Key words: Graduate Education. Health Teaching. Teacher's Identity Configuration. Health Politics and Legislation.


Sumário

 

1. Introdução ....................................................................................................

11

2. Ensino Superior: legislação, contexto e práticas docentes...........................

16

    2.1 Legislação sobre o ensino superior .. ....................................................

16

    2.2 Formação de professores para o ensino superior: conceitos e 

          experiências............................................................................................

29

    2.3 Docência no ensino superior: contexto de atuação................................

38

    2.4 Docência em Saúde: legislação, contexto e práticas.............................

46

3. Da socialização profissional às configurações identitárias profissionais......

63

4. Percurso metodológico.................................................................................

76

   4.1 Critérios e seleção dos participantes.......................................................

77

   4.2 Coleta de dados.......................................................................................

79

5. Apresentação dos resultados.......................................................................

81

    5.1 Temas.....................................................................................................

84

          5.1.1 Formação.......................................................................................

84

          5.1.2 Docência........................................................................................

94

          5.1.3 Aprendizagem da docência...........................................................

109

          5.1.4 Instituição.......................................................................................

113

          5.1.5 Relação professor e aluno.............................................................

144

          5.1.6 Família ..........................................................................................

154

          5.1.7 Auto-imagem..................................................................................

159

          5.1.8 Projetos..........................................................................................

164

6. Os modelos profissionais docentes..............................................................

169

Referências Bibliográficas................................................................................

180

Anexos

 

 


1. INTRODUÇÃO

 

 

O contato profissional, enquanto pedagoga, com a área da Saúde remonta à época da graduação, seja nas disciplinas que formaram a grade curricular do curso de Pedagogia – Habilitação de Professores para a Educação Especial – que cursei na Universidade Estadual de Campinas/Unicamp, seja nos Estágios no Hospital das Clínicas ou na realização da pesquisa de iniciação científica em um hospital de câncer infantil.

 No que se refere às cinco disciplinas cursadas na faculdade de Medicina, algo inquietante, na época, era a prática pedagógica dos professores. A distância entre o professor da Medicina e o aluno da Educação parecia-me intransponível. Uma professora apresentou-me uma espécie de justificativa para esse fato, ao destacar que nos faltava base para acompanhar o conteúdo a ser estudado. Para ela, nós deveríamos saber conceitos básicos como os de neurônio, sinapse ou mielinização. Ela não poderia investir tempo na explicação desses conteúdos.

Eu tinha interesse pelos conteúdos da Medicina e me dedicava a eles. Além dos textos básicos que a professora indicara, estudei Neurologia e Fisiologia, juntamente com os alunos da Medicina, sem dizer que não era da área.

Nesses encontros com os alunos, por meio de conversas informais, pude questioná-los a respeito de como sentiam a relação professor/aluno. Queria saber se havia distanciamento entre os professores e alunos no curso de Medicina. A resposta quase unânime foi que os professores não teriam que se envolver com os alunos, porque era função deles ensinar-lhes a manter uma distância segura, futuramente, dos pacientes.

Para nós, alunos da área de humanas, ficou bastante difícil cursar essas disciplinas. Além das limitações de conhecimentos básicos, a distância entre os professores e nós, alunos, marcou a experiência. Relatamos essa percepção em nossas aulas do curso de Pedagogia, mas não conseguimos avançar na discussão: nossos professores nos diziam que a Medicina era assim, e pronto.

Além das cinco disciplinas teóricas da estrutura curricular que deveriam ser cursadas na Faculdade de Medicina, havia também duas disciplinas de Estágio que deveriam ser cumpridas no Hospital das Clínicas, no departamento de Psicologia Escolar.

Essa organização curricular permitiu-me acompanhar o cotidiano do hospital por dois anos em seus diferentes ambulatórios, o que me estimulou a desenvolver uma pesquisa de iniciação científica. A distância entre o profissional e o paciente marcava as consultas, as sessões de quimioterapia, como também outros procedimentos invasivos.

Durante a pesquisa no hospital, uma situação, a esse respeito, marcou-me profissional e pessoalmente, devido à carga emotiva vivenciada na época: a relação com um menino de oito anos, com quem convivi até a sua morte. Esse menino, afetivo e carinhoso, falava com pesar da impessoalidade e distância com que era tratado; dizia que adorava brincar e que isso não era possível naquele ambiente, porque todo mundo era muito sério e não sabia sorrir.

Não tive tempo para entender o que influenciava a construção de um ambiente tão impessoal e distante, uma vez que a direção do Hospital convidou os estagiários e pesquisadores a se retirarem porque estava repensando a função do setor de Pedagogia. Concluí a pesquisa, mas as inquietações que surgiram em seu desenvolvimento e nos dois anos de estudos na Faculdade de Medicina permaneceram.

Diante dessas circunstâncias parti para um novo foco de pesquisa, a convite da coordenadora do Laboratório de Informática Educativa da Faculdade de Educação da Unicamp. Tratou-se da implantação de um curso de formação de professores para a utilização do ambiente Logo de aprendizagem[1]. A realização dessa pesquisa despertou meu interesse para a temática da formação de professores.

Após a conclusão do curso de Pedagogia, ingressei no mestrado na área da Educação, Ciência e Tecnologia da Unicamp, em que desenvolvi uma pesquisa avaliativa da informática educativa, com base no discurso dos professores do ensino fundamental (regular e suplência) da Rede Municipal de Campinas/SP. O projeto avaliado pretendia democratizar o uso do computador e, principalmente, a produção de conhecimento na formação continuada e em serviço dos professores, por meio da utilização desse recurso tecnológico como ferramenta pedagógica. O objetivo era modificar a prática pedagógica dos professores oferecendo um espaço diferenciado para a elaboração de saberes profissionais, e não apenas introduzir o computador na escola.

Na avaliação do projeto, foram definidas as seguintes categorias de análise: troca de experiências, discussões pedagógicas, processo de formação, cotidiano do professor, infra-estrutura e burocracia. As quatro primeiras dizem respeito à formação e prática do professor e as duas últimas às limitações vivenciadas pelos professores no projeto[2].

Concluí que a estrutura do projeto de introdução do computador na escola, da forma como ocorreu, não foi compreendida pelos professores como espaço para reconstrução do ambiente escolar e da prática profissional. Além disso, limitantes externos à formação — o funcionamento do laboratório e a burocratização do projeto — fizeram com que os professores não se sentissem comprometidos e que o término do projeto ocorresse de forma abrupta e radical.

No ano de 2003, em uma das disciplinas do Doutorado, participei de uma discussão a respeito da formação docente dos profissionais que cursam mestrado e doutorado. A fala da professora Bernardete Gatti – ao dizer que, nesses cursos, os alunos aprendem a fazer pesquisa, especializam-se em uma determinada área do conhecimento, são habilitados a exercer a função docente de acordo com exigência do Ministério de Educação, mas não recebem uma formação que os capacite para tal atividade – fez-me retomar as inquietações levantadas anos atrás, durante o curso de Pedagogia e o projeto de iniciação no Hospital.

As inquietações tomaram corpo e se constituíram em questionamentos científicos. Passei, então, a estudar e pesquisar a docência no ensino superior. Concomitantemente ao doutorado, exerci a docência no ensino superior na área da Saúde. Desde então, sou professora convidada e ministro aulas em uma instituição particular de São Paulo — especificamente nas disciplinas de Metodologia do Trabalho Científico e Didática do Ensino Superior.

Ao ministrar as aulas da disciplina Didática constatei que ela é considerada desnecessária pelos alunos com os quais trabalhei, porque eles nunca pensaram em ser professores. Algo interessante é que muitos desses alunos, a despeito de suas intenções iniciais, acabam por se tornar docentes, impulsionados por diferentes fatores, sejam sociais, profissionais ou econômicos.

Paralelamente a isso, a diretora da instituição convidou-me para uma conversa na qual expôs as dificuldades com os professores. Embora o corpo docente do instituto fosse formado por profissionais de destaque em suas áreas de atuação — Nutrição, Medicina, Farmácia, Enfermagem e Fisioterapia —, havia inúmeras reclamações por parte dos alunos, referentes ao relacionamento com os professores e a suas limitações didáticas e pedagógicas. Reconheciam o domínio do conteúdo específico, mas isso não era suficiente para tornar o ensino significativo e favorecer a aprendizagem.

Dessa conversa resultou a estruturação e implementação de um curso de pós-graduação lato sensu de docência em Saúde. No desenvolvimento desse curso desempenhei diferentes papéis: idealizadora (momento em que me permiti sonhar com um ideal de curso), estruturadora (fase complicada do processo, porque implicava dar corpo a uma estrutura preestabelecida), coordenadora (papel exigente), professora (papel significativo para a profissional) e colega (papel prazeroso, porque me coloquei para os alunos como profissional da Educação que queria compartilhar experiências da área da Saúde). Dentre todos os papéis, um que permeou todo o processo foi o de pesquisadora, que se questionava e observava o desenvolvimento atingido pelos alunos, coletiva e individualmente, tanto no que se referia à aquisição de conhecimentos pedagógicos quanto às mudanças de postura, ou seja, à construção do ser professor.

A partir das experiências como aluna, pesquisadora, docente e coordenadora consolidei questionamentos aos quais pretendo responder com esta pesquisa de doutoramento: Qual a concepção que os professores do ensino superior na área da Saúde têm de sua docência? Como se configura a identidade profissional docente desses professores?

Para responder a essas questões o trabalho foi estruturado de forma que, na fundamentação teórica, destaco inicialmente elementos que me auxiliaram na compreensão do ensino superior. Optando por um estudo da legislação desse nível de ensino, aponto as determinações legais e discuto o conceito de formação de professores – métodos e práticas –, especificamente no ensino superior. Posteriormente, apresento o contexto legal da formação em Saúde e descrevo algumas experiências de formação de professores para o ensino superior na área. Todos esses elementos são as lentes que auxiliam a contextualizar o objeto e a olhá-lo não mais como forasteira, mas como imigrante.

Finalmente, apresento a teoria das formas identitárias profissionais, que serve como alicerce para a análise e fundamenta a tentativa de resposta à segunda questão proposta.


2. ENSINO SUPERIOR: LEGISLAÇÃO, CONTEXTO E PRÁTICAS DOCENTES

 

 

Neste capítulo apresentam-se aspectos legais do ensino superior e da atuação docente, o conceito de formação de professores para o ensino superior, as especificidade legais do ensino superior em Saúde e experiências de formação docente na área.

 

 

2.1 Legislação sobre o Ensino Superior

 

 

Apresenta-se inicialmente um histórico da trajetória das Leis de Diretrizes e Bases da Educação no Brasil, atendo-se especificamente às referências ao ensino superior. Para tanto, tem-se como base os escritos de Dermeval Saviani (2004).

A abertura para a instituição de uma Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional resultou da Constituição de 1946. O trânsito do texto inicial ao texto sancionado pelo presidente demorou 13 anos (1948-1961), entre perda do texto e discussões na Câmara e no Senado.

Em 1961 foi sancionada a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional — Lei 4024/61. O projeto inicial da Lei, escrito pelo Grupo de Trabalho nomeado pelo Presidente da República, sofreu inúmeras alterações no Senado e na Câmara, além de ter diversos artigos vetados pelo próprio presidente.

A Lei não correspondeu às expectativas da Constituição de 1946 quanto à organização e instalação de um sistema nacional de Educação como instrumento de democratização via universalização do acesso. Embora definisse os níveis de ensino, não regulamentava expressamente a obrigatoriedade de freqüência ao ensino primário, alegando limitações de cunho econômico por parte das famílias e a precariedade no número de escolas.

Em sua íntegra, a Lei estabelecia os seguintes objetivos para este nível de ensino: “Art. 1o. O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, letras e artes, e a formação de profissionais de nível universitário.” (BRASIL, 1961). Regulamentando as instituições de ensino que poderiam atuar no nível superior, atribuía ao Conselho Federal de Educação a responsabilidade de supervisioná-las e, portanto, regulamentar o ensino superior. Contudo, não fazia nenhuma menção à regulamentação do exercício docente; limitava-se a definir a obrigatoriedade da presença do professor na universidade, determinando que as faltas poderiam ser motivo para seu afastamento do ensino superior.

Um aspecto a ser destacado do texto da Lei é que a direção das universidades públicas seria ocupada por professores indicados pelo Presidente da República.

 

Nos estabelecimentos oficiais federais de ensino superior, os diretores serão nomeados pelo Presidente da República dentre os professores catedráticos efetivos em exercício, eleitos em lista tríplice pela congregação respectiva, em escrutínios secretos, podendo os mesmos ser reconduzidos duas vezes. (BRASIL, 1961).

 

A Lei 5540/68, conhecida como a Lei da Reforma Universitária, foi a primeira reforma da Lei 4024/61. A elaboração, votação e sanção pelo Presidente da República deram-se de forma rápida, em virtude da situação gerada pela resistência dos estudantes ao regime militar. A principal bandeira do movimento estudantil era justamente a reforma universitária. Em 1968, os estudantes decidiram fazer a reforma pelas próprias mãos, ocupando as principais universidades e implantando cursos-piloto e comissões partidárias. Algumas universidades ficaram sob seu controle praticamente todo o segundo semestre letivo de 1968. Devido a essa situação, segundo Saviani (2004), o governo tentou adiantar-se ao processo revolucionário e preferiu fazer a reforma antes que outros a fizessem.

No texto da Lei 5540/68 encontram-se os mesmos objetivos do ensino superior propostos pela Lei 4024/61: “Art. 1o. O ensino superior tem por objetivo a pesquisa, o desenvolvimento das ciências, letras e artes, e a formação de profissionais de nível universitário.“ (BRASIL, 1968).

Na nova Lei, entretanto, o corpo docente tem suas funções definidas, em um capítulo específico, da seguinte forma:

 

CAPÍTULO II

Do Corpo Docente

        Art. 31. O regime do magistério superior será regulado pela legislação própria dos sistemas do ensino e pelos estatutos ou regimentos das universidades e dos estabelecimentos isolados.

        Art. 32. Entendem-se como atividades de magistério superior, para efeitos desta lei

        a) as que, pertinentes ao sistema indissociável de ensino e pesquisa, se exerçam nas universidades e nos estabelecimentos isolados, em nível de graduação, ou mais elevado, para fins de transmissão e ampliação do saber;

        b) as inerentes à administração escolar e universitária exercida por professores.  

        § 1º Haverá apenas uma carreira docente, obedecendo ao princípio da integração de ensino e pesquisas.

        § 2º Serão considerados, em caráter preferencial, para o ingresso e a promoção na carreira docente do magistério superior, os títulos universitários e o teor científico dos trabalhos dos candidatos.

        Art. 33. Os cargos e funções de magistério, mesmo os já criados ou providos, serão desvinculados de campos específicos de conhecimento.

         § 1º (Vetado).

        § 2° Nos departamentos, poderá haver mais de um professor em cada nível de carreira.  

        § 3º Fica extinta a cátedra ou cadeira na organização do ensino superior do País.  

        Art. 34. As universidades deverão, progressivamente e na medida de seu interesse e de suas possibilidades, estender a seus docentes o Regime de Dedicação Exclusiva às atividades de ensino e pesquisa. 

        Art. 35. O regime a que se refere o artigo anterior será prioritariamente estendido às áreas de maior importância para a formação básica e profissional. 

        Art. 36. Os programas de aperfeiçoamento de pessoal docente deverão ser estabelecidos pelas universidades, dentro de uma política nacional e regional definida pelo Conselho Federal de Educação e promovida através da CAPES e do Conselho Nacional de Pesquisas.

        Art. 37. Ao pessoal do magistério superior, admitido mediante contrato de trabalho, aplica-se exclusivamente a legislação trabalhista, observadas as seguintes regras especiais:  

        I - a aquisição de estabilidade é condicionada à natureza efetiva da admissão, não ocorrendo nos casos de interinidade ou substituição, ou quando a permanência no emprego depender da satisfação de requisitos especiais de capacidade apurados segundo as normas próprias do ensino;

        II - a aposentadoria compulsória, por implemento de idade, extingue a relação de emprego, independente de indenização, cabendo à instituição complementar os proventos da aposentadoria concedida pela instituição de Previdência Social, se estes não forem integrais. (BRASIL, 1968).

 

O texto foi transcrito na íntegra para possibilitar a compreensão da análise aqui realizada[3]. Ressalte-se que ele especifica a função docente e atribui claramente ao professor a articulação entre ensino e pesquisa. Embora não regulamente o exercício docente – as exigências para atuação –, define que o aperfeiçoamento do corpo docente deveria ser estabelecido pelas universidades, de acordo com políticas nacionais e regionais. Assim sendo, o aperfeiçoamento do corpo docente seria de responsabilidade das instituições de ensino superior. Destaca-se esse aspecto, especificamente, porque revela, já em 1968, uma preocupação com o aprimoramento docente.

Tanto na Lei 4024/61 quanto na Lei 5540/68, estabelece-se que compete ao Conselho Federal de Educação a responsabilidade de supervisionar as instituições de ensino e regulamentar o ensino superior. Na Lei da Reforma Universitária, entretanto, a Capes e o Conselho Nacional de Pesquisa, junto ao Conselho Federal, são assumidos como órgãos executivos de supervisão. A pesquisa é destaque nos dois textos, sendo assumida como objetivo do ensino superior.

A Lei 5540/68 é reconhecida como um marco para a instalação da autonomia das instituições de ensino superior, tanto na área administrativa quanto na acadêmica.

A segunda reforma da Lei 4024/61 deu-se através da Lei 5692/71, que regulamentou as mudanças no ensino de 1o e 2o graus. Não houve alterações no que se refere ao ensino superior. A luta do Grupo de Trabalho nomeado pelo Presidente para a redação desse texto era justificar a profissionalização universal e compulsória do ensino de 2o grau. Pretendia-se acabar com a diferença entre o ensino secundário freqüentado pela elite da época, preparatório para o ensino superior, e o ensino profissional destinado à classe pobre. Considerava-se que não se poderia manter essa dualidade no ensino médio.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que efetivamente substituiu a Lei 4024/61 foi a Lei 9394/96. A discussão que ocorreu durante a elaboração do texto da nova lei permite inferir o conceito de docência instituído pela Lei e o destaque ou preocupação a respeito dos saberes docentes como fruto de uma formação específica articulada com a prática em sala de aula.

Encontra-se no trabalho de Saviani (2004) uma descrição detalhada da trajetória da Nova LDB – como ficou conhecida a Lei 9394/96. O autor destaca a mobilização da comunidade educacional face ao tratamento que seria dado à Educação na Constituição Federal. Antes mesmo que os trabalhos da Assembléia Nacional Constituinte se iniciassem, houve discussões na IV Conferência Brasileira de Educação, cujo tema central foi “A Educação e a Constituinte”. Na assembléia de encerramento do evento, foi aprovada a “Carta de Goiânia”.

Essa carta continha propostas dos educadores para a elaboração do capítulo referente à Educação. Defendia-se “...a manutenção do artigo que definia como competência da União legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional.” (SAVIANI, 2004, p. 35).

Manteve-se a mobilização para garantir que os pontos propostos na “Carta de Goiânia” fossem incorporados ao texto da Constituição. Saviani (2004) afirma que isso foi conseguido quase na totalidade. Paralelamente a esse movimento, em 1987 iniciou-se uma preocupação no meio acadêmico com a elaboração de uma nova LDB. Nesse sentido a Anped (Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação) , em sua X Reunião Anual realizada em Salvador, cujo tema central foi a Lei de Diretrizes e Bases, convidou Dermeval Saviani para proferir uma conferência com o tema “Em direção às novas Diretrizes e Bases da Educação”.

No final de 1987 o tema central da Revista ANDE (Associação Nacional de Educação) foi a Nova LDB. Saviani foi convidado a redigir um artigo sobre o tema. Segundo o autor (2004), tinha início aí a elaboração do projeto original da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Após discussões, adequações e reelaborações, o texto, que teve início com o artigo da ANDE, tornou-se um projeto de LDB apresentado à Câmara dos Deputados pelo deputado Octávio Elísio, em dezembro de 1988.

O projeto propunha a regulamentação do exercício docente pelas instituições de 3o grau por meio de seus estatutos e regimentos. Não estabelecia exigências mínimas para desenvolvimento da docência no 3o grau, como tampouco definia as funções da atividade docente no ensino superior. Pode-se inferir que isso seja decorrente da autonomia conquistada pelas instituições de ensino superior pela Lei 5540/68.

Ao examinar o projeto inicial da Nova LDB formularam-se, nesta investigação, os seguintes questionamentos: se a LDB não é o espaço que regulamenta a atuação docente, qual seria, então, a instância responsável no interior das instituições de ensino de 3º grau? Quais seriam as diretrizes ou normas que regulamentariam o exercício do magistério em nível superior formuladas nessas instituições?

            Reconhecendo a dificuldade em responder tais questões nos termos propostos por Octávio Elísio, o deputado Jorge Hage apresentou, em junho de 1990, um primeiro texto substitutivo que resultou de negociações com os mais diferentes grupos da sociedade civil, além das discussões e reestruturações propostas na Câmara dos Deputados. Encontra-se no texto substitutivo que:

 

Art. 98 - A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á, preferencialmente, em nível de pós-graduação, em cursos e programas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, na forma prevista nos estatutos e regimentos das instituições de ensino.

Parágrafo único - A equivalência de títulos dependerá do que dispuserem os estatutos e regimentos da instituição de ensino e do disposto em normas do Conselho Nacional de Educação. (Apud SAVIANI, 2004, p. 106).

 

Embora na proposta aponte-se a preferência pela formação de professores na pós-graduação, o artigo abstém-se da regulamentação dessa formação e concede total liberdade às instituições de ensino superior para estruturarem-na. Entra em cena o Conselho Nacional de Educação que, aliado às instituições de ensino, constitui-se como instância reguladora de equivalência de títulos.

Nos dois primeiros projetos, portanto, encontra-se a responsabilização das instituições de ensino superior pela formação para o exercício docente, preferencialmente na pós-graduação, como também pelo aperfeiçoamento do corpo docente. Não há uma regulamentação nacional de propostas curriculares para a formação de docentes para o ensino superior, que poderia partir do Conselho Nacional de Educação ou dos Conselhos Estaduais da Educação sob a chancela daquele.

Dessas constatações resulta o seguinte questionamento: como garantir um preparo mínimo e similar no país — tendo em vista sua dimensão territorial e diversidade cultural — se cada instituição tem total liberdade e autonomia na determinação das normas e diretrizes?

Paralelamente às discussões desses textos na Câmara, tramitava no Senado o projeto do senador Darcy Ribeiro, com a anuência dos senadores Marco Maciel e Maurício Correia, cujo relator era o senador Fernando Henrique Cardoso. Destaca-se, a seguir, o artigo que define a preparação para o exercício do magistério superior:

 

Art. 74 - A preparação para o exercício do magistério superior se faz em nível de pós-graduação, em programas de mestrado e doutorado, acompanhada da respectiva formação didático-pedagógica, inclusive de modo a capacitar o uso das modernas tecnologias do ensino.

Parágrafo único - É assegurado o direito de exercício do magistério superior às pessoas de notório saber. (Apud SAVIANI, 2004, p. 144).

 

Nessa proposta estabelecia-se que a pós-graduação — mestrado e doutorado — constitui o nível obrigatório para formação do docente do ensino superior, com destaque à preocupação com uma formação didático-pedagógica, comprometida, inclusive, com a utilização das modernas tecnologias do ensino. Esse é o único texto em que se encontra uma proposta para regulamentação do preparo docente para o ensino superior que atribui exclusivamente à pós-graduação a responsabilidade pela formação didático-pedagógica.

O projeto do senador Darcy Ribeiro, após ser aprovado na Comissão de Educação do Senado, foi encaminhado para discussão na plenária do Senado. Ali, alguns senadores julgaram nula a aprovação do Conselho de Educação do Senado e encaminharam o projeto para nova apreciação.

Enquanto isso, na Câmara, o projeto substitutivo de Jorge Hage era reformulado até chegar à versão aprovada e enviada ao Senado. Após a apreciação no Senado e as alterações decorrentes das propostas do substitutivo de Darcy Ribeiro, a Lei foi aprovada e enviada para que o Presidente da República, na época Fernando Henrique Cardoso, a sancionasse.

No texto final da Lei estabelece-se que as finalidades do ensino superior são:

 

                                                I.             estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo;

                                               II.             formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua;

                                             III.             incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive;

                                             IV.             promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação;

                                              V.             suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;

                                             VI.             estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade;

                                           VII.             promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios, resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição. (BRASIL, 1996).

 

Pode-se, a partir das finalidades do ensino superior transcritas acima, elencar quatro objetivos básicos para esse nível de ensino, quais sejam:

v  formar profissionais capacitados ao desenvolvimento de determinadas atividades profissionais, com desejo permanente de aperfeiçoamento profissional e cultural via desenvolvimento de um pensamento reflexivo;

v  promover, desenvolver e divulgar conhecimentos científicos resultantes de pesquisas, para ampliar os avanços tecnológicos e culturais para toda a sociedade;

v  articular a formação com a realidade social vivida no país, a partir do conhecimento dos problemas nacionais e internacionais, prestando serviços à comunidade e estabelecendo uma relação de reciprocidade entre universidade e comunidade;

v  desenvolver a extensão, abrindo a possibilidade de acesso ao conhecimento produzido nas instituições de ensino superior, via cursos de atualização e extensão, à população em geral.

Existem no país, entretanto, duas situações diferentes quanto à inclusão da pesquisa no ensino superior: por um lado, as instituições públicas, que desenvolvem a pesquisa — e que fazem com que essa atividade faça parte da carreira docente —, e, por outro, as instituições particulares, nas quais, em uma porção significativa, não há o incentivo à pesquisa — devido ao contrato estabelecido com os professores, em geral horistas, sendo consideradas na carga horária exclusivamente as horas/aula ministradas.

Nas instituições em que a pesquisa é estimulada, como também a sua articulação com o ensino é um fato, encontra-se uma realidade diferenciada, que é descrita por Santos (2001, p. 11):

 

As relações entre pesquisa e ensino têm sido muito discutidas nos últimos anos, sobretudo em decorrência do desenvolvimento do campo da pesquisa nas universidades, resultante, em grande parte, da consolidação dos programas de pós-graduação.

 

Nos últimos anos, tem ocorrido o crescimento do número de instituições de ensino superior, seja por meio da criação de universidades, de centros universitários ou de faculdades isoladas. Paralelamente a esse fenômeno ocorreu o aumento do número de pesquisas desenvolvidas no país, decorrente da consolidação dessas instituições, via programas de pós-graduação. Essa realidade incita questionamentos referentes à qualidade do ensino e da pesquisa, e, principalmente, à sua articulação.

Segundo Santos (2001), no que se refere à intensidade dessa articulação e a seus impactos na qualidade do ensino, pode-se destacar que a pesquisa não tem proporcionado contribuições para a melhoria dos cursos de graduação oferecidos pelas instituições que alocam os programas de pós-graduação. Uma hipótese levantada pela autora é que a baixa integração seja decorrente da forma como o campo acadêmico está estruturado nas diferentes universidades; da forma como ele se relaciona com as diferentes áreas do conhecimento, órgãos de fomento à pesquisa e com os campos editorial e produtivo, entre outros.

A autora afirma que as universidades privilegiam as atividades de pesquisa em virtude dos recursos públicos e privados que esse tipo de atividade proporciona à instituição de ensino, além do status acadêmico que lhe confere. O valor atribuído à pesquisa pode ser verificado nos processos de ingresso e de promoção na carreira docente, assim como no prestígio dos docentes que a ela se dedicam e nela obtêm sucesso. Aos aspectos apontados pela autora, acrescente-se que a dedicação à pesquisa influencia não só a manutenção do docente na função, como também o número de aulas que ministra.

Outro aspecto relevante para a discussão da atividade de pesquisa no ensino superior é a avaliação dos programas de pós-graduação, na qual um elemento importante é a produção científica docente em termos de pesquisa e publicações. Esse modelo externo é adotado nas avaliações internas do desempenho dos departamentos, das unidades de ensino e das próprias universidades.

Segundo Santos (2001), em algumas instituições a avaliação docente envolve o número de aulas ministradas e a produção científica do professor. O fato de a avaliação envolver o número de aulas ministradas poderia aumentar o interesse dos professores pela atividade docente — entretanto, se há motivação, ela é meramente quantitativa, já que lastreada pela pontuação na avaliação e não por uma preocupação com a qualidade do ensino.

A valorização da pesquisa na instituição de ensino superior, seja pelos modelos de avaliação, seja pela dedicação docente, demonstra uma assimetria, o que não implica a inexistência total de articulação entre as duas atividades. O que se pretende destacar é que uma integração mais efetiva está aquém das possibilidades institucionais.

Pode-se identificar uma preocupação com essa articulação quando a Capes(Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) solicita, aos programas de pós-graduação, descrições da relação estabelecida por eles com os cursos de graduação — formas de integração e de intercâmbio. Outra tentativa é realizada por programas como o Proin (Programa de Integração entre a Graduação e a Pós-Graduação), que buscam subsidiar projetos de integração entre os dois níveis de ensino. Mas trata-se de programas externos, que chegam aos departamentos como exigência burocrática e não promovem uma discussão ampla a esse respeito dentro das instituições.

Entende-se, contudo, que, para que a articulação entre ensino e pesquisa ocorra de forma eficaz, essa discussão precisa ocupar um espaço dentro das universidades, dentro das faculdades e de seus diferentes departamentos. Seria um processo de dentro para fora, com propostas e implementações dentro das instituições, as quais poderiam ser posteriormente objeto de avaliação de órgãos externos.

Quanto ao exercício do magistério superior, a Lei 9394/96 define que:

 

Art. 66 - A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado.

Parágrafo único - O notório saber, reconhecido por universidade com curso de doutorado em área afim, poderá suprir a exigência de título acadêmico. (BRASIL, 1996).

 

Nesse texto, se comparado à redação proposta pelo senador Darcy Ribeiro (anteriormente transcrita), desaparecem a preocupação com o preparo didático-pedagógico e o destaque à capacitação para o uso de tecnologias modernas de ensino. Ademais, embora se incentive a formação para o magistério superior nos programas de mestrado e doutorado, mantém-se o caráter não-obrigatório desse lócus, apenas substituindo-se o termo “preferencialmente”, utilizado por Jorge Hage, por “prioritariamente” – sem uma definição de como essa formação precisa ocorrer, das disciplinas que dela tratariam no currículo e de um papel claro para a pós-graduação no processo.

A preparação para o exercício docente em nível superior é atribuída à pós-graduação – mas que preparação é esta? Ela é compreendida como formação didático-pedagógica pelos cursos de pós-graduação? Uma tentativa de resposta a esses questionamentos é formulada por Gatti (2003, p. 73):

 

Os mestrados, que teriam como uma de suas funções prover essa formação — a formação de mestres —, centram-se mais no aprofundamento e especialização em conhecimentos das áreas, trazendo alguma formação em pesquisa e muito pouca formação didática, o que torna insuficiente essa formação para enfrentar a articulação da docência com a pesquisa, o que leva a expressão tão repetida da “indissociabilidade de ensino e pesquisa” a tornar-se um refrão vazio, decantado sem o exercício da crítica.

Nos doutorados, o problema continua, pois a questão do possível exercício da docência em nível superior é praticamente deixada de lado, enfatizando-se o conhecimento disciplinar e as investigações em determinado campo, novamente não se criando condições de reflexão sobre a relação pesquisa-docência.

 

A legislação que estabelece, atualmente, as normas para o funcionamento de cursos de pós-graduação stricto sensu e lato sensu é a Resolução CNE/CES nº 1/2001. Essa resolução revogou as resoluções CFE 12/83 e CNE/CES 03/99, as quais propunham mudanças do foco do nível de ensino e, principalmente, marcavam inicialmente uma preocupação com a formação pedagógica dos pós-graduandos. Preocupação esta que desaparece no decorrer do tempo e das mudanças da resolução.

A Resolução CFE 12/83 (anexo A) estabelecia a validade dos certificados de aperfeiçoamento e especialização para o Magistério Superior. Quanto à formação didático-pedagógica, definia que:

 

Parágrafo 1 - Pelo menos 60 (sessenta) horas de carga horária serão utilizadas com disciplinas didático-pedagógicas, devendo o restante ser dedicado ao conteúdo específico do curso, incluindo a iniciação à pesquisa.

 

Na Resolução 03/99 (anexo B) determina-se a carga horária total do curso de especialização e garante-se o enfoque pedagógico. Tem-se, então, que:

 

Art. 5º - Os cursos de que trata a presente Resolução terão a duração mínima de 360 (trezentas e sessenta) horas, não computado o tempo de estudo individual ou em grupo sem assistência docente e o destinado à elaboração de monografia ou trabalho de conclusão do curso.

§ 1º - Quando se tratar de curso destinado à qualificação de docentes para o magistério superior do Sistema Federal de Ensino, deve-se assegurar, na carga horária, além do conteúdo específico do curso, o indispensável enfoque pedagógico.

 

Com a Resolução CNE/CES 1/2001 desaparece a garantia de carga horária para o enfoque pedagógico. No texto da Resolução encontram-se questões burocráticas de abertura e funcionamento de cursos e validação de diplomas, entre outras, mas nada no tocante a disciplinas que possam propiciar ao pós-graduando um espaço para formação ou discussão da prática docente no ensino superior. Não há obrigatoriedade legal.

A discussão quanto às determinações referentes ao lócus da formação dos professores para o ensino superior, distante de algum consenso e de uma regulamentação mais eficaz, é agravada pela existência de uma abertura, na Lei 9394/96, para a atuação de docentes sem mestrado ou doutorado: “II - Um terço do corpo docente, pelo menos, com titulação acadêmica de mestrado ou doutorado.” (BRASIL, 1996).

Embora a Lei defina que cabe à pós-graduação preparar os professores para o ensino superior, prioritariamente nos cursos de mestrado e de doutorado, inclui os cursos de especialização como possibilidades para o preparo docente. Quando a Lei estabelece que 1/3 dos professores deve ter o título de mestrado e doutorado, denota que os 2/3 restantes podem ser professores especialistas.

Um fenômeno decorrente da exigência de titulação é uma proliferação de cursos de especialização lato sensu, o que disponibiliza um número considerável de especialistas aptos a atuar como docentes. É importante destacar que, para a instituição, o custo do professor especialista é menor do que o de mestres ou doutores. Em conseqüência, na prática, em instituições particulares, verifica-se o estrito cumprimento da Lei: um terço do quadro docente é formado por mestres e doutores. O restante compõe-se de professores especialistas e até mesmo somente graduados.

 

 

2.2 Formação de Professores para o Ensino Superior: conceitos e experiências

 

 

Na discussão a respeito dos processos formativos para a docência no ensino superior, são utilizados termos tais como “formação de professores”, “formação continuada” e “desenvolvimento profissional”.

Neste trabalho faz-se necessário consolidar o conceito de formação, porque se discutem a formação profissional e a formação docente dos professores investigados. Retoma-se a definição do termo em um dicionário da língua portuguesa: “1. Ato, efeito ou modo de formar. 2. Constituição, caráter. 3. Maneira por que se constituiu uma mentalidade, um caráter, ou um conhecimento profissional.” (FERREIRA, 1999, p. 928).

Como contraponto, traz-se a definição do dicionário de filosofia de Abbagnano (2000, p. 470):

 

No sentido específico que esta palavra assume em filosofia e em pedagogia, em relação com o termo alemão correspondente, indica o processo de educação ou de civilização que se expressa em duas significações de cultura, entendida como educação e como sistema de valores simbólicos.

 

Ao se ler superficialmente a primeira definição, poder-se-ia compreender o termo como “dar forma” (algo preestabelecido), e é assim que ele é concebido rotineiramente. A segunda definição traz as questões culturais, entendidas como educação e sistema de valores. Na articulação dessas duas definições pode-se apreender com maior objetividade o que seja a formação.

Tomando-se o sentido de “dar forma”, passa-se a conceber a formação como conjunto de ações que fazem com que o sujeito, a partir de critérios civilizatórios, valores simbólicos, de caráter e conhecimento profissional predefinidos, se integre a uma cultura, grupo social ou profissão. Retira-se, então, a possibilidade de construção por parte do sujeito. Com a amplitude dada ao processo pela definição de Abbagnano (2000), destaca-se que, para compreender a formação, é preciso apreender os valores culturais envolvidos.

Defende-se neste trabalho que o conceito de formação precisa levar em consideração que a forma, que muitas vezes parece dada, é construída nas atuações do sujeito em sua construção histórica e social – e esta é contínua, encontra-se em constante mutação e se integra aos processos civilizatórios, como escrevem Pimenta e Anastasiou (2002).

A partir do conceito básico de formação passar-se-á para a discussão a respeito da formação docente, especificamente.

Garcia (1999), ao falar da realidade espanhola, defende a utilização do termo “formação de professores”, processo que envolve, segundo ele, duas fases: iniciação ao ensino e desenvolvimento profissional. Para o autor seria pouco realista pensar em um currículo de formação inicial de professores universitários, porque os cursos de pós-graduação têm como objetivo a formação de investigadores. Argumento que se considera, aqui, pertinente também para a realidade da pós-graduação brasileira.

Garcia ressalta que a formação pedagógica dos professores do ensino superior passava, na década de 1990, por uma situação não muito favorável na Espanha. A formação de professores para o nível universitário era uma atividade assistemática, com escasso rigor e pouca investigação.

O panorama de indefinição da formação docente para o ensino superior apresentado pelo autor não difere significativamente da realidade brasileira, excetuando-se iniciativas pontuais em algumas universidades públicas, com a estruturação de grupos de pesquisa e de disciplinas tais como Didática e Pedagogia. Há países, no entanto, em que a formação de professores para o ensino universitário dá-se por meio de cursos com curta duração que se restringem a palestras ou seminários. Esses cursos são definidos por Garcia (1999) como formação inicial, pois ocorrem antes do professor assumir as atividades docentes.

Um aspecto que tem influenciado a discussão da formação docente para o ensino superior em diferentes partes do mundo é a avaliação dos professores universitários, que teve seu auge nos anos 1980, na Europa. Começou a ceder face à evidência de que, antes da avaliação, as instituições universitárias precisariam proporcionar situações para melhorar a qualidade da atuação pedagógica dos professores. A articulação entre avaliação e formação deveria ser processual. Nessa perspectiva, a avaliação não seria assumida como instrumento de controle, mas de aperfeiçoamento e de melhoria.

O autor comenta duas experiências de formação docente nos EUA. Entende-se que nesse país há uma grande variedade de experiências devido à sua extensão e estrutura sociopolítica, como também ao fato de que cada instituição possui autonomia na gestão dos processos formativos, mas neste momento a análise se deterá nessas duas experiências.

O primeiro destaque do autor é o “Faculty Internship Programme”, que desde os anos 1950 oferece seminários semanais sobre planificação, métodos de ensino e ensino eficaz, entre outros temas. O segundo é o projeto da Universidade Estadual da Flórida, que oferece um preparo para professores de Francês que consiste num curso de uma semana a respeito de alunos, professores, universidade, textos e materiais, metodologia, gravações de aulas e análise, gestão da classe e competências interpessoais, métodos e instrumentos de avaliação e utilização de recursos multimídia.

Na Alemanha, Garcia (1999) ressalta que a formação inicial do professor universitário é um requisito para ascender ao ensino superior. A formação é realizada por meio de seminários e práticas de ensino.

Na França foram criados os CIES (Centres d’Initiation a l’Enseignament Superieur), centros que podem atender a diferentes instituições e cuja função é a formação de professores para a universidade. Os bolsistas desses centros realizam tarefas docentes, aulas práticas e orientação de trabalhos, no que são supervisionados por um professor-tutor pedagógico. Freqüentam cursos sobre estruturação do conhecimento e elaboração de conteúdos didáticos, a função da universidade, técnicas audiovisuais, estudos dos sistemas educativos, entre outros tópicos.

As experiências acima elencadas servem como contraponto às questões da formação de professores para o ensino superior em nosso país. Nos três países ocorrem processos sistemáticos de formação para o acesso dos docentes ao ensino superior. A proposta francesa, particularmente, apresenta um processo formativo com maior tempo de duração e com acompanhamento da prática docente, via professor-tutor, oferecendo apoio aos novos docentes na construção da profissionalidade, além de proporcionar-lhes os conhecimentos necessários para a sua atuação em sala de aula.

Segundo Garcia (1999, p. 249), grande parte dos professores universitários inicia a sua formação quando já está exercendo funções docentes. Ele considera que, diante dessa situação,

 

[...] talvez seja mais plausível propor o desenvolvimento de programas de iniciação na profissão docente para aqueles professores universitários que se iniciam na docência. Esse tipo de iniciação tem maior tradição a nível internacional (sic), e a sua organização pode ser mais flexível e prolongada do que a que anteriormente descrevemos relativamente à formação inicial.

 

A fase de iniciação compreende os três primeiros anos de docência. No primeiro ano, os professores iniciantes são aprendizes e se socializam com a cultura e organização da universidade em questão. O autor considera que não se pode falar em cultura e organização universitárias genéricas, pois não há consenso em todas as instituições. Isso exige do professor principiante a preocupação com o processo de reconhecimento da cultura organizacional de cada instituição em que desenvolve seu trabalho docente, de suas normas, rituais e símbolos (GARCIA, 1999).

A socialização do professor principiante, da qual faz parte o reconhecimento da cultura da organização universitária, tem início no período em que o professor ainda é aluno, por meio da observação da atuação pedagógica de seus professores, da participação em grupos de pesquisa e da representação discente em reuniões de colegiados ou conselhos de departamento. Nessas experiências, os professores tanto aprendem comportamentos e mecanismos de funcionamento da universidade, como práticas pedagógicas que podem lhes servir como modelos a serem reproduzidos ou evitados (GARCIA, 1999; PIMENTA; ANASTASIOU, 2002; MASETTO, 1998).

Garcia (1999) afirma que, no primeiro ano de atuação no ensino, a aprendizagem da docência ocorre com certa rapidez, embora essa fase apresente algumas limitações para a formação docente. As limitações e dificuldades da iniciação na carreira docente foram objeto de pesquisas em diferentes países da Europa, segundo o autor.

Dos resultados dessas pesquisas pode-se ressaltar o fato de que, no primeiro ano, os professores principiantes atribuem aos colegas uma posição de apoio para dúvidas e de meio para a integração ao contexto social da universidade. Caso a acolhida dos pares não ocorra da forma esperada pelo professor principiante, tem início uma crise em seu aprendizado que se estende à inserção nas transações interpares na instituição de ensino.

Além dessa dificuldade, foram destacadas pelas pesquisas questões do ensino aprendizagem e da carga docente; problemas de conduta dos alunos; falta de compreensão, recursos, bibliotecas, pessoal de apoio, equipamento, espaço; problemas relativos às condições de trabalho; confrontos com colegas, entre outros. Também foram apontados problemas referentes às investigações desenvolvidas pelos professores principiantes, relativos sobretudo ao desenvolvimento lento, à falta de financiamento, à falta de tempo e à falta de orientação.

Para tentar minimizar os efeitos das dificuldades acima elencadas, surgem propostas para a formação continuada dos professores. Garcia (1999, p. 252) descreve uma dessas propostas, implementada pela Universidade de Survey:

 

Durante o primeiro ano de docência: discussões de grupo sobre problemas de ensino e aprendizagem. Cada principiante é associado a um colega do seu próprio Departamento que lhe dá assessoria.

No final do primeiro ano: realização de um curso intensivo de oito dias centrado nas relações professor-aluno, desde relações autoritárias a relações de orientação e tutoria.

Durante o segundo e terceiro ano: continuação de reuniões grupais e pequenos cursos sobre temas pedidos pelos professores.

 

É importante destacar que essa proposta engloba os três anos da iniciação docente. Propõe a atuação do professor-tutor, que teria como atribuições auxiliar o professor iniciante no processo de socialização profissional e na inserção na instituição, discutir as dúvidas referentes a questões de sala de aula e acompanhar a reflexão do professor iniciante sobre sua prática.

Após o terceiro ano de ensino, o professor passa para a segunda fase descrita por Garcia (1999), a do desenvolvimento profissional. O desenvolvimento profissional do professor universitário, segundo o autor, pode ser compreendido como processo em que a articulação da teoria e da prática visa ao aperfeiçoamento da ação docente em diversos domínios: intelectual, institucional, pessoal, social e pedagógico.

A preocupação com a formação docente para o ensino superior ganhou espaço na Espanha em 1999, segundo Garcia, com o surgimento de iniciativas para o aperfeiçoamento de docentes desse nível de ensino. Nesse contexto, o próprio autor obteve a aprovação de um projeto para o aperfeiçoamento da prática docente via seminários de formação com componente reflexivo.

Além de Garcia, traz-se a contribuição do texto de Pimenta e Anastasiou (2002), que discute o desenvolvimento profissional docente para o ensino superior no Brasil. As autoras afirmam que os professores do ensino superior no país vivem um processo contínuo de reconstrução de uma identidade profissional, processo este compreendido como desenvolvimento profissional.

As autoras consideram que o principal fundamento para a atuação docente no ensino superior é a sua função política. Na mesma linha, Imbernón (2004, p. 27) afirma que:

 

Ser um profissional da educação significará participar da emancipação das pessoas. O objetivo da educação é ajudar a tornar as pessoas mais livres, menos dependentes do poder econômico, político e social. E a profissão de ensinar tem essa obrigação intrínseca.

 

Outros autores argumentam no mesmo sentido (CHARLOT, 2001; CUNHA 1989, 2005), ressaltando a função política do professor, particularmente diante de determinadas condições histórico-sociais. Nas palavras de Cunha (1989, p. 24):

 

Uma visão simplista diria que a função do professor é ensinar e poderia reduzir este ato a uma perspectiva mecânica, descontextualizada. É provável que muitos dos nossos cursos de formação de professores limitem-se a esta perspectiva. Entretanto, sabe-se que o professor não ensina no vazio, em situações hipoteticamente semelhantes. O ensino é sempre situado, com alunos reais em situações definidas.

 

A capacidade de contextualizar histórica, cultural e socialmente a ação docente, levando em conta o papel do professor, o papel do aluno, o conteúdo trabalhado e o processo de elaboração de conhecimento deve fazer parte da formação para a docência no ensino superior. Essa capacidade é definida, nesta pesquisa, como olhar tridimensional, sendo resultante da integração de um olhar individualizado — capacidade de ver cada aluno em sua especificidade —, de um olhar contextual — capacidade de levar em consideração o espaço/tempo em que atua — e de um olhar politizado — capacidade de contextualizar historicamente a sua realidade e agir politicamente. Portanto, o olhar do professor passa a ser relativizado, tanto pelas situações que vivencia, quanto pelos contextos dos quais participa.

Quando o professor tem um olhar tridimensional pode favorecer o amadurecimento político dos alunos. Freire reitera a existência de uma função política na prática educativa (1996, p. 69):

 

Creio poder afirmar, na altura destas considerações, que toda prática educativa demanda a existência de sujeitos, um que, ensinando, aprende, outro que, aprendendo, ensina, daí o seu cunho gnosiológico; a existência de objetos, conteúdos a serem ensinados e aprendidos, envolve o uso de métodos, de técnicas, de materiais; implica, em função de seu caráter diretivo, objetivos, sonhos, utopias, ideais. Daí a sua politicidade, qualidade que tem a prática educativa de ser política, de não poder ser neutra.

 

Ao se entrar em sala de aula como professor, assume-se a responsabilidade de ajudar os alunos a tornarem-se autônomos cognitiva e socialmente, auxiliá-los a articular conhecimentos e refletir sobre questões sociais – assume-se um papel político. Esse processo exige que se ensinem os alunos a pensar. Freire (1996, p. 26) traz uma discussão fundamental nesse sentido:

 

Percebe-se, assim, a importância do papel do educador, o mérito da paz com que viva a certeza de que faz parte de sua tarefa docente não apenas ensinar os conteúdos mas também ensinar a pensar certo. Daí a impossibilidade de vir a tornar-se um professor crítico se, mecanicamente memorizador, é muito mais um repetidor cadenciado de frases e de idéias inertes do que um desafiador.

 

O autor fala em “pensar certo”. Precisa-se, então, compreender o que isso significa para ele. Destaca-se, a seguir, um excerto esclarecedor (FREIRE, 1996, p. 29-37):

 

Pensar certo, em termos críticos, é uma exigência que os momentos do ciclo gnosiológico vão pondo à curiosidade que, tornando-se mais e mais metodicamente rigorosa, transita da ingenuidade para o que venho chamando ”curiosidade epistemológica”. A curiosidade ingênua, de que resulta indiscutivelmente um certo saber, não importa que metodicamente desrigoroso, é a que caracteriza o senso comum. O saber de pura experiência feito. Pensar certo, do ponto de vista do professor, tanto implica o respeito ao senso comum no processo de sua necessária superação quanto o respeito e o estímulo à capacidade criadora do educando. Implica o compromisso da educadora com a consciência crítica do educando, cuja “promoção” da ingenuidade não se faz automaticamente...

 

O autor afirma que a grande tarefa do sujeito que “pensa certo” não é transferir, depositar, doar ou oferecer seu pensar, mas exercer a prática de desafiar o educando, com quem se comunica e a quem comunica, a produzir a sua compreensão. O pensar certo se fundamenta no diálogo e nele se constrói. Evoca-se, então, o conceito de dialogicidade utilizado pelo autor:

 

A dialogicidade não nega a validade de momentos explicativos, narrativos, em que o professor expõe ou fala do objeto. O fundamental é que o professor e os alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto falam ou enquanto ouvem. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos. (FREIRE, 1996, p. 86).

 

Portanto, após a apresentação dos significados do termo formação em dicionários, do estudo dos processos formativos de docentes para o ensino superior em diferentes países e finalmente da consideração dos elementos constitutivos da prática docente e suas exigências para a formação, compreende-se o conceito de formação como espaço — geográfico, social, político, cognitivo e psicológico — em que o sujeito se constitui como profissional, no qual adquire um sistema de valores simbólicos que lhe proporciona a elaboração de capacidades, atitudes, valores e concepções para desenvolver determinadas atividades e funções.

Esse conceito de formação pretende fundamentar uma possibilidade de compreensão do processo vivenciado pelos professores no ensino superior.

 

 

2.3 Docência no Ensino Superior: contexto de atuação

 

 

Para desenvolver a docência universitária, é fundamental que o docente seja capaz de perceber, entender, analisar e acompanhar as mudanças que ocorrem no ensino superior no século XXI.

Diante da nova configuração social e das conseqüentes novas disposições inerentes ao trabalho docente no ensino superior, buscaram-se caminhos para compreender as transformações nelas implicadas. Masetto (2003) destaca didaticamente quatro aspectos que se encontram em processo de mudança no ensino superior[4], quais sejam:

·       processo de ensino;

·       incentivo à pesquisa;

·      parceria e co-participação entre professor e aluno no processo de aprendizagem;

·      perfil docente.

Quanto ao ensino, o autor destaca a necessidade da busca por métodos e técnicas que auxiliem o desenvolvimento da aprendizagem dos alunos, de modo que o foco do processo seja o aluno e não a transmissão dos conhecimentos do professor. A transmissão constitui-se em uma relação na qual o professor, que “sabe”, ensina aos alunos, que “não sabem”. Não há interação entre os diferentes atores do processo.

Ao professor, cabe ir além dos limites do conhecimento curricular e dispor-se a explorar os valores éticos, sociais, econômicos e políticos na resolução de situações práticas, ultrapassando questões técnicas. A forma da atuação docente no processo de ensino pode auxiliar a transformar seres humanos, como também, via práxis humana, transformar a realidade social em que vivemos.

Quanto ao segundo item, incentivo à pesquisa, Masetto (2003) destaca que se iniciou, no final da década de 1960, no Brasil, uma tentativa de articular pesquisa e docência, por meio da Lei 5540/68. Em 1968, desenvolveram-se, em diferentes universidades brasileiras, cursos de pós-graduação cujo foco era a produção de pesquisas científicas. A pesquisa passou a fazer parte da organização curricular de diversas instituições de ensino, modificando-a.

Ao corpo docente dessas instituições foram atribuídas, além de ministrar as aulas, as funções de realizar pesquisas, produzir e divulgar os conhecimentos científicos. Entretanto, para que a produção científica docente ocorra de forma efetiva, não basta a atribuição de funções; faz-se necessária uma política de incentivo, que forneça ao docente condições institucionais e pessoais adequadas. É importante, ao mesmo tempo, que tal política se estenda às universidades privadas, a fim de que todos os alunos tomem contato com a produção científica e, dessa forma, aprendam a fazer pesquisa.

O terceiro aspecto que, segundo Masetto (2003), tem se transformado no âmbito do ensino superior refere-se à parceria e à co-participação entre professor e aluno no processo de aprendizagem, atreladas a uma nova configuração do ensino.

O quarto aspecto salientado pelo autor é o perfil do professor, que se articula intimamente à questão da parceria e da co-responsabilidade entre professor e aluno. O autor propõe um novo perfil docente que requer a capacidade de articulação dos conteúdos nas disciplinas, das disciplinas no currículo e do próprio currículo na área do saber em que se inscreve. O professor é um gestor do currículo, devendo abordá-lo com um olhar tridimensional, que articule o olhar individualizado — capacidade de ver cada aluno em sua especificidade —, o olhar contextual — capacidade de levar em consideração o espaço/tempo em que atua — e o olhar politizado — capacidade de contextualizar historicamente a sua realidade e agir politicamente.

Muitas vezes, o professor imagina que o aluno reconhece previamente a importância que a sua disciplina tem para o curso e, principalmente, para a prática profissional que pretende desempenhar. Essa falácia faz com que chegue em sala impondo um plano de curso que se fundamenta em pressupostos determinados apenas por ele, e não construídos pelo grupo.

A questão a ser discutida neste momento é o conceito de currículo, que ultrapassa a grade curricular e diz respeito a todas as aprendizagens envolvidas na profissão, a saber: o trabalho em equipe, o trabalho colaborativo, o trabalho cooperativo, os papéis e funções da equipe multidisciplinar, as formas de comunicação com os colegas e com todas as pessoas que compõem a comunidade escolar.

Quando os professores não participam da elaboração do currículo, segundo Masetto (2003, p. 66), “...o aluno termina sua faculdade com o conhecimento distribuído por compartimentos, sem integrá-los, devendo conseguir esta façanha a duras penas durante o exercício de sua profissão”.

O papel do professor passa a ser de profissional da ensinagem, que incentiva e motiva o aluno, por meio das interações educacionais e sociais que se estabelecem, a tornar-se aprendiz; agente autônomo no processo de elaboração e reelaboração de conhecimento.

Masetto (2003), ao analisar as mudanças no perfil do professor, aponta três grandes blocos de exigências que se apresentam ao docente do ensino superior:

·         antes de tudo, que ele seja competente em determinada área de conhecimento;

·         que domine a área pedagógica, estruturando o processo ensino e aprendizagem, concebendo e gerindo o currículo, mediando as relações com os alunos e entre os alunos no processo de aprendizagem e manejando a tecnologia educacional;

·         que exercite a dimensão política de sua prática.

O primeiro bloco de exigências proposto por Masetto (2003) engloba o domínio dos conhecimentos básicos de determinada área, articulados à prática profissional. A articulação dos conhecimentos teóricos e práticos pode ocorrer na formação ou na atuação profissional. Outro elemento importante, especificamente no ensino superior, é a proximidade com a pesquisa; o professor deve ter conhecimento dos fundamentos teóricos-metodológicos de pesquisa e oportunidade de realizá-la, o que deve ocorrer no âmbito dos cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado).

O segundo bloco de exigências articula-se ao primeiro, e refere-se ao domínio da área pedagógica. Alguns docentes que atuam no ensino superior apresentam carência nessa área de conhecimento (MASETTO, 2003; CUNHA, 2005). Duas possíveis razões poderiam explicar esse fato: ou os professores não tiveram oportunidade de entrar em contato com a área, ou, diversamente, consideram-na supérflua ou desnecessária para o seu desenvolvimento docente. Entende-se, no entanto, que a articulação estruturada do processo ensino e aprendizagem a partir do conhecimento das tecnologias e práticas pedagógicas e da gestão do currículo é fundamental para o sucesso da tarefa docente.

O terceiro e último bloco de exigências nomeado por Masetto (2003) a partir da análise da mudança do perfil docente no ensino superior é a dimensão política no exercício da docência. Segundo o autor, ao entrar em sala de aula para ministrar uma disciplina, o professor não deixa de ser um cidadão, parte de um povo que vive um processo dialético de construção de sua história. O ser político não se desprende do docente quando desenvolve sua função; o professor constantemente manifesta sua visão de mundo, de justiça e de vida em sociedade.

Diante disso, professor e alunos devem construir uma reflexão a respeito das várias possibilidades e dos limites da postura política na atuação profissional. “Conciliar o técnico com o ético na vida profissional é fundamental tanto para o professor quanto para o aluno.” (MASETTO, 2003, p. 32). Dessa forma, o ambiente de sala de aula é invadido por discussões pertinentes ao plano político e social; todos os atores são seres políticos e precisam assumir essa postura como profissionais.

Ao analisar a necessária mudança do perfil do professor nos aspectos referentes ao conhecimento pedagógico, Masetto (2003) propõe como foco o processo ensino aprendizagem, que define como objetivo máximo da docência no ensino superior. Nessa perspectiva, o aluno precisa tornar-se autônomo e gestor de seu processo de aprendizagem. O professor, por sua vez, assume o papel de mediador pedagógico da aprendizagem do aluno, compartilhando com ele a responsabilidade, as alegrias e incertezas do processo.

O aluno é responsável por sua aprendizagem em conjunto com o professor, que se constitui, como se disse, em mediador pedagógico desse processo. Ao trabalhar com alunos no ensino superior, o professor precisa levar em consideração que são adultos, com quem, portanto, podem ser estabelecidas relações de co-responsabilidade: classe-professor, aluno-professor e aluno-aluno.

No espaço da sala de aula, os participantes experimentam interações geradoras de reflexão sobre conteúdos ou atitudes que conduzem à estruturação do conhecimento. Quando o professor compartilha com os alunos a responsabilidade pelas mudanças na sala de aula, as aulas são assumidas como resultado das negociações que nelas ocorrem. Ao iniciar o trabalho educativo, o professor pode conquistar o aluno, que passa a vê-lo como seu aliado no processo de formação, por meio de um contrato didático. Caso isso não ocorra, a conquista torna-se mais difícil e exige do professor um maior esforço. Masetto (2003) faz uma analogia interessante, na qual concebe o professor como ponte “rolante” entre o aluno e o conhecimento.

Interagir e construir um ambiente de troca, uma relação dialógica na qual todos os participantes encontram-se lado a lado, com suas individualidades, especificidades, histórias de vida e experiências, pode ser o objetivo da atuação do professor em sala de aula. Cada um mantém suas funções específicas. O professor não deixa de ser professor; ele é o responsável pela condução das interações no espaço de ensino, que se desenvolvem no contato entre os sujeitos envolvidos. Da interação em sala de aula, ademais, participam personagens que podem não estar presentes fisicamente, mas estão presentes sob a forma de expressões, falas, conceitos e discursos dos participantes.

Algumas interações produzem conseqüências planejadas pelos professores, outras desencadeiam processos inesperados. Cita-se um exemplo: uma professora, em uma aula de Didática, abordou assuntos referentes ao relacionamento interpessoal entre profissional e paciente e entre profissionais, mencionando relações afetivas e familiares. No final da aula, uma aluna a procurou dizendo que havia sido afetada pela reflexão suscitada ali e que esta lhe faria mudar algumas coisas em sua vida pessoal.

A aula de Didática não tinha como objetivo explícito fazer com que os alunos repensassem suas vidas ou iniciassem processos íntimos de mudança, mas causou essa reação naquela aluna. Toda a carga emotiva da situação desencadeou uma reflexão da docente a respeito de seu papel e de até que ponto as pessoas podem ser tocadas nas interações em sala de aula. Segundo Masetto (2003, p. 28),

 

[...] nos preocupamos com que nossos alunos aprendam conhecimentos, informações, se desenvolvam intelectualmente, pouco nos importando com o desenvolvimento de suas habilidades humanas e profissionais e de seus valores de profissionais e cidadãos comprometidos com os problemas e a evolução de sua sociedade.

 

Faz parte da formação profissional o desenvolvimento de habilidades relacionais (empatia, respeito, atenção, saber ouvir); valores pessoais e sociais que serão fundamentais para o desempenho profissional. Os professores do ensino superior podem ser considerados conceptores e gestores de um currículo quando assumem a formação do profissional em seus aspectos cognitivos, afetivos, sociais, políticos e culturais. Essa formação transcende as paredes da sala de aula ou da instituição de ensino e atinge outros ambientes de convívio social do aluno.

A relação professor-aluno, a partir da mudança de perfil do professor — com base na aquisição de conhecimentos pedagógicos —, adquire uma nova configuração, na qual o professor passa a ser o mediador das atividades de aprendizagem do aluno, motivando-o e incentivando-o no processo de ensino. O incentivo ocorre via feedbacks constantes que demonstram a atenção que o professor dedica ao processo de aprendizagem do aluno, orientando-o em suas dificuldades durante o percurso que constroem juntos. Instituem-se, assim, relações de parceria, co-participação e co-responsabilidade.

Para enriquecer o ambiente de aprendizagem, o professor precisa conhecer e utilizar tecnologias facilitadoras e motivadoras do processo de ensinagem. O uso de técnicas e estratégias de ensino diferenciadas, que explorem, entre outros aspectos, o trabalho em grupo, é importante no desenvolvimento das atividades em sala de aula. Entretanto, atualmente, com a revolução das tecnologias da informação, impõe-se ao professor uma nova função: educar os alunos de forma ética e moral para o uso das tecnologias, trazendo-as para o ambiente de aprendizagem como ferramentas para o trabalho pedagógico e fontes de informação. É necessário considerar que os alunos, hoje, sabem onde buscar informações. Será preciso, então, ensinar-lhes a selecionar tais informações e usá-las na elaboração de conhecimentos úteis para si e para a comunidade em que vivem.

O papel do professor no ensino superior foi também discutido por Anastasiou (2004b), que apoiada no Ratium Studiorum – manual do modelo jesuítico datado de 1599. Menciona os três passos básicos de uma aula convencional: preleção do conteúdo pelo professor, levantamento das dúvidas dos alunos e exercícios para fixação, cabendo ao aluno a memorização para a prova.

Quantos de nós não nos recordamos de inúmeras aulas assim? O problema não está na preleção do professor, que é fundamental, mas na falta de diálogo com o aluno. Este último tem um conhecimento prévio que deve ser levado em consideração no ensino. A aprendizagem resulta da articulação entre os conhecimentos prévios dos alunos e os conteúdos apresentados pelo professor, de onde surge a possibilidade de produção de conhecimento.

Para que o aluno se torne o foco do ensino (ANASTASIOU, 2004a), é importante que se estruture uma nova perspectiva, na qual o professor auxilie o aluno no aperfeiçoamento de sua capacidade de pensar, de articular o conhecimento adquirido com seu conhecimento prévio e de expressar, por meio de diferentes linguagens a elaboração do conhecimento novo.

Essa nova forma de conceber o ensino e a aprendizagem em nível superior é definida por Anastasiou (2004b) como processo de ensinagem:

 

[...] contém em si duas dimensões: uma utilização intencional e uma de resultado, ou seja, a intenção de ensinar e a efetivação dessa meta pretendida [...]. Mesmo tendo uma sincera intenção de ensinar, se a meta (a apreensão, a apropriação do conteúdo por parte do aluno) não se efetivou plenamente, como seria necessário ou esperado para prosseguir o caminho escolar do aluno, posso dizer que ensinei? Terei cumprido as duas dimensões pretendidas na ação de ensinar? (ANASTASIOU, 2004b, p. 13).

 

A autora fala em apreensão do conteúdo por parte do aluno. Apreender, por sua vez, diferencia-se de aprender, mesmo que nos dois verbos exista uma relação entre sujeito e conhecimento. Apreender provém da palavra latina “...apprehendere, que significa: segurar, prender, pegar, assimilar mentalmente, entender, compreender, agarrar.” (ANASTASIOU, 2004b, p. 14). Logo, apreender exige uma ação: tomar para si, apropriar-se de algo. O verbo aprender, por outro lado, deriva de apreender e significa tomar conhecimento, reter na memória, receber informação.

Para atingir o objetivo do segundo verbo no ensino, basta uma boa palestra; é o suficiente para transmitir uma informação. No entanto, se o objetivo é a apropriação do conhecimento, o processo afasta-se da mera memorização em direção a uma ação por parte do aluno, que precisa ser mediada pelo professor, de assimilação, compreensão e articulação das informações que lhe são transmitidas.

Segundo Anastasiou (2004b, p. 14) seria necessário: “...revisar o ‘assistir a aulas’, pois a ação de apreender não é passiva. O agarrar por parte do aluno exige ação constante e consciente: informar-se, exercitar-se, instruir-se”.

O termo “ensinagem” é, portanto, usado pela autora para indicar:

 

[...] uma prática social complexa efetivada entre os sujeitos, professor e aluno, englobando tanto a ação de ensinar quanto a de apreender, em um processo contratual, de parceria deliberada e consciente para o enfrentamento na construção do conhecimento escolar, decorrente de ações efetivadas na sala de aula e fora dela. (ANASTASIOU, 2004b, p. 14).

 

No processo de ensinagem, o saber escolar tem um aspecto que pode ser percebido pelo aluno: do latim sapere – ter gosto, ou seja, o apreço que o professor tem por aquilo que ensina. O saber inclui, segundo Anastasiou (2004b, p. 15): “...um saber o quê, um saber como, um saber por quê e um saber para quê.

Para tanto, o professor deve ter clareza do que é apreender, como se pode apreender de forma significativa, o que é necessário apreender e, principalmente, para que apreender.

 

 

2.4 Docência em Saúde: legislação, contexto e práticas

 

 

Nesta seção, apresentam-se: um panorama legal que define as diretrizes para a docência em Saúde estabelecidas por políticas nacionais, uma discussão teórica a respeito da formação de professores para a área da Saúde e relatos de experiências de formação docente nessa área.

Para iniciar o panorama legal destaca-se a definição de Saúde na Constituição de 1988:

 

Art. 196  - A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. (BRASIL, 1988, p. 65).

 

Nesse artigo é assegurado ao cidadão o direito à saúde, estabelecendo-se que é dever do Estado garantir que esse direito se efetive mediante políticas nacionais. Decorre daí a necessidade de formação de profissionais capacitados para o desenvolvimento das ações e serviços necessários.

No artigo 200 da Constituição institui-se o Sistema Único de Saúde:

 

Art. 200 - Ao Sistema Único de Saúde compete, além de outras atribuições, nos termos da lei:            

I  -  controlar e fiscalizar procedimentos, produtos e substâncias de interesse para a saúde e participar da produção de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, hemoderivados e outros insumos;   

II  -  executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica, bem como as de saúde do trabalhador;           

III  -  ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde;          

IV  -  participar da formulação da política e da execução das ações de saneamento básico;           

V  -  incrementar em sua área de atuação o desenvolvimento científico e tecnológico;  

VI  -  fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano;  

VII  -  participar do controle e fiscalização da produção, transporte, guarda e utilização de substâncias e produtos psicoativos, tóxicos e radioativos;       

VIII  -  colaborar na proteção do meio ambiente, nele compreendido o do trabalho. (BRASIL, 1988, p. 66).

 

Com o estabelecimento do Sistema Único de Saúde constata-se uma tentativa de organização da assistência à saúde em âmbito nacional. A estrutura burocrática e administrativa do sistema é regulamentada, definindo-se suas funções e competências: controle e fiscalização de alimentos, procedimentos, medicamentos, equipamentos e insumos relativos à prevenção e manutenção da saúde e questões relativas à vigilância sanitária e epidemiológica, articuladas à proteção do meio ambiente.

São destacados, neste trabalho, os itens III e V do artigo 200, que tratam da formação e atuação de profissionais da área. No item III, particularmente, afirma-se explicitamente que cabe ao SUS[5] ordenar a formação dos recursos humanos para a área da Saúde. Mas, como se pode compreender a palavra ordenar?

Segundo o dicionário Aurélio, ordenar significa: “1- Determinar por ordem; mandar que se faça; determinar; 2- Pôr em ordem; arranjar; dispor; 3- Dispor; traçar; preparar.” (FERREIRA, 1999, p. 1453). No dicionário Houaiss o verbete ordenar é assim definido:

 

1- colocar (série de pessoas ou coisas) em (certa ordem); dispor de forma organizada; dar forma regular ou harmônica às partes de (um todo); arrumar, organizar. 2- colocar-se, entrar em ordem; dar (a si próprio, às próprias atividades) forma organizada; organizar-se. 3- exigir, como autoridade superior, que se cumpra (algo); dar ordens (para); mandar, determinar, prescrever. 4- fazer ver; mostrar como desejado, aconselhável ou indispensável; determinar, prescrever, recomendar. (HOUAISS, 2001, p. 2077).

 

Neste trabalho, compreende-se o texto do item III do artigo 200 da Constituição Federal da seguinte maneira: ao SUS cabe propor, de forma organizada, uma formação para os profissionais da área da Saúde condizente com os princípios norteadores do Sistema, em função de sua efetividade social.

Essa formação deve também abranger o que a Lei determina, no item V do mesmo artigo, quanto ao desenvolvimento científico e tecnológico na área da Saúde e implicar, portanto, o incentivo à pesquisa em diferentes instituições.

A fim de efetivar o que fora determinado na Constituição de 1988, operacionalizando o funcionamento do Sistema Único de Saúde, foram instituídas regras para os diferentes níveis governamentais – municipal, estadual e federal. A Norma Operacional Básica atualmente em vigor (NOB/96[6]) foi instituída pela Portaria nº 2203, publicada no Diário Oficial da União em 06 de novembro de 1996, e baseou-se na NOB de 1990 e na NOB de 1993.

Na apresentação da NOB/96, o então Ministro da Saúde, Carlos César de Albuquerque, salientou que a Norma era resultado de amplo e participativo processo de discussão.

A marca dessa Norma foi a participação das diferentes instâncias envolvidas no Sistema. A NOB/96 amplia o investimento nos programas de Saúde da Família (PSF) e de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), criados para contemplar as definições da Constituição de 1988.

 

O PSF é uma estratégia que prioriza as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do recém-nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral e contínua. (BRASIL, 2001a, p. 5).

 

O Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) teve início em 1991. Em 1994 foram organizadas as primeiras equipes do PSF, ampliando-se, assim, a atuação dos agentes comunitários. Em 2001 foi publicada a cartilha do Programa da Saúde da Família, após cerca de 10 anos do início do PACS. O objetivo do PSF foi explicitado no documento legal como:

 

[...] a reorganização da prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e realizado principalmente no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir de seu ambiente físico e social, o que vem possibilitando às equipes de Saúde da Família uma compreensão ampliada do processo saúde/doença e da necessidade de intervenções que vão além das práticas curativas. (BRASIL, 2001a, p. 5).

 

A ênfase educativa preventiva é fundamental para a manutenção da saúde. Entretanto, como revela o texto acima, as práticas curativas ainda são amplamente utilizadas, o que, juntamente com outros fatores de macro-estrutura, impossibilita a mudança do paradigma que rege o Sistema de Saúde no país.

Reconhecem-se no PSF e no PACS tentativas de mudança de paradigma, mas se deve ter clareza de que a sua implementação e, particularmente, a sua relação com a formação de profissionais dependem de inúmeras variáveis. Dentre elas, aquelas relacionadas ao ensino na área da Saúde.

O PSF constituiu-se tendo como fundamentos os princípios básicos do SUS: universalização, descentralização, integralidade e participação da comunidade. Nesse sentido, cabe às equipes do PSF: a) conhecer a realidade das famílias pelas quais são responsáveis, via cadastramento e diagnóstico; b) identificar os problemas de saúde prevalentes e situações de risco a que as populações encontram-se expostas; c) elaborar planos locais para enfrentamento dos determinantes da saúde ou doença da população sob sua responsabilidade, com a participação da comunidade; d) prestar atendimento integral em todas as situações, na casa, na unidade da saúde da família ou em ambulatórios de referência; e) desenvolver ações educativas intersetoriais para solucionar problemas identificados. (BRASIL, 2001a).

No documento do PSF foram definidos os objetivos para os pólos participantes: a sensibilização, capacitação das equipes de saúde da família com relação às bases conceituais do programa e à atualização técnica dos profissionais; educação permanente nos diferentes campos relacionados à saúde da família via cursos de especialização com formação de multiplicadores e supervisores; atividades e estratégias para o impacto na formação profissional em nível de graduação e residência em Saúde da Família (BRASIL, 2001a). Os quatro objetivos propostos referem-se diretamente à formação dos profissionais da área da Saúde, ou seja, estão implicados na docência no ensino superior em Saúde.

Além dessas bases para a formação de profissionais na área da Saúde, em 2003 o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Humanização (PNH), que define quatro diretrizes:

 

1-    Reduzir as filas e o tempo de espera, com ampliação do acesso e atendimento acolhedor e resolutivo, baseado em critérios de risco;

2-    Assegurar que todos os usuários do SUS conheçam os profissionais que cuidam de sua saúde e que os serviços de saúde se responsabilizem por sua referência territorial;

3-    Garantir aos usuários o acesso às informações e a presença de acompanhante de sua livre escolha em todos os momentos do cuidado de sua saúde, bem como os demais direitos dos usuários do SUS;

4-    Consolidar, nas unidades de saúde, a gestão participativa dos seus trabalhadores e usuários, assim como a educação permanente aos trabalhadores de saúde. (BRASIL, 2003).

 

Essa política estabelece mudanças nos princípios do atendimento oferecido, propondo um relacionamento mais próximo entre profissionais e usuários do Sistema de Saúde. Essas mudanças interferem na qualidade do serviço prestado, seja com a ampliação de atendimento acolhedor e resolutivo com base nos critérios de risco, seja quando propõem que o usuário conheça os profissionais que lhe assistem por meio da responsabilização por determinados espaços territoriais. Além disso, instituem uma assistência mais humana, ao garantir ao paciente o acesso às informações a respeito do diagnóstico e do tratamento a que será submetido e ao assegurar-lhe o direito a um acompanhante em todos os momentos de atendimento. (BRASIL, 2003).

Assim se consolidam, nas unidades de saúde, a gestão participativa e a formação permanente dos trabalhadores da área. Essas propostas realmente estreitam as relações pessoais no atendimento, além de garantir direitos humanos aos pacientes, respeitando sua dignidade.

Os princípios básicos da Política de Humanização permitem que se compreendam as iniciativas dela decorrentes:

 

- Valorização da dimensão subjetiva e social em todas as práticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com os direitos do cidadão, destacando-se o respeito às questões de gênero, etnia, raça, orientação sexual e às populações específicas (índios, quilombolas, ribeirinhos, assentados etc.);

- Fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentando a transversalidade e a grupalidade;

- Apoio à construção de redes cooperativas, solidárias e comprometidas com a produção de saúde e com a produção de sujeitos;

- Construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos implicados na rede do SUS;

- Co-responsabilidade desses sujeitos nos processos de gestão e atenção;

- Fortalecimento do controle social com caráter participativo em todas as instâncias gestoras do SUS;

- Compromisso com a democratização das relações de trabalho e valorização dos profissionais de saúde, estimulando processos de educação permanente. (BRASIL, 2003).

 

Esses princípios definem a gestão participativa do SUS, o atendimento democrático com respeito à diversidade social, a instalação de equipes multiprofissionais e a responsabilização de todos os envolvidos pelo funcionamento do Sistema. Isso requer a formação de profissionais que tenham, além dos conhecimentos técnicos, conhecimentos de gestão.

Para viabilizar a implementação da PNH o Ministério da Saúde propõe, ainda, o programa Humaniza SUS, cujo objetivo é traduzir os princípios do SUS de maneira a operar, no cotidiano, as práticas de atenção e gestão, por meio da construção, entre gestores, trabalhadores da Saúde e usuários, de trocas solidárias, comprometidas com a produção de saúde e a produção de sujeitos (BRASIL, 2003). A implementação dos princípios do SUS pelo programa Humaniza SUS se faz por meio de cartilhas, informativos, palestras e oficinas, entre outras técnicas.

 No âmbito da formação profissional, o movimento de mudanças teve início com a definição das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos da área da Saúde. Segundo N. Batista e S. Batista (2004, p. 21):

 

[...] no âmbito dos cursos da Saúde, um dos condicionantes mais impactantes têm sido as diretrizes curriculares. Ao inovar, trazendo um perfil comum à área, elas sinalizam que os currículos de graduação devem atentar para a questão da humanização e da ética; do aluno como sujeito do conhecimento; da problematização como estratégia metodológica privilegiada; da integração dos currículos com o Sistema Único de Saúde (SUS); da educação permanente como instrumento em um contexto de tantas e tão significativas transformações econômicas, políticas e educacionais.

 

Com a definição de um perfil comum à área e com a necessária articulação da formação com os princípios do SUS tem-se a intenção de que se estruture, no país, um ensino mais engajado com as questões sociais. Isso exige adequações do perfil docente, seja no âmbito do ensino, no da aprendizagem ou no da articulação desses elementos com a prática social da profissão.

A questão da formação de professores para a área da Saúde constitui um campo de pesquisa complexo e urgente. Ao discutir a formação de professores, N. Batista e S. Batista (2004) afirmam que a complexidade decorre das tensões entre as perspectivas teórico-metodológicas, que buscam contribuir para a formulação de políticas de formação que ultrapassem os limites das capacitações e atualizações pontuais.

Os autores consideram que são necessárias mudanças na postura dos docentes; eles precisam passar de meros repetidores de propostas pedagógicas a interlocutores dessas propostas. Devem ser capazes de articulá-las com os movimentos sociais e seus determinantes para que possam tornar, a partir da problematização, a aprendizagem dos alunos significativa. Os autores ressaltam, ainda, que a docência no ensino superior tem sido definida pela atividade de pesquisa, e a formação docente tem sido constantemente secundarizada (BATISTA, N.; BATISTA, S., 2004).

N. Batista e S. Batista (2004), com base em investigações realizadas nos últimos 15 anos, apresentam duas concepções do processo de formação: 1- como processo de reflexão; 2- como treinamento didático/ exercício docente. Na primeira concepção destacam uma perspectiva de formação como oportunidade para a reflexão sobre o trabalho docente em Saúde, o que envolve diferentes áreas do conhecimento, que, em geral, negligenciam as discussões a respeito do processo ensino e aprendizagem. Segundo os autores:

 

Configura-se, dessa maneira, que formar o professor universitário da área da Saúde em uma perspectiva reflexiva implica contextualizá-lo e compreender os impactos e exigências que os novos cenários trazem para o exercício da docência. O que poderia ser considerado lugar-comum e/ou obviedade no âmbito da Educação adquire fortes tons de inovação em outras searas – a compreensão desse quadro somente é ampliada com um olhar histórico. (BATISTA, N.; BATISTA, S., 2004, p. 21).

 

Ao afirmar que o que poderia ser considerado lugar-comum na Educação constitui uma inovação para outras áreas, os autores ratificam o que foi defendido quanto à necessidade de diálogo entre a área da Educação e as demais, com o objetivo de possibilitar, a estas, conhecer o desenvolvimento histórico dos próprios processos ensino e aprendizagem, suas especificidades e diferenças em relação aos processos vivenciados e teorizados na área da Educação.

Nos cursos universitários das áreas de exatas e humanas, dois elementos estão envolvidos: o ensino e a aprendizagem, que se desenvolvem na relação entre professor e aluno. Já na área das ciências biológicas, mais especificamente nos cursos da área da Saúde, objeto desta pesquisa, institui-se uma tríade: ensino-aprendizagem-assistência, e o processo se desenvolve na relação professor-aluno-paciente.

A concepção de formação como treinamento didático/ exercício docente é defendida por N. Batista e S. Batista (2004) como inovação para a área da Saúde, pois, como mencionaram, lugares-comuns da área da Educação são inovações em outras áreas. Nessa concepção, a formação para o trabalho docente é reconhecida como aquisição de conhecimentos sistematizados acerca de planejamento, estratégias de ensino e práticas avaliativas, o que poderia ser considerado uma abordagem tecnicista. Mas ela vai além, atingindo uma nova perspectiva a partir da discussão da formação na prática docente.

Na área da Saúde há diferentes iniciativas de discussão da docência, mas estas estão circunscritas a determinadas profissões. Há uma ampla discussão a respeito do ensino médico, tanto em âmbito nacional (Revista da Associação Médica), quanto internacional (revistas Medical Education e Medical Teacher). Dessas publicações analisaram-se os artigos relativos às habilidades e papéis docentes.

Em dois artigos a respeito da Educação Médica publicados nos EUA, são elencadas habilidades ou regras necessárias à prática docente. Harden e Crosby (2000) realizaram uma investigação a respeito das mudanças no perfil docente decorrentes das transformações históricas e educacionais. Os autores destacam doze papéis que o bom professor desempenha em sua atuação: mentor, facilitador da aprendizagem, palestrante, professor clínico ou prático, elaborador de recursos materiais, produtor de guias para estudo, organizador de curso, planejador de currículo, avaliador de currículo, assessor de estudantes, modelo de ação e modelo de ensino[7].

Godfrey, Dennick e Welsh (2004) investigaram, em pesquisa experimental, se os cursos de treinamento docente desenvolviam as habilidades de ensino. Elencaram, para tanto, 18 habilidades docentes: introduzir a aprendizagem no contexto; utilizar objetivos da aprendizagem; selecionar métodos de ensino apropriados ao tópico ou tarefa; estruturar as apresentações; expor conceitos; ensinar uma habilidade; ensinar a partir do conhecimento dos alunos; planejar e executar atividades em pequenos grupos; usar questões para estimular a aprendizagem; desenvolver atividades que envolvem o professor e os alunos; motivar os alunos; entender os problemas dos alunos; negociar com os alunos as suas necessidades particulares e as do grupo; resumir os pontos-chave para os alunos; conhecer o progresso dos alunos; dar feedback aos alunos de seu progresso; avaliar a eficiência do ensino e avaliar outras formas de ensino efetivas[8].

 Um questionário elaborado a partir dessas habilidades foi aplicado em dois momentos: logo após um curso de formação e após 18 meses da conclusão do curso. Os resultados apresentados mostraram que, no grupo experimental, a maioria dos professores expressou melhora em 4 ou mais habilidades e 25% deles expressaram melhora em 7 ou mais habilidades. No grupo controle, a maioria relatou melhora em uma habilidade e 25% dos professores relataram melhora em 2 habilidades.

Reconhece-se, entretanto, uma limitação desse modelo de pesquisa no fato de que os dados coletados são apenas de origem auto-avaliativa do professor, o que pode distorcer os dados ou impor-lhes um viés parcial.

Nas duas investigações é apresentada de forma sistemática a aquisição de conhecimentos de planejamento, gestão e técnicas de ensino e aprendizagem – o que fora descrito por N. Batista e S. Batista (2004) como treinamento didático/ exercício docente na formação.

Quanto às pesquisas de mestrado e doutorado realizadas no Brasil pode-se destacar o trabalho de Souza Silva (1993), que investigou, na dissertação de mestrado Fala professor! Apontamentos de um estudo da ação pedagógica no Ensino Superior, a prática docente de médicos, por meio da fala dos professores. A autora apreendeu, dessas falas, as representações que resultavam da ação pedagógica dos professores e também as que nela se constituíam.

A autora ressaltou o descaso com a formação pedagógica docente, realidade que vem mudando em determinadas instituições devido à criação de disciplinas e à ação de grupos de estudos sobre a formação de professores. Citam-se, como exemplos, a disciplina Formação Didático-Pedagógica em Saúde na pós-graduação da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM), os grupos de estudos sobre formação pedagógica da pós-graduação da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) e da pós-graduação em Medicina/ Fisiopatologia Experimental da Universidade de São Paulo, as disciplinas de Pedagogia Médica e Didática Especial da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP) e as discussões nos programas de pós-graduação em Saúde da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Botucatu.

A tradição da UNIFESP/EPM, fruto de uma longa trajetória de ensino e pesquisa, consolidou-se por meio do CEDESS – Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde da Universidade Federal de São Paulo, dedicado ao ensino e à pesquisa por meio de cursos de especialização e de mestrado[9].

Os principais meios de divulgação das pesquisas e estudos a respeito do ensino em Saúde são periódicos reconhecidos pela qualidade de seus artigos. No Brasil, destaca-se a revista Interface da UNESP de Botucatu, além de determinados artigos na Revista da Associação Médica Brasileira, na Revista de Saúde Pública, entre outras que discutem, com enfoque problematizador, a prática pedagógica e a formação de profissionais na área da Saúde.

A divulgação de pesquisas na área da Saúde dedicadas à Educação é, ainda, o foco do Congresso Paulista de Educação Médica (5º Congresso realizado em 2006), de periodicidade bienal, e do Congresso Brasileiro de Educação Médica (44º Congresso realizado em 2006), anual.

É necessário retomar, neste ponto da discussão, o lócus da formação docente na área da Saúde, que são os cursos de pós-graduação lato ou stricto sensu. Na pós-graduação stricto sensu essa formação ocorre em de disciplinas específicas, tais como Pedagogia e Didática, que podem receber os adjetivos “Médica”, “Odontológica” etc.

Especificamente na Medicina, essas disciplinas foram regulamentadas pelo Parecer 576/70 e pela Resolução 11/77 (SOUZA SILVA, 1997; BATISTA, N.; BATISTA, S., 2004). Essas disciplinas constituíram o objeto de investigação de Souza Silva (1997), em sua tese de doutoramento, e de Batista (1997), em sua tese de livre-docência. Das duas investigações resultou o livro O Professor de Medicina: conhecimento, experiência e formação (1998), em que os autores analisam a formação de professores por meio das disciplinas oferecidas na pós-graduação. Os autores destacaram que, do conjunto de alunos que cursou as disciplinas entre março de 1996 e abril de 1997, apenas 25% entrou na carreira docente.

 Nos cursos de especialização ou pós-graduação lato sensu a discussão sobre questões pedagógicas insere-se na grade curricular por meio da disciplina Didática do Ensino Superior. Dentre os cursos de especialização, distingue-se o Curso de Especialização em Ativação de Processos de Mudança na Formação Superior de Profissionais da Saúde, que teve início em novembro de 2005, por meio de uma parceria do Ministério da Saúde e da Fundação Oswaldo Cruz .

Esse curso apresentou duas fases de formação: dos tutores (docentes em exercício de escolas brasileiras de formação superior de profissionais de Saúde cuja instituição participa de processos de formação para a docência) e dos especializandos (professores de instituições de ensino superior que, embora formados em outras áreas, atuam em cursos na área de Saúde; profissionais com formação superior em Saúde que atuam na graduação de profissionais da própria área), todos selecionados por meio de editais.

As iniciativas de mudanças curriculares, as propostas de formação permanente, os diferentes programas e políticas nacionais de atendimento e de formação — tanto dos profissionais quanto dos docentes da área — poderão contribuir para a elevação da qualidade do atendimento à população, para que ocorra uma mudança no paradigma atual da Saúde, de curativo para preventivo, e para que os profissionais da Saúde passem a ocupar, junto às funções de assistência, funções de educação da população e de gestão de recursos. Poderão, sobretudo, desencadear processos de reflexão sobre a formação de professores na área da Saúde.

No livro de N. Batista e S. Batista (2004) encontram-se relatos, por diferentes autores, de experiências de formação pedagógica vivenciadas em quatro universidades.

A primeira experiência apresentada teve como base a exigência legal para preparo do professor do curso de Medicina, que inclui as disciplinas Pedagogia Médica e Didática Especial, conforme ratificado pela LDB/96. Foi criada a disciplina Formação Didático-Pedagógica em Saúde, que tem duração de 60 horas. Metade das quais inclui encontros presenciais num laboratório de práticas de ensino em que os pós-graduandos vivenciam momentos formativos que articulam reflexões e debates sobre as dimensões da docência, com utilização e análise crítica de diferentes recursos (incluindo as novas tecnologias de comunicação e informação) de ensino e aprendizagem (BATISTA, N.; BATISTA, S., 2004). As 30 horas restantes são dedicadas à elaboração de trabalhos, pesquisas e estudos individuais. As turmas são formadas com 30 alunos, a fim de favorecer as interações de troca, diálogo e trabalho coletivo.

Essa disciplina apresenta eixos teórico-metodológicos que são explicitados por N. Batista e colaboradores (2004, p. 205-206), como se segue:

 

·               Ser professor implica o reconhecimento do formar-se como processo de construção de conhecimentos intrinsecamente conectados com as condições da produção científica, os valores e as crenças que presidem as interações pedagógicas, em contextos complexos e multideterminados.

·               O preparo para a função docente em saúde não significa apenas a instrumentalização técnica, mas, fundamentalmente, uma reflexão crítica dessa prática e da realidade em que se realiza.

·      Refletir sobre a docência em saúde ganha uma ampliação significativa quando consideramos que o exercício profissional nessa área traz, implícita, a materialização de um ato: formar-se e formar o outro emergem como práticas sociais permanentes dos diferentes profissionais que transitam no campo da saúde.

·               A docência em saúde apresenta especificidades também no que se refere à intermediação de um outro sujeito na relação professor-aluno, incluindo um paciente/comunidade que é sujeito/objeto do ensino e do cuidado.

·               O professor constitui-se em um dos sujeitos nucleares para a transformação do processo ensino-aprendizagem em saúde, demandando colocar em discussão as concepções que têm orientado as práticas pedagógicas.

·               A construção de um novo docente em saúde exige a configuração de processos de formação que assumam a prática como eixo estruturante, privilegiando o diálogo, a leitura crítica, os saberes da experiência em articulação com os saberes científicos, os significados e a problematização das situações de ensino e aprendizagem.

·               O trabalho em pequeno grupo favorece uma aproximação bastante significativa para propostas que se comprometem com uma formação crítico-dialógica. É possível ouvir, falar, argumentar, trocar, em uma perspectiva de construir saberes e experiências que alimentem um processo permanente de ação-reflexão-ação.

·               A formação docente como processo não se restringe a territórios disciplinares, pois se inscreve em um contorno de permanente (re)construção de saberes e fazeres. Ainda assim, construir disciplinas que privilegiem essa formação pode representar um fecundo caminho de debate, análise e aprendizagem da docência.

 

Cada um dos eixos apresentados ratifica o que foi discutido no subitem “Docência no ensino superior: contexto de atuação” quanto às dimensões de mudança no perfil docente: parceria professor-aluno, co-responsabilidade, gestão do currículo, entre outras. Além disso, diante da explicitação desses eixos, pode-se considerar que a formação docente em Saúde está em uma perspectiva da reflexão para a reconstrução social.

O segundo relato apresenta uma estruturação de disciplinas que analisam questões didático-pedagógicas, uma proposta que teve início com um movimento de professores e alunos de um curso de Odontologia em meados dos anos 1980. A partir daí, mobilizaram-se diferentes instâncias na universidade para a formalização da disciplina, em articulação com a Faculdade de Educação, e para a reestruturação dos cursos de pós-graduação da instituição, que passaram a privilegiar, no mestrado, a pesquisa e a formação docente e, no doutorado, apenas a pesquisa.

A trajetória de formação de professores de Odontologia compreende técnicas de ensino, uso de novas tecnologias, discussões a respeito do papel do professor e do aluno, avaliação, ensino e aprendizagem, entre outros tópicos. A instituição assumiu, assim, seu papel na formação de professores para o ensino superior e tem sido avaliada positivamente pelos alunos. Paralelamente, a Associação Brasileira de Ensino Odontológico experimentou grandes mudanças, passando de um papel controlador de bolsas e de questões burocráticas para espaço de discussão da docência em Odontologia.

A terceira experiência compreende um processo de discussão a respeito da capacitação docente que decorreu do impacto, na instituição, do relatório da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação da Educação Médica (CINAEM). O relatório mostrou que metade dos professores havia cursado Medicina na mesma instituição em que desempenhava seu papel docente, que a formação em pós-graduação era restrita e que a dedicação docente não era exclusiva. Os autores do capítulo afirmam que:

 

A função do professor de Medicina era baseada nos conhecimentos técnicos, e raramente se questionavam atributos didáticos. Os médicos tornavam-se professores a partir de suas competências técnicas em Medicina. (ZEFERINO; BARROS-FILHO, 2004, p. 225).

 

Segundo os autores, houve o estímulo da instituição para que os docentes cursassem mestrado e doutorado, sendo que o doutorado passaria a ser o requisito para a manutenção na carreira, por meio de concurso público. Disso decorreu uma demanda por cursos de pós-graduação, nos quais havia duas disciplinas que poderiam abrigar a discussão da docência – Pedagogia Médica e Didática Especial. Entretanto, essas disciplinas, nos moldes em que se formalizavam, não cumpriam tal função:

 

[...] não havia a menor pretensão de formar, desenvolver ou qualificar os docentes pedagogicamente com criatividade, ou reflexões sobre o modelo de ensino médico existente, predominantemente biologicista e flexneriano. (ZEFERINO; BARROS-FILHO, 2004, p. 226).

 

Esse panorama foi alterado ao ser inserida, na graduação, a disciplina Metodologias de Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP), na qual os alunos de pós-graduação atuavam como tutores. A experiência desencadeou, na instituição, um programa de Estágio de Capacitação Docente. Entretanto, para participar do programa, os alunos de doutorado não poderiam ter vínculo empregatício. Essa exigência reduziu a demanda, porque os alunos, geralmente médicos assistentes, tinham vínculos empregatícios. Diante desse entrave as subcomissões de pós-graduação descentralizaram o desenvolvimento das disciplinas para que cada área estruturasse, dentro do programa, o seu planejamento e implementação (ZEFERINO; BARROS-FILHO, 2004).

O quarto relato descreve uma experiência na qual encontram-se indícios de uma formação conceitual e prática; a partir de situações práticas desenvolvem-se discussões em dimensões estruturais, epistemológicas e pedagógicas. O processo se desenvolve em três etapas: mobilização para o conhecimento; construção do conhecimento e elaboração e expressão da síntese do conhecimento, mantendo-se entre elas uma relação dialética. As avaliações dessa experiência mostram que ela tem superado uma visão tecnicista de formação, compreendendo e articulando as dimensões da formação com as práticas docentes.

Com este panorama geral da docência no ensino superior em Saúde, abrangendo aspectos legais e práticos, pretende-se delimitar o objeto do estudo aqui empreendido, constituindo-se um contexto para a compreensão da realidade encontrada na instituição em que se realizou a coleta de dados.

 


3. DA SOCIALIZAÇÃO PROFISSIONAL ÀS CONFIGURAÇÕES IDENTITÁRIAS PROFISSIONAIS

 

 

Ao discutir a formação dos professores para o ensino superior destacou-se, em capítulo anterior, que esse processo ocorre prioritariamente durante a socialização profissional, na fase de iniciação à docência. Para Imbernón (2004), a socialização no trabalho é o processo no qual ocorre o desenvolvimento profissional docente. Desse desenvolvimento resulta a construção de uma identidade profissional (PIMENTA; ANASTASIOU, 2002).

Segundo Pimenta e Anastasiou (2002, p. 105):

 

A construção da identidade com base numa profissão inicia-se no processo de efetivar a formação na área. Assim, os anos passados na universidade já funcionam como preparação e iniciação ao processo identitário e de profissionalização dos profissionais das diferentes áreas.

 

 

Para compreender o processo de construção da identidade profissional docente buscou-se um referencial teórico que sustentasse a questão e auxiliasse na construção e análise de dados. Optou-se por se referenciar, então, o trabalho desenvolvido há décadas por Claude Dubar[10], na França. O autor trabalha com a idéia de identidade por meio da determinação de diferentes formas identitárias. As formas identitárias se configuram a partir das transações biográficas, que dizem respeito às questões familiares e de história de vida, e das transações relacionais, que dizem respeito às relações sociais e de trabalho e se tornam duradouras em determinados grupos profissionais.

Para estruturar o conceito de formas identitárias, Dubar (2000) traz as contribuições de Norbert Elias, Max Weber e Karl Marx. Ele afirma que a teoria de cada um desses autores, tomada separadamente, não consegue explicar as mutações e reconfigurações presentes nas identidades profissionais diante de suas diversas crises, daí a proposição de sua articulação.

De Norbert Elias, o destaque é a configuração da identidade a partir do processo de civilização fundado na relação ‘Nós-Eu’, na qual pode-se ter a supremacia de um sobre o outro.

De Weber, Dubar retoma o processo de racionalização, que é condicionado pela relação histórica entre dois modelos de relações sociais e dois tipos de socialização: o vínculo comunitário e o vínculo societário.

Do processo de racionalização estudado por Max Weber, Dubar (2000) destaca dois tipos de formação social:

·                    forma comunitária, que designa relações sociais baseadas no sentimento subjetivo (tradicional ou emotivo) de pertencer a uma coletividade. Esse pertencimento pode repousar em dois tipos de vínculo: a força da tradição ou a identificação coletiva e emocional com um líder carismático;

·                     forma societária, que designa relações sociais baseadas na racionalidade, via compromisso assumido com base em interesses e objetivos.

A contribuição de Marx e Engels dá-se pelo estudo dos tipos de formação social e pela explicação do processo de libertação revolucionário, que inverte a dominação de uma classe sobre outra, fundamentando a transformação das sociedades comunitárias pré-capitalistas em sociedades comunistas pós-capitalistas. Da análise do contexto em que a teoria desses autores foi formulada, podem-se depreender os tipos de formação social historicamente condicionados. Da Ideologia Alemã, Dubar (2000) destaca quatro teses que formam o sistema proposto:

1-                  o comunismo não é um ideal ou uma utopia, é o resultado do movimento geral da produção, do desenvolvimento das forças produtivas libertas dos entraves que constituem as relações de produção capitalista. Sua organização é essencialmente econômica.

2-                  o comunismo é reconhecido como movimento real da história que implica o fim da divisão do trabalho, e sua abolição como processo assalariado, forçado, contratado, alienante e imposto pelo capital; devendo ser substituída pela associação livre dos indivíduos e pela cooperação voluntária entre eles.

3-                  o comunismo permitirá o desenvolvimento livre dos indivíduos, superando a especialização que mutila a personalidade, a possibilidade de que o indivíduo se dedique àquilo de que gosta.

4-                  é necessária a queda do Estado para que os indivíduos possam fazer associações livremente e, então, realizar sua personalidade.

As sociedades anteriores à burguesa não eram verdadeiras coletividades, segundo Marx e Engels. O novo exercício social seria justamente a possibilidade de criar coletividades formadas por indivíduos livres e associados pelo desejo e não pela obrigação. Dubar tenta recompor o momento histórico em que essa teoria teve início, salientando que, na época, havia a necessidade da constituição do coletivo para se fazer a revolução, um coletivo que diferia do que fora estruturado em sociedade até aquele momento. De acordo com os autores, a liberdade pessoal somente é possível na comunidade.

Das possíveis articulações da negociação entre o ‘Eu’ e o ‘Nós’, da definição do vínculo societário ou comunitário e da formação de comunidades sociais resultam, segundo Dubar (2000), quatro formas básicas de identificação:

·                  forma cultural: em um sentido etnológico concreto, os indivíduos são nela designados pelo lugar que ocupam na linha genealógica parental; biografia pelo outro, supremacia do Nós sobre o Eu.

·                  forma reflexiva-espelhada: consiste em investigar, argumentar, discutir e propor definições de si mesmo baseadas na introspecção e na busca de um ideal moral reconhecido pelo grupo cultural comunitário, ratificado pelo pertencimento ao grupo; relacional para si, um Eu que quer ser reconhecido pelo pertencimento ao grupo.

·                  forma estatutária: orientada para o acesso a uma posição em função da aprendizagem dos novos códigos simbólicos e da interiorização de novas formas de dizer, fazer e pensar, não mais fundamentadas no nascimento; relacional pelo outro, pressão do grupo para que o indivíduo assuma papéis, constitua-se em um Eu socializado.

·                    forma narrativa: contempla a primazia da ação no mundo em detrimento da reflexão interior sobre si mesmo. Cada um se define pelo que faz, pelo que realiza e não pelo ideal interior; biografia para si, um Eu projetado em pertencimentos sucessivos; supremacia do Eu sobre o Nós.

A base da teorização de Dubar é a definição de crises identitárias que se constituem, igualmente, na coletividade, sendo que a liberdade individual manifesta-se na elaboração de formas de superação. Para Dubar (2000, p. 26-27) as crises identitárias são assim definidas:

 

En este final de siglo y de milenio, no me parece que ninguna configuración de formas identitarias haya adquirido legitimidad universal, ni siquiera reconocimiento consensuado. Si esta hipótesis es exacta, las configuraciones anteriores pueden considerarse <<en crisis>> en la medida en que su legitimidad no da más de sí. Si la pluralidad de formas y de sus combinaciones continúa siendo una constante insuperable, ¿no significa tal cosa que ninguna de ellas ha conseguido imponerse históricamente? La cuestión de la identidad humana seguiría siendo, tal como lo pensaba Norbert Elias, aún problemática.

 

Segundo Dubar (2005)[11], é pela socialização no trabalho que se configuram as identidades profissionais. Para compreender o papel da socialização na configuração identitária o autor parte da dualidade entre a socialização primária e a socialização secundária.

Na socialização primária é destacado o papel da família, o papel dos outros significativos, cuidadores/pais, para a construção da realidade na qual se encontra o indivíduo e, portanto, para a aquisição de seus primeiros valores sociais.

A socialização secundária é a incorporação de saberes especializados/ profissionais, definidos e construídos em relação a um campo especializado. Ela pode ser uma continuação da socialização primária ou uma ruptura, estabelecendo uma transformação radical da identidade como conseqüência de vários choques biográficos. Da socialização secundária pode ou não resultar uma identidade social autônoma.

As negociações que terão como resultado a configuração identitária do indivíduo ocorrem entre os...

 

[...] processos biográficos – identidade para si (o que o indivíduo diz de si mesmo, o que é e gostaria de ser) – e os processos relacionais – identidade para outro (quem o outro diz que sou, a identidade que o outro me atribui). (GATTI et al., 2006, p. 2).

 

Da articulação desses processos decorrem:

 

[...] a atribuição de papéis pelo outro, a interiorização, que é a aceitação e vivência do papel, e a incorporação, processo pelo qual esse papel passa a fazer parte da identidade social do indivíduo. (GATTI et al., 2006, p. 2).

 

A identidade socialmente construída sofre a ação do tempo e da história, possibilitando a evolução das categorias pertinentes à identificação social, e pode ser alterada pelas negociações identitárias, quais sejam: identidade pelo outro conferida e identidade para si construída; identidade social herdada e identidade social visada.

O trabalho constitui um espaço de negociações identitárias que darão origem a uma estrutura de identidade profissional. A identidade profissional resulta das relações e interações no trabalho, fundadas em representações coletivas distintas, construindo atores dos sistemas social e empresarial. As relações de trabalho fundamentam-se na luta pelo poder em um contexto de acesso desigual, produzindo diferentes relacionamentos entre o individual e o coletivo. O autor define possibilidades de identidade, que neste trabalho são reconhecidas como posições assumidas pelos indivíduos frente às estruturas de poder dentro da instituição, as seguintes:

- Distanciamento: combina a preferência individual/ estratégia de oposição;

- Fusional: combina a preferência coletiva/ estratégia de aliança;

- Negociatória: alia polarização no grupo/ estratégia de oposição;

- Afinitária: alia preferência individual/ estratégia de aliança.

A identidade de uma pessoa não é elaborada à sua revelia. Por outro lado, não se pode prescindir dos outros para forjar a própria identidade. Na elaboração de sua identidade o indivíduo tem uma participação ativa, por meio de seus valores, crenças e desejos.

 

A elucidação das formas de identificação socialmente pertinentes em uma determinada esfera de ação, a partir do estudo de suas dimensões relacionais e biográficas, são definidas por Dubar como formas identitárias, nas quais temos uma concepção de ator, que se define a um só tempo pela estrutura de sua ação e pela sua formação, inseridas em um contexto e uma história. (GATTI et al., 2006, p. 3).

 

A identidade profissional é reconstruída ou reconfigurada em função da história individual, social, política e econômica. É resultado de uma dupla operação lingüística: diferenciação e generalização. A primeira, que tende a definir as diferenças, constitui a singularidade individual na relação com os outros; a identidade é a diferença. A segunda busca definir o que há de comum a uma série de elementos diferentes; a identidade é o pertencimento. O que marca esse conceito de identidade é, ao mesmo tempo, o que há de único e o que é compartilhado.

Nessa perspectiva não há identidade sem alteridade. As identidades, tanto quanto as alteridades, variam historicamente e dependem do contexto de sua definição. No caso da identidade profissional do docente, são determinantes questões referentes ao ambiente institucional em que ele desempenha a função, à política da instituição, às condições de relacionamento interpares, às condições de interação entre administração e docentes, às discussões pedagógicas e à existência de espaço para uma atuação autônoma do professor.

A identidade deve ser compreendida como “...resultado a um só tempo estável e provisório, individual e coletivo, subjetivo e objetivo, que, conjuntamente, constroem os indivíduos e definem as instituições.” (DUBAR, 2005, p. 136). Para se entender...

 

[...] a estruturação identitária é preciso retomar a articulação dos processos identitários que se desenrolam nas múltiplas relações na vida, que são heterogêneos, inseparáveis, complementares e contraditórios. (GATTI et al., 2006, p. 2).

 

Assim sendo, para o estudo das formas identitárias deve-se levar em consideração as dimensões relacionais e biográficas que são consolidadas dentro do trabalho, num determinado contexto e numa dada história. Esse contexto e essa história sofrem mudanças e crises que, evidentemente, se estendem às formas identitárias; seus conflitos engendram novas configurações, adequadas ao espaço e ao tempo em que se desenvolvem.

Segundo Dubar (2005), a profissão é uma importante dimensão da identidade dos indivíduos, em especial quando se consideram as mudanças dos últimos anos. As transformações nas categorias do trabalho e do emprego, em decorrência de modelos econômico-financeiros, refletem-se diretamente na construção das identidades sociais e profissionais do indivíduo.

Antes de prosseguir na discussão da crise das identidades profissionais, faz-se necessário retomar o conceito de profissão. Para Gatti et al. (2006, p. 3-4):

 

O termo Sociologia das Profissões compreende as idéias de emprego (inglês: occupations), das profissões liberais (inglês: professions) e ofício (francês: métier), fato a lhe conferir complexidade interpretativa a ser considerada. Remete à história, mais precisamente ao século XI, quando o trabalho conciliava as artes liberais e mecânicas, reunindo em uma mesma corporação artesãos e trabalhadores intelectuais, originando daí o termo “profissão”, nascido dos rituais de fé dos juramentos proferidos nas admissões às corporações. Contudo, após o nascimento das universidades no século XIII –, houve uma cisão entre as artes liberais e mecânicas, derivando daí estratificações de trabalho reproduzidas no decorrer dos tempos.

 

Em seus estudos, Dubar concluiu que a profissão pode ser entendida a partir de duas abordagens, o funcionalismo e o interacionismo. No funcionalismo os profissionais são concebidos como comunidades unidas em torno dos mesmos valores e da mesma ética de serviços. O status profissional apóia-se em conhecimentos científicos, seja pela formação, aceitação e difusão de um código ético da profissão, ou pela posse de um saber teórico advindo de um longo processo de estudo. Separa-se a teoria e a prática na profissão, desvalorizam-se os ofícios.

Dubar fundamenta-se em Hughes (1958) para apreender a profissão segundo a abordagem interacionista. Para Hughes, o profissional se consolida em duas noções essenciais: diploma e mandato. O primeiro se constitui por uma autorização legal, para alguns indivíduos, do exercício profissional. O mandato é o poder simbólico atribuído pela sociedade a determinados profissionais para a execução de determinadas funções.

Há profissionais com diploma, mas sem mandato. Os profissionais com diploma e mandato apresentam conhecimentos específicos autorizados pela ciência e comprometem-se ao silêncio quanto a informações que lhes são confiadas pelos clientes. Há grupos profissionais que possuem órgãos representativos cuja existência fundamenta-se na manutenção do diploma e do mandato profissional.

A profissão é analisada por Hughes (1958) como carreira e como meio de socialização. A coletividade profissional define, por meio do mandato, a natureza dos serviços prestados e as condições para a realização, além de estruturar uma filosofia, uma visão de mundo com valores éticos profissionais convencionados. O grupo profissional, portanto, possui regras, código de ética e linguagem comum que originam um modelo profissional.

A aquisição dessas regras, código de ética e linguagem ocorre na socialização profissional, que é reconhecida por Hughes (1958) como uma iniciação à cultura profissional, como uma conversão do indivíduo a uma nova concepção do mundo e de si, que resulta em uma nova identidade. A socialização profissional é constituída por três mecanismos: a passagem através do espelho, a instalação na dualidade e a conversão final.

Compreenda-se a passagem através do espelho como processo de imersão na cultura profissional, em que o indivíduo passa a ver a realidade nua e crua da profissão; ele não enxerga apenas o que se reflete no espelho social, mas vê através dessa imagem. Desse choque brutal surge um dilema para o indivíduo, concretizado na interação de duas culturas: a do espelho e a de trás dele.

É nessa fase da socialização profissional que se constituem, segundo Hughes (1958), os quatro elementos da identidade profissional: a) dissipar por uma renúncia voluntária os estereótipos profissionais concernentes à natureza das tarefas; b) a concepção da função; c) a antecipação das carreiras e d) a imagem de si na profissão.

A instalação na dualidade decorre do primeiro elemento porque nessa fase o indivíduo precisa sair do dilema entre o modelo ideal da profissão (imagem no espelho) e o modelo prático (tarefas cotidianas e trabalhos duros), cuja relação com o ideal é ínfima. Dessa instalação resulta a redução da dualidade na escolha de papéis na interação com outros significativos; os indivíduos forjam para si uma identidade a partir da identificação com um grupo de referência. Na conversão final instituem-se modelos profissionais que serão adotados por indivíduos ingressantes na profissão com o objetivo de ser aceitos, tendo seu pertencimento ratificado pelo grupo.

Pesquisas empíricas fundamentadas nessa perspectiva foram realizadas por Fred Davis (1968) no âmbito de uma investigação do processo de conversão doutrinal das enfermeiras. O autor destaca seis etapas para essa conversão:

a)    inocência inicial: domínio dos estereótipos profissionais da enfermeira altruísta, devotada;

b)    consciência da incongruência: crise que se institui quando o indivíduo constata que a profissão não é aquilo que ele esperava; choque da realidade;

c)    psyching out (estalo): inclui-se na ação profissional a intuição, ou seja, as atitudes são tomadas levando-se em consideração o que se sente e a expectativa da ação;

d)    simulação do papel: coloca-se em prática o estalo e desempenha-se, de forma inautêntica, o papel assumido, no abismo que o separa dos estereótipos;

e)    interiorização antecipada: fase em que se constitui uma dupla personalidade, o eu profano e o eu profissional, da qual decorre uma carreira mais segura;

f)     interiorização estável: aquisição da postura profissional do grupo; incorporação do papel, do que decorre o recalque do eu profano; a visão de mundo converge com a ótica da profissão.

Outras pesquisas também foram realizadas, demonstrando-se uma homogeneidade no discurso dos iniciantes. Diante disso pode-se recuperar o que Hughes (1958) define como ajuste da concepção de si, que seria a reconfiguração da identidade ao imergir na profissão.

Segundo Dubar (2005), a maior contribuição da ótica interacionista, especificamente na perspectiva simbólica de Hughes, encontra-se na análise da mobilização da personalidade individual e da identidade social do sujeito, da cristalização de suas esperanças e de sua imagem de si ao engajar-se no meio social da profissão.

Toma-se essa contribuição para se propor uma perspectiva diacrônica de análise, levando em conta os planos de carreira e as trajetórias socioprofissionais na construção da identidade. Amplia-se, assim, o conceito de “profissão” apresentado no início desta discussão.

 

O termo profissional deve ser apreendido num universo mais amplo do que o até então considerado pela Sociologia das Profissões, apreensão possível quando se consideram as variáveis intervenientes na efetivação do trabalho. Este conjunto de ações e relações desenvolvidas pelos sujeitos sociais afeta o trabalho e por ele é afetado, instaurando um jogo dialógico cuja complexidade molda no tempo e no lugar as transações necessárias não só à conservação da estrutura, mas, sobretudo, à possibilidade de transformação das mesmas. Esse jogo dinâmico propicia a seus atores vivências de realização, afirmação, frustração, colegialidade, individualismo, representações, culturas, filosofias dotadas de potencial influenciador não só da configuração da identidade profissional, mas de outras formas identitárias. É nesta vertente interacionista que Claude Dubar se situa. (GATTI et al., 2006, p. 6).

           

Essa perspectiva de análise leva em consideração as complexas transações de profissionalização e desprofissionalização, que sofrem a ação das relações de poder nas instituições e empresas atuais. O saber e o capital, particularmente, constituem forças de poder que regem as relações salariais e profissionais, organizando o trabalho e estruturando as atividades, e são, portanto, intrínsecas à profissionalidade em uma economia capitalista.

Para abordar essa realidade, Dubar propõe o estudo das formas identitárias que se mostram duradouras em determinados grupos profissionais. O autor ressalta que a análise não pode ser feita unicamente sob o prisma individual, mas deve partir do indivíduo e atingir uma coletividade profissional. As negociações entre assalariados e empregadores devem ser analisadas em uma perspectiva social, histórica, cultural e econômica, a fim de fornecer subsídios para uma compreensão das formas identitárias delas resultantes.

Segundo Gatti et al. (2006), a teoria de Dubar explora a dimensão profissional das identidades sociais para a compreensão de cada possível configuração identitária, que, por sua vez, resulta das transações entre os indivíduos e as instituições e do confronto entre uma inovação/ mudança e a realidade anterior.

 

Isso é resultado de uma dinâmica constante da socialização profissional e das identidades sociais, que são produtos da articulação entre uma identidade (virtual) atribuída pelo outro e uma identidade (virtual) para si construída ao longo da trajetória anterior. (GATTI et al., 2006, p. 8).

 

Dubar (2005) apresenta quatro configurações identitárias que se relacionam a crises nos tipos identitários anteriormente descritos. Essas configurações podem ser interpretadas pelas articulações entre as transações objetivas, que dizem respeito à relação que o indivíduo estabelece com seu espaço de trabalho e à forma como contribui para o ambiente social, e as transações subjetivas, que se referem à relação do indivíduo, ao longo de sua vida, com a profissão. São elas:

·         identidade estável ameaçada: crise do tipo identitário do distanciamento. Dependente da cultura do mundo do trabalho, a identidade para si é forjada no e pelo local de trabalho, por meio da experiência. Estes profissionais não valorizam a formação fora do local de trabalho, valorizam, apenas, as aprendizagens decorrentes da prática profissional. Fazem cursos para adquirir novos conhecimentos práticos mas não teorizam. Sentem-se excluídos pelos movimentos de mudanças. Supremacia das transações subjetivas sobre as transações objetivas;

·         identidade bloqueada: crise do tipo identitário negociatório. Profissionais por ofício identificados totalmente com a instituição bloqueiam-se diante das novas exigências profissionais. Ao bloquear-se tornam suas atividades repetitivas e burocráticas e perdem a identidade própria, fundindo-se com a instituição. Supremacia das transações objetivas em detrimento das transações subjetivas;

·         identidade responsável pela sua promoção: crise do tipo identitário fusional. Profissionais com uma história de mobilidade já construída dominam saberes profissionais, articulam teoria e prática, como também combinam saberes da organização. Transações subjetivas e transações objetivas se fortalecem e se confirmam mutuamente;

·         identidade autônoma incerta: crise do tipo identitário afinitário. Profissionais que acreditam valer mais do que o emprego que ocupam, buscam novas colocações e são autônomos em relação aos desejos da empresa no que se refere a cursos de formação. Não demonstram pertencimento à empresa. As transações objetivas submetem-se às transações subjetivas. Definem-se muito mais pela sua formação continuada do que por seu trabalho prático.

Essas configurações resultam das negociações empreendidas dentro das formas de identificação apresentadas por Dubar (2000), que reconhece que a constituição das identidades está sempre em mutação. As construções sociais implicam interações entre as trajetórias individuais/relacionais e os sistemas de empregos, de trabalho e de formação. Assim sendo, o profissional estável pode tornar-se um problema e o profissional instável pode passar a ser valorizado.

Nesta pesquisa tomam-se, como lentes iniciais para a análise da realidade investigada, as configurações identitárias: ‘identidade estável ameaçada’, ‘identidade bloqueada’, ‘identidade responsável por sua promoção’ e ‘identidade autônoma incerta’, o que não impede a elaboração de novos modelos profissionais docentes, a partir das transações biográficas e relacionais presentes na realidade investigada.


4. PERCURSO METODOLÓGICO

 

 

A identidade profissional de professores e a profissionalização docente têm se tornado objetos de destaque, nos últimos anos, nas pesquisas na área da Educação, como escrevem André et al. (2006) e Gatti et al. (2006). Entretanto, esses são temas silenciados ao se tratar do ensino superior em Saúde.

Definindo como objeto de estudo justamente a docência no ensino superior em Saúde, mais especificamente as configurações identitárias profissionais de docentes da área, buscou-se uma metodologia de pesquisa que permitisse responder aos questionamentos que orientam esta investigação: qual a concepção que um grupo de professores do ensino superior na área da Saúde tem de sua docência? Como se configuram a identidade profissional e a profissionalidade desses professores?

Esta é uma pesquisa de abordagem qualitativa, cuja base epistemológica credita ao sujeito o papel de elaborador de conhecimento e ao mundo a função de oferecer-lhe a história, embora lhe possibilite o ‘devir’, como conceitua Hegel. A história é aqui compreendida como processo social e individual que abarca os diferentes contextos que envolvem e agem na constituição subjetiva do ser humano.

Como se pretendem investigar processos identitários de docentes do ensino superior, buscou-se associar uma vertente da Sociologia do Trabalho com conhecimentos da Psicologia da Educação. Para tanto, fez-se necessário buscar uma ferramenta que permitisse entrecruzar essas duas áreas do conhecimento; a ferramenta encontrada foi a análise de conteúdo proposta por Franco (2005). Segundo a autora, o ponto de partida dessa proposta é a mensagem, que pode ter diferentes formas, mas necessariamente expressa um significado e um sentido. O significado de algo pode ser compreendido e generalizado a partir de suas características definidoras; já o sentido é justamente...

 

[...] a atribuição de um significado pessoal e objetivado, que se concretiza na prática social por meio de representações sociais, cognitivas, valorativas e emocionais, necessariamente contextualizadas. (FRANCO, 2005, p. 15).

 

Na análise de conteúdo proposta por Franco (2005), o pesquisador não pode apenas descrever o conteúdo das mensagens; ele precisa ter um arcabouço teórico sólido para ser capaz de articular significados e sentidos. O objetivo final da análise de conteúdo é, assim, articular as mensagens com os referentes teóricos. Para tanto o pesquisador faz inferências – passagens da descrição para a interpretação. Não se utilizam aqui programas informatizados para análise semântica dos conteúdos, interessa destacar os sentidos das mensagens e torná-los significados dentro da teoria utilizada. Nesse sentido, as etapas seguidas foram a pré-análise, o levantamento de temas e a elaboração de categorias de análise – representadas, neste trabalho, pelos modelos profissionais docentes.

 

 

4.1 Critérios de Seleção dos Participantes

 

 

Para investigar o ser professor na área da Saúde, selecionaram-se alguns cursos dessa área — Medicina, Fisioterapia, Enfermagem, Terapia Ocupacional e Nutrição. Em virtude do objetivo da pesquisa, definiram-se os seguintes critérios para a seleção dos participantes:

1.    Disponibilidade para participar da pesquisa;

2.    Atuação docente nos cursos de Medicina, Enfermagem, Fisioterapia, Nutrição e Terapia Ocupacional;

3.    Tempo mínimo de três anos de atuação como professor.

O terceiro critério (tempo mínimo de três anos de atuação docente) resulta de uma opção por ouvir professores considerados ‘experientes’. No estudo do desenvolvimento profissional, encontra-se no trabalho de Imbernón (2004) a diferenciação entre professores iniciantes, experientes e catedráticos. Para o autor os professores precisam ter experiência superior a três anos de atuação docente para superar a fase de socialização profissional, em que se dão as negociações identitárias iniciais da profissão, e ser considerados experientes.

Decidiu-se fazer convites pessoais aos professores por pensar-se que, dessa forma, eles teriam liberdade para optar por participar ou não da pesquisa, sem pressões burocrático-administrativas. Houve dificuldades para encontrar professores dispostos, de livre e espontânea vontade, a conversar a respeito da docência e de sua profissionalização.

Com apoio teórico nos escritos de Dubar, compreendeu-se que o controle da variável instituição era fundamental para análise das transações biográficas e relacionais. Definiu-se, então, que esta pesquisa seria realizada com professores de uma mesma instituição de ensino superior em Saúde.

Inicialmente, contataram-se via e-mail professores de uma universidade pública de São Paulo, mas não se obteve retorno. Tentou-se uma segunda instituição também em São Paulo, mas tampouco houve retorno.

Diante desse limitador optou-se por convidar alguns professores por intermédio de uma assistente social que trabalha em um hospital-escola particular do interior de São Paulo. Como esse caminho foi bem sucedido, foram marcadas entrevistas com oito professoras — duas médicas, duas fisioterapeutas, uma enfermeira, duas terapeutas ocupacionais, uma nutricionista. No decorrer das entrevistas as professoras sentiram-se livres para falar: algumas definiram a situação como desabafo, outras consideraram-na uma oportunidade de contar histórias; para todas foi uma conversa entre colegas.

No final das primeiras entrevistas as professoras se propuseram a convidar outros colegas para participar da pesquisa (em alguns casos deram o contato dos colegas para que a pesquisadora agendasse as demais entrevistas). Partiu-se de um total de oito entrevistas e concluiu-se a coleta de dados com dezesseis entrevistas.

 

 

 

 

4.2 Coleta de Dados

           

 

O tipo de entrevista utilizado na coleta de dados foi a semi-estruturada. A sessão era iniciada com uma apresentação sucinta da pesquisadora — formação e experiência profissional — e da pesquisa — destaque à importância do diálogo entre as áreas da Saúde e Educação[12]. Em seguida era proposta a seguinte questão:

            - O que é ser professor para você?

Caso o entrevistado não falasse a respeito dos temas previstos eram formuladas questões como:

-          Há quantos anos você é professor?

-          Em quais instituições você já lecionou?

-          Como você aprendeu a ser professor? Você recebeu alguma formação específica?

-          Que motivos o levaram a ser professor? Você se sente motivado a continuar sendo professor?

-          Como seus colegas vêem sua opção pela docência? E sua família?

-          Como você desenvolve seu trabalho em sala de aula? Como é uma aula típica?

-          Que condições a instituição lhe oferece para o exercício da docência:

o   A instituição oferece apoio pedagógico? Há reuniões pedagógicas? Do que elas tratam?

o   Quantos alunos há em sala de aula?

o   Qual é seu tipo de contrato de trabalho? Qual sua dedicação à instituição?

o   Quais os incentivos que a instituição oferece para o desenvolvimento da pesquisa?

o   Qual a relação entre a qualificação profissional e as condições de trabalho?

Ao transcrever e analisar as entrevistas foram encontrados vários pontos obscuros e percebeu-se que alguns elementos importantes não haviam sido discutidos. Portanto, foi necessário realizar uma segunda entrevista com todos os participantes. Uma vez que se tinha a experiência anterior como base, decidiu-se levar um pequeno roteiro composto por cinco questões:

1.    Como é o seu relacionamento com os colegas professores? Conte algumas situações de seu dia-a-dia.

2.    Como é a postura da coordenação em relação ao seu trabalho?

3.    Como você é reconhecido na escola pelos seus parceiros e pelos alunos?

4.    Como é o seu relacionamento com os alunos?

5.    Quais são os seus projetos futuros?


5. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

 

 

Esta análise constitui-se de aspectos quantitativos e qualitativos que se entrelaçam para oferecer a compreensão das transações relacionais e biográficas e dos modelos profissionais docentes dos professores investigados.

Inicialmente apresentam-se dados tais como: sexo, idade e tempo de docência dos professores investigados, número de instituições em que atuaram como docentes, cursos em que atuam.

Quanto à divisão por sexo, o quadro a seguir mostra que o grupo de professores entrevistados é constituído em maior número por mulheres:

 

        Quadro 1: Número de participantes por sexo

Sexo

Número

Homens

3

Mulheres

13

 

 Os três representantes do sexo masculino são docentes do mesmo curso, a Medicina. Houve entrevistas com mulheres que duraram quatro vezes mais que as entrevistas masculinas. Para o grupo masculino foi extremamente importante a utilização do roteiro de entrevista, sem o qual não se teriam obtido todas as informações necessárias. A análise preliminar das primeiras entrevistas desse grupo norteou, em grande parte, a elaboração do roteiro-base para a segunda entrevista.

Apresentam-se, a seguir, dados r