Pagnez.com
 


 

PROJETO EUREKA – UMA TRAJETÓRIA

 

 

Karina Soledad Maldonado Molina Pagnez


 


Sumário

 

Resumo. XIV

Abstract XVII

A avaliação de projetos educacionais. 3

O contexto da pesquisa. 8

A proposta do Projeto Eureka. 9

Questionamentos iniciais da pesquisa. 11

Metodologia. 12

Organização dos documentos. 16

Organização das atas. 16

Dados quantitativos das escolas participantes do Eureka em 1997. 18

Contexto histórico do Projeto Eureka. 22

O Projeto Eureka. 27

A proposta do Eureka através dos planos de trabalho. 39

Análise da estrutura oficial do Projeto Eureka. 44

O Projeto Eureka na prática dos professores. 72

Troca de experiências. 76

Escola A.. 81

Escola B.. 82

Escola C.. 83

Escola D.. 84

Infra-estrutura. 88

Escola A.. 93

Escola B.. 93



Escola C.. 94

Escola D.. 96

Burocracia. 100

Escola A.. 103

Escola B.. 104

Escola C.. 105

Escola D.. 107

Cotidiano do professor 110

Escola A.. 114

Escola B.. 115

Escola C.. 116

Escola D.. 118

Discussões pedagógicas. 120

Escola A.. 122

Escola B.. 123

Escola C.. 124

Escola D.. 128

Processo de formação. 131

Escola A.. 132

Escola B.. 133

Escola C.. 134

Escola D.. 135

A qualidade educativa do Projeto Eureka. 137

Considerações finais. 140

Referências bibliográficas. 142

Bibliografia. 145

 


 


Índice de Quadros

 

Quadro 1 – Escolas participantes do projeto em 1997. 18

Quadro 2 – Relação de arquivos por escola. 19

Quadro 3 – Quadro com os números totais de atas por escola. 20

Quadro 4 – Total de atas analisadas da amostra selecionada. 21

 

 

                          

 


 


Resumo

O problema de pesquisa deste estudo é avaliar como ocorreu, junto aos professores, o processo de implantação do Projeto Eureka. Este projeto pretendia introduzir o computador na escola como ferramenta pedagógica para o trabalho do professor, propondo inicialmente uma estrutura formada por um módulo intensivo e um módulo extensivo, sendo esta estrutura o foco para nossa avaliação.

Pretendemos verificar como ocorreu o processo de apropriação dessa estrutura pelos professores envolvidos no projeto, tendo como base o trabalho de Goldberg, Souza, Popham e Worthen, entre outros autores, no que se refere ao tema da avaliação de projetos educacionais.

Optamos por realizar uma análise documental, a partir dos planos de trabalho e das atas de reuniões dos grupos de trabalho de professores. Para análise desse material, temos como interlocutor Pedro Demo[1], que contribui na conceituação da qualidade educativa, composta pela qualidade formal e política. Em nosso trabalho assumimos a estrutura proposta para implantação do projeto como foco para a avaliação: os módulos intensivo e extensivo são compreendidos nessa pesquisa, como a qualidade formal e política do projeto.

Ao analisar as atas de reunião, realizamos uma análise de conteúdo, fazendo o levantamento dos temas presentes nas atas com freqüência significativa[2] ao total da amostra. Após a definição dos temas que apresentaram maior freqüência, realizamos então a conceituação de categoria.

A partir desta conceituação, definimos as categorias que resultaram da análise de conteúdo, demonstrando-as a partir de destaques retirados das atas de reunião.



Abstract

The research goal for this study is to evaluate how the implantation process of the Project Eureka occurred to the teachers. This project intended to introduce the computer as a pedagogical tool for the teacher’s work in the school, firstly proposing a structure composed by an intensive module and an extensive module, being this structure the focus for our evaluation.

We intend to verify, in the structure appropriation process for the teachers involved in the project, how it occurred. The educational project evaluation in this study is based in the theories of Goldberg, Souza, Popham, Worthen, among others.

We choose to do a documental analysis from the working plans and meeting records of the teacher’s working groups. For analysis of this material we have as speaker Mr. Pedro Demo, which contributes to form a conceit for the educational quality, composed by formal and political attributes. Our work assume as focus of evaluation, the proposed structure for the project implantation: the intensive module defined in this research as the formal quality of the project, and the extensive module defined in this work as the policy quality of the project.

While we checked the meeting records we accomplished a content analysis, doing a research of the themes, found in the meetings, with significant frequency to the total of the sample. After the classification of the themes with larger frequency, we delineate a concept to the categories.

From this conceptualization, we defined the categories that had resulted of the content analysis, demonstrating them from main points removed from meeting minutes.


Introdução

“Ser moderno é ser capaz de definir e comandar a modernidade. Tal capacidade é gestada no sistema educativo, desde que tenhamos educação moderna, para ser modernizante” (Demo, 1993:22)

O vínculo com a educação firmou-se muito cedo em minha experiência profissional. Ao cursar o Magistério, questionei-me quanto ao porquê de tantas crianças estarem nas salas de educação especial, nas escolas. Pois, ao fazer estágio na referida sala, na simplicidade do conhecimento pedagógico que possuía, percebi que as crianças ali “depositadas” apresentavam dificuldades de atenção. Desde aquela época, minha pergunta era: será que as crianças é que têm problemas? Buscando dados para compreender e poder argumentar sobre a inutilidade dessas salas, cursei pedagogia e especialização em formação de professores para a educação especial.

A cada curso de minha formação, mais eu me sentia culpada por não fazer nada para reverter a situação de muitas crianças que são encaminhadas para setores de psicologia por apresentarem dificuldades na aprendizagem ou déficits de atenção. Será que a escola não tinha déficit de competência para integrar crianças com experiências de vida diferentes em um ambiente, que pode ser único em suas vidas, como a sala de aula?

Ainda acredito na educação, principalmente quando um projeto propõe um ambiente diferenciado para a aprendizagem tanto para o aluno quanto para o professor. Para isso é necessária uma mudança na postura do professor: de detentor do conhecimento para parceiro do aluno, colocando-se ao seu lado no processo de ensino-aprendizagem. Dessa forma, ambos contribuem para a construção do conhecimento de forma significativa.

Analisar um projeto que propõe a introdução de uma inovação – o Projeto Eureka – constitui uma oportunidade para a elaboração de uma avaliação de projeto educativo. Nesse processo avaliativo, devemos definir qual será o foco da avaliação, neste caso a estrutura proposta pelo projeto em dois módulos – um módulo intensivo e um módulo extensivo.

A fim de realizar a avaliação, é necessário construirmos a trajetória desse projeto, para verificar o que se pretendia e como isso ocorreu na realidade. Optamos por discutir em primeiro lugar a problemática da avaliação em educação; em segundo lugar, o contexto em que se iniciou o projeto. Reconstruímos a história do projeto a partir do relato de dois de seus atores, relato este assumido nesta avaliação como a história real, que serve como base para comparações e análises.

E, finalmente, realizamos a análise documental dos planos de trabalho e das atas de reunião dos grupos de trabalho formados pelos professores participantes do projeto. Baseamos este trabalho em Pedro Demo (1993) no que se refere à qualidade educativa do projeto, avaliado a partir do processo de apropriação dos módulos intensivo e extensivo. Segundo Demo (1993), a primeira diz respeito aos cursos de formação e a segunda refere-se ao processo de implantação e uso do conhecimento adquirido.

Realizamos uma análise de conteúdo das atas de reunião dos grupos de trabalho, o que nos permitiu definir os temas que se apresentaram com maior incidência e constituíram as categorias de análise das atas que fizeram parte da amostra, pois, ao explorar todas as atas arquivadas, fizeram-se necessárias, como assinala Lüdke (1986), leituras e releituras que permitiram organizá-las por escola e por data, o que resultou em um levantamento quantitativo de todo o material disponível.

Com este trabalho pretendemos verificar se os professores construíram a qualidade educativa do projeto, a partir da qualidade formal e da qualidade política.


A avaliação de projetos educacionais

A avaliação nos últimos 20 anos tem sido estudada com um foco no processo de ensino e aprendizagem, incluindo a análise de todos os fatores e agentes envolvidos no processo. Verificamos na literatura que, nas décadas de 1980 e 1990, a avaliação educacional foi amplamente estudada no que se refere ao rendimento escolar, propondo-se a avaliação como: análise sociológica, processo individualizado, ou processo de ensino-aprendizagem contínuo e norteador do trabalho do professor, sendo este o tema principal desses estudos, como colocado acima.

Encontramos autores que trabalham com a avaliação de projetos educacionais principalmente na década de 1980, dentre os quais Popham, Scriven, Goldberg e Souza, além de Oliveira.

Oliveira (1983) adaptou um protocolo para a Avaliação de Projetos e Programas Educacionais de origem norte-americana à nossa realidade. Neste trabalho, a autora enfatiza a importância da avaliação de projetos:

“Numa época de mudanças aceleradas como a atual, em que as inovações se sucedem vertiginosamente, a avaliação impõe-se cada vez mais e ganha maior aceitação. Portanto, não é surpreendente que à avaliação tenham sido atribuídos diversos papéis, dentre os quais o de orientar ações sociais e de assegurar, aos legisladores e planejadores, bases mais sólidas para julgamento de suas ações, para verificação da adequação dos serviços prestados aos diferentes públicos, bem como para aplicação de recursos financeiros e humanos.” (Oliveira, 1983:1)

A autora coloca que à avaliação era atribuída na época a propriedade de ser agente do repensar dos legisladores, na efetivação de serviços prestados. No que se refere a esta propriedade, acreditamos que este trabalho possa auxiliar novos empreendimentos educacionais[3] como subsídio para tomada de decisões futuras.

A fim de favorecer a compreensão no que se refere à avaliação educacional, recorreremos à diferenciação entre pesquisador educacional e avaliador educacional proposta por Popham (1983). Para tanto, ele lista tópicos que facilitam a diferenciação entre ambos. O primeiro tópico, segundo o autor, caracteriza-se pelo:

“Enfoque da investigação. Tanto os pesquisadores quanto os avaliadores estão tentando assegurar conhecimento adicional, mas o uso que eles desejam fazer de tal conhecimento difere. Os pesquisadores desejam chegar a conclusões. Os avaliadores mais interessados em decisões. Os pesquisadores estão interessados em compreender os fenômenos, freqüentemente sem qualquer outro propósito senão este: entendê-los melhor. Os avaliadores desejam entender melhor os fenômenos a fim de orientar as ações de alguém.” (Popham, 1983:7)

Assumimos nesta pesquisa o papel de avaliadores educacionais, pois desejamos compreender os fenômenos decorrentes da estruturação e implantação do Projeto Eureka a fim de orientar ações futuras. Constituímo-nos como avaliadores que focalizam sua investigação na facilitação de melhores decisões para processos educacionais futuros.

O segundo tópico descrito por Popham para diferenciar pesquisa educacional e avaliação educacional é a:

“Possibilidade de generalizar os resultados da investigação. Uma diferença básica entre a pesquisa e a avaliação deriva da possibilidade de generalizar os resultados obtidos. Um pesquisador educacional está interessado em discernir a natureza das relações entre as variáveis educacionalmente relevantes. Um resultado ideal de uma investigação de pesquisa seriam os resultados que pudessem ser generalizados para uma ampla variedade de situações comparáveis. Quanto maior generalidade houver nos resultados de uma pesquisa, tanto mais satisfeito ficará o pesquisador. A avaliação, ao contrário, é focalizada em um fenômeno educacional particular. Não há intenção de generalizar os resultados para outras situações. O enfoque é nesta situação e que decisões tomar sobre a mesma.” (Popham, 1983:17)

Não pretendemos neste estudo generalizar esta avaliação a outros projetos de implantação de inovações, mas contribuir para auxiliar as decisões sobre o tema por meio da análise dos dados.

Um terceiro tópico discutido por este autor diz respeito ao papel da valoração na investigação:

 “Conforme mencionado anteriormente, a avaliação educacional diz respeito à determinação do valor das coisas. É imperativo para o avaliador estabelecer quão valioso é um fenômeno educacional a fim de ajudar a tomar decisões concernentes ao que deveria ser feito a respeito dele. Os pesquisadores, por outro lado, procuram a verdade científica sem qualquer desejo de vincular juízos de valor aos seus resultados. Quando pesquisadores detectam uma relação fidedigna entre duas variáveis, eles podem legitimamente cessar sua investigação aí mesmo. Não há exigências para vincular as estimativas de mérito às relações descobertas. Os pesquisadores não têm de dizer se estas são boas ou más relações. Eles não têm de comparar a qualidade de uma relação com a de outras relações [grifo nosso]. Seu trabalho termina com o estabelecimento das verdades.” (Popham, 1983:18)

Procuraremos estabelecer a natureza das relações que permearam a implantação e expansão do Projeto Eureka.

Outra distinção relevante no que se refere à avaliação é proposta por Scriven (apud Popham, 1983). Este último propôs, em seu clássico ensaio sobre avaliação escrito em 1976, a distinção entre os papéis formativo e somatório da avaliação. Na época em que este autor lançou esta distinção, a mesma foi prontamente aceita pelos avaliadores educacionais da época. Verificamos que até hoje a contribuição mantém-se atual e consistente.

Segundo Popham, Scriven propôs:

“A avaliação formativa refere-se à estimativa do valor focalizado nos programas de ensino ainda possíveis de serem modificados. O avaliador formativo coleta informações e julga o mérito dos aspectos de uma unidade de ensino a fim de melhorar essa unidade. Exemplos dos tipos de unidade de ensino ainda maleáveis que a avaliação formativa poderia melhorar incluíram (1) uma versão inicial de um conjunto de folhetos de ensino sem mestre ou (2) um programa educacional “aberto” recentemente iniciado onde o corpo docente ainda está tentando projetar os componentes efetivos do programa. Os avaliadores formativos tentam apreciar tais programas a fim de informar aos que estão desenvolvendo o programa como diminuir as deficiências em seu ensino. A alma da estratégia do avaliador formativo é coletar evidência  empírica considerando a eficácia dos vários componentes da unidade de ensino e, então, considerar essa evidência empírica de modo a isolar as deficiências e sugerir modificações.” (Popham, 1983:20)

Com base nesta definição de avaliação formativa, verificamos que nosso trabalho não seria uma avaliação deste tipo, pois o objeto de nossa análise é um projeto já encerrado. Encontramos na definição de avaliação somatória subsídio para a nossa análise:

“A avaliação somatória refere-se à estimativa dos méritos focalizados nos programas de ensino completos. O avaliador somatório coleta informações e julga os méritos de uma unidade de ensino completa de maneira que se possam tomar decisões relativas a se deve conservar ou adotar a unidade de ensino já encerrada.” (Popham, 1983:20)

Nosso trabalho, portanto, define-se como uma avaliação educacional com o papel de constituir-se em avaliação somatória, por analisarmos um projeto completo (como escreve o autor supracitado) do qual serão coletadas informações a  respeito do mérito do mesmo.

A avaliação de projetos educacionais é discutida por Popham em seu aspecto afetivo, ou seja, atribuindo-se um julgamento de valor. Segundo Goldberg (1982), Popham coloca:

“Quando se avalia, faz-se sempre algum tipo de apreciação. Faz-se uma estimativa ou um julgamento do valor de algum fenômeno e, na avaliação educacional, estamos interessados em fazer apreciações acerca do mérito dos empreendimentos educacionais.” (Popham citado por Goldberg, 1982:6)

Esta afirmação nos auxilia a compreender o porquê da avaliação de projetos educacionais, o motivo pelo qual optamos por realizar esta tarefa delicada e minuciosa, verificando os méritos de projetos como este. Caro, citado por Goldberg (1982), nos auxilia a verificar como pode ser realizado o processo de avaliação de Projetos ou Programas Educacionais:

“Costuma-se elaborar programas com a intenção de atingir um objetivo, uma finalidade, ou  um resultado considerado valioso. A avaliação de um programa  fornece julgamentos acerca do grau em que os resultados desejados foram ou podem ser alcançados. Ela permite tirar conclusões a respeito da validade de um esforço organizado” (Caro citado por Goldberg, 1982:7)

Esta pesquisa avalia um projeto que propunha a inserção de uma inovação: o computador como ferramenta pedagógica. Por meio deste processo de inserção idealizou-se alterar a cultura da escola, a partir da mudança na prática do professor. A escola é um lugar privilegiado para a inserção de metodologias inovadoras, por ocupar um lugar privilegiado quanto às relações de poder. Como escreve Silva, citado por Braga (1996):

“O campo educacional é centralmente cruzado por relações que conectam poder e cultura, pedagogia e política, memória e história. Precisamente por isso é um espaço permanentemente atravessado por lutas e disputas por hegemonia. Não assumir nosso lugar e responsabilidade nesse espaço significa entregá-lo a forças que certamente irão moldá-lo de acordo com seus próprios objetivos e esses objetivos podem não ser exatamente os objetivos de justiça, igualdade e de um futuro melhor para todos.” (Silva, 1994:28)

À escola cabe ocupar seu papel de cenário para as lutas e disputas, constituindo-se como espaço privilegiado para a implantação de um projeto com as características descritas acima.


O contexto da pesquisa

No livro A Máquina das Crianças, Seymour Papert cita uma parábola muito interessante sobre o desenvolvimento tecnológico, tendo como base duas áreas do conhecimento: a medicina e a educação:

“Imagine um grupo de viajantes de um século anterior, entre eles um grupo de cirurgiões e outro de professores primários, cada qual ansioso por ver o quanto as coisas mudariam em sua profissão a cem anos ou mais no futuro. Imagine o espanto dos cirurgiões ao entrarem numa sala de operações de um hospital moderno. Embora pudessem entender que algum tipo de operação estava ocorrendo e até mesmo serem capazes de adivinhar o órgão-alvo, na maioria dos casos seriam incapazes de imaginar o que o cirurgião estava tentando fazer ou qual a finalidade dos muitos aparelhos estranhos que ele e sua equipe cirúrgica estavam utilizando. Os rituais de anti-sepsia e anestesia, os aparelhos eletrônicos com seus sinais de alarme e orientação e até mesmo as intensas luzes, tão familiares às platéias de televisão, seriam completamente estranhos para eles.

Os professores viajantes do tempo responderiam de uma forma muito diferente a uma sala de aula de primeiro grau, moderna. Eles poderiam sentir-se intrigados com relação a alguns poucos objetos estranhos. Poderiam  perceber que algumas técnicas-padrão mudaram e provavelmente discordariam, entre si, se as mudanças que observaram foram para melhor ou para pior, mas perceberiam plenamente a finalidade da maior parte do que se estava tentando fazer e poderiam, com bastante facilidade, assumir a classe.” (Papert, 1994:9)

Esse trecho foi escolhido porque demonstra como a educação tem-se configurado no que se refere à modernidade, que penetra os espaços sociais modificando a vida cotidiana das pessoas. Entretanto, a educação mantém-se fiel aos velhos recursos: quadro-negro e giz. Assim sendo, esse panorama reflete o pensar pedagógico.

A proposta do Projeto Eureka

 

Em 1989, iniciou-se o processo de estruturação de um projeto que pretendia mudar a cultura da escola, introduzindo uma inovação: o computador. O Projeto Eureka foi um convênio entre a Prefeitura Municipal de Campinas (representada pela Secretaria Municipal da Educação) e a Universidade Estadual de Campinas (representada pelo Laboratório de Educação e Informática Aplicada da Faculdade de Educação). O financiamento do projeto partiu do Ministério da Ciência e Tecnologia (Programa RHAE/CNPq) e da Finep – Financiadora de Estudos e Projetos.

O critério de seleção das escolas para participar do projeto era ser uma escola que atendesse o primeiro grau. Com base nesse critério, a inclusão da Fumec[4] no projeto foi obrigatória, sendo critério para não-aceitação se a escola não tivesse classe de Fumec. A Fumec oferecia ensino supletivo para a comunidade por meio da seguinte estrutura:  a Suplência 1 – 1ª à 4ª série e a Suplência 2 – 5ª à 8ª, portanto somente faziam parte do projeto escolas que oferecessem o ensino fundamental regular e Fumec. O critério de inclusão da Fumec foi marcante no processo de inclusão das escolas ao Eureka.

O Projeto Eureka pretendia alterar o panorama apresentado por Papert, na parábola[5], quanto à tecnologia na educação. Este projeto não se limitava ao uso do computador, mas, além disso, propunha uma nova filosofia para o trabalho pedagógico, construindo uma instância efetiva de interdisciplinaridade e um local propício para a construção do aprender a aprender.

O conceito do aprender a aprender é discutido por Demo (1993):

“Isto coloca o desafio com clareza: professor deve ser a imagem viva do ‘aprender a aprender’, estabelecendo que o centro desta expressão é o cerne da educação. Na verdade, se não for capaz de elaborar projeto pedagógico próprio, nunca foi educador, não tem condições de ser, representa o contrário especificamente.” (Demo, 1993:89)

A necessidade de o professor elaborar um discurso pedagógico próprio a fim de alcançar seu papel de educador é enfatizada por Demo:

“Uma exposição atraente, de modo geral, revela que o expositor não se reduz a repassador. Pelo menos apresenta síntese pessoal. É intérprete, ou seja, alguém que entra na história científica como sujeito ativo, dando seu recado próprio. Com isto, leva os alunos a pensarem, questionarem, se posicionarem, no próprio exemplo de alguém que se confronta com o saber alheio. Não é simples receptor.” (Demo, 1993:159)

Portanto, o autor coloca que o professor não é mero repassador do conhecimento, ele deve analisar e interpretar os conteúdos que serão ensinados aos alunos. O professor assume a posição de aprendiz, tendo o prazer de aprender para ensinar, possibilitando ao aluno também o aprender a aprender. Esse aspecto rompe com o antigo paradigma da relação professor-aluno, em que um “ensinava” e ao outro restava ser um depositário de informações, que seriam decoradas e copiadas em provas para provar a aprendizagem. Com o aprender a aprender, tanto o professor quanto o aluno constroem e reconstroem o conhecimento de forma ativa e constante.

 Portanto, seria natural na prática com o Eureka alterar a relação professor-conhecimento-aluno. Não se pretendia apenas introduzir o computador na escola, mas  oferecer um espaço para a construção de uma metodologia de introdução da inovação na educação, oferecendo ao professor a possibilidade de ter uma formação continuada em serviço[6].

O Eureka apresentou duas fases: a primeira compreende o período de 1990 a 1995, e a segunda de 1995 a 1997, definida na documentação do projeto como a fase de expansão.


Questionamentos iniciais da pesquisa

 

O Projeto Eureka era inovador não apenas por introduzir o computador na prática pedagógica, mas também por:

1)      propor uma estrutura diferenciada oferecendo cursos de formação e acompanhando a  construção da  nova prática dos professores, em sala de aula;

2)      acreditar que seria possível transferir o know-how da academia para a rede municipal, quanto à metodologia e ao conhecimento estruturados com o projeto.

Por acreditarmos que a estrutura proposta pelo projeto seja um aspecto importante quanto à inovação, optamos por analisá-la e avaliar o processo de sua inserção na escola[7].

Ao definirmos a estrutura proposta pelo projeto para a formação dos professores – os módulos intensivo e extensivo como o foco de nossa avaliação –, pretendemos responder aos seguintes questionamentos:

        Os professores que participavam do projeto compreenderam a estrutura proposta nos módulos intensivo e extensivo?

        O grupo de trabalho dos professores constituiu-se como um grupo de formação continuada?


Metodologia

Optamos pelo enfoque da avaliação por acreditar que com este trabalho poderemos contribuir para a estruturação de pesquisas futuras, servindo como subsídio para tomadas de decisão, como coloca Oliveira (1983), para novos projetos e programas.

“(...) não é surpreendente que à avaliação tenham sido atribuídos diversos papéis, dentre os quais o de orientar ações sociais e de assegurar, aos legisladores e planejadores, bases mais sólidas para julgamento de suas ações, para verificação da adequação dos serviços prestados aos diferentes públicos, bem como para aplicação de recursos financeiros e humanos.” (Oliveira, 1983:1)

Segundo Luna (1996), as fontes de informação[8] podem ser:

“O documento, como fonte de informação, assume diferentes formas: literatura pertinente a um assunto, anuários estatísticos e censos, prontuários médicos, legislação, etc. Como ocorre em relação às demais fontes, as informações obtidas em documentos podem ser diretas e indiretas. No caso particular de documentos, essa distinção costuma assumir a denominação de fontes primárias (diretas) ou secundárias (indiretas). As obras originais de um autor  são consideradas como fontes primárias, enquanto as traduções e comentários sobre esse autor já são consideradas fontes secundárias[9].

 De um modo geral, quanto mais “oficial” for um documento, mais primária será a fonte[10].” (Luna, 1996:53-54)

As fontes primárias trabalhadas nesta pesquisa possuem essa característica “oficial” citada por Luna (1996), pois são documentos produzidos pelo Projeto Eureka a fim de explicitar sua estrutura organizacional e documentar as ações dos GT´s das escolas.

Optamos pela análise documental por ser o instrumento mais apropriado aos dados que tínhamos disponíveis. A análise documental, segundo Lüdke (1986), deveria ser mais utilizada na área de educação por representar um instrumento valioso para extrair significados de um vasto material escrito normalmente encontrado nessa área:

"Embora pouco explorada não só na área de educação como em outras áreas de ação social, a análise documental pode se constituir numa técnica valiosa de abordagem de dados qualitativos, seja complementando as informações obtidas por outras técnicas, seja desfilando aspectos novos de um tema ou problemas. São considerados documentos ‘quaisquer materiais escritos que possam ser usados como fonte de informação sobre o comportamento humano’ (Philips, 1974, p. 187). Estes incluem desde leis e regulamentos, normas, pareceres, cartas, memorandos, diários pessoais e autobiografias, jornais, revistas, discursos, roteiros de programas de rádio e televisão até livros, estatísticas e arquivos escolares.” (Lüdke, 1986:38)

Os planos de trabalho descrevendo os objetivos e a estrutura organizacional do projeto e as atas dos GT´s das escolas serão os documentos analisados neste estudo.

Para Caulley, citado por Lüdke (1986), a análise documental possibilita levantar evidências das relações intra e extragrupos por meio de informações factuais encontradas nos documentos. Neste estudo, buscaremos nos planos de trabalho e nas atas essas relações.

“A análise documental busca identificar informações  factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse. Por exemplo, uma circular distribuída aos professores de uma escola convidando-os para uma reunião pedagógica poderia ser encaminhada no sentido de buscar evidências para um estudo das relações de autoridade dentro da escola?” (Caulley citado por Lüdke, 1986: 38)

Um outro argumento para a utilização de documentos em nosso trabalho é a estabilidade dos mesmos; pelo fato de não sofrerem influências de fatores circunstanciais ou alterações decorrentes da própria coleta, como questionários ou entrevistas, eles são considerados uma fonte não-reativa. Como coloca Lüdke (1986), baseada em Guba e Lincoln:

“Guba e Lincoln (1981) apresentam uma série de vantagens para uso de documentos na pesquisa com a avaliação educacional. Em primeiro lugar destacam o fato de que os documentos constituem uma fonte estável e rica. Persistindo ao longo do tempo, os documentos podem ser consultados várias vezes e inclusive servir de base a diferentes estudos, o que dá mais estabilidade aos resultados obtidos.

Os documentos constituem também uma fonte poderosa de onde podem ser retiradas evidências que fundamentam afirmações e declarações do pesquisador. Representam ainda uma fonte natural de informação. Não são apenas uma fonte de informação contextualizada, mas surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto.” (Lüdke, 1986: 39)

Mas, a fim de obter uma visão do projeto por meio de seus atores principais, optamos por entrevistas semi-estruturadas, que são compreendidas, segundo Lüdke (1989), como uma das principais técnicas de trabalho em quase todos os tipos de pesquisa nas ciências humanas, desempenhando importante papel não apenas em atividades científicas como também em muitas outras atividades humanas, devido ao seu caráter pessoal e próximo, que permite ao entrevistado colocar livremente sua linha de raciocínio:

“Parece-nos claro que o tipo de entrevista mais adequado para o trabalho de pesquisa que se faz atualmente em educação aproxima-se mais dos esquemas mais livres, menos estruturados. As informações que se quer obter, e os informantes que se quer, em geral professores, diretores, orientadores, alunos e pais, são mais convenientemente abordáveis através de um instrumento mais flexível.” (Lüdke, 1986:34)

Nas entrevistas, contamos com:

        Entrevistado 1: coordenadora do projeto;

        Entrevistado 2: coordenador da equipe de apoio.

 

Destacamos também na pesquisa:

        Profª 1: professora de uma pré-escola;

        Profª M : coordenadora do projeto na escola;

        Profª C e Profª N: instrutoras do projeto.

 

Ao analisarmos as atas das escolas, utilizaremos aleatoriamente Escola A, Escola B, Escola C e Escola D, preservando a identidade das mesmas.

 


Organização dos documentos

 

Os planos de trabalho de 1993, 1995, 1996 e 1997 foram analisados em relação à estrutura do projeto. Para realizar a análise das atas como fontes de informação, efetuamos dois processos: um de organização e acondicionamento[11] das mesmas e posteriormente a sua análise, procurando fazer um levantamento de temas a fim de construir categorias que pudessem responder aos questionamentos iniciais.

“Depois de organizar os dados, num processo de inúmeras leituras e releituras, o pesquisador pode voltar a examinar os dados para tentar detectar temas e temáticas mais recorrentes, esse procedimento é essencialmente indutivo e vai culminar na construção de categorias ou tipologias.” (Lüdke, 1986:42)

Desse trabalho resultarão as evidências do processo de apropriação pelos professores participantes da estrutura proposta para a efetivação da formação continuada em serviço.

 

Organização das atas

 

Inicialmente selecionamos o período de 1995 a 1997, por termos acesso às atas referentes a esse período, mas, após entrevista com o participante da equipe, verificamos que, se assumíssemos o período de 1995 a 1997 como fonte de informações[12], estaríamos trabalhando apenas com a segunda fase do projeto, que foi definida como “a expansão do projeto”. Com o objetivo de coletar informações significativas e consistentes para o levantamento temático, retomamos a busca e seleção de material da fase de 1990 a 1995.

A coleta de dados demandou três etapas em relação às atas de reuniões:

        leitura inicial de todo o material;

        organização e acondicionamento das atas disponíveis, levantamento quantitativo;

        seleção e coleta de dados, levantamento de categorias.

Tendo realizado a leitura e organização do material, verificamos a inviabilidade de análise de toda a amostra e a necessidade de um recorte. Elegemos as escolas da fase inicial do projeto (1990-1992), por acreditarmos que elas:

a)      possuíam um histórico mais completo, oferecendo-nos o maior número de atas e principalmente de dados para a análise;

b)      não estavam sob influência do efeito da novidade;

c)      tinham mais profundamente alicerçada a estrutura proposta (módulos intensivo e extensivo);

d)     teriam condições para uma implantação focada nos objetivos;

e)      tinham maturidade para gerenciar o projeto a partir da filosofia de trabalho.

Constatamos que, no período de 1989 a 1995, o Eureka estava sendo implantado em cinco escolas. Esta relação obedece à ordem de integração das escolas ao projeto.

Optamos neste momento pela construção da trajetória do Eureka a partir dos relatos de entrevistados e de documentos oficiais da época. Para a coleta e análise de dados, inicialmente buscamos, na documentação oficial do projeto, descrições a respeito da estrutura dos módulos.

Na análise das atas dos grupos de trabalho, realizamos inicialmente a seleção de temas que consideramos as evidências para a apropriação por parte dos professores da estrutura proposta pelo Eureka: o módulo intensivo e o módulo extensivo. Destacamos os temas que se apresentaram com maior freqüência[13] na amostra da pesquisa. Construímos, então, as categorias de análise dos dados.

No levantamento temático das atas das reuniões dos grupos de trabalho, destacaremos as “palavras” dos professores, que serão apresentadas em itálico. Para os leitores interessados no acesso às atas, elas encontram-se no volume 2 desta dissertação, apresentando-se organizadas cronologicamente e por escola, juntamente com o texto “Projeto Eureka”, de 1992, e os planos de trabalho de 1993, 1995, 1996 e 1997.


Dados quantitativos das escolas participantes do Eureka em 1997

 

Segundo Worthen, uma das características da boa avaliação é a caracterização do objeto da avaliação:

“Uma avaliação só será completa se concluir uma descrição abrangente, porém pormenorizada, do programa ou fenômeno a ser avaliado. Sem tal caracterização, poder-se-ia acabar emitindo julgamentos sobre entidades que na, realidade, jamais existiram.” (Worthen in Goldberg, 1982:7)

Nesta parte do trabalho, descrevemos a primeira etapa de nossas atividades definidas na metodologia. Esta fase refere-se à leitura e releitura de todas as atas disponíveis, de 1990 a 1997, num total de 3.332 atas de 39 instituições educacionais, que foram divididas por escola, organizadas por data e acondicionadas. Essa documentação favorece o acesso de outros pesquisadores a um material organizado e datado. Todo o material encontra-se atualmente no LEIA – Laboratório de Educação e Informática Aplicada, da Faculdade de Educação da Unicamp.

Para a confecção do volume 2 (Anexos) fez-se necessário tirar cópias das atas de reunião, o que em alguns casos causou a perda de qualidade para leitura, portanto caso haja dificuldade na leitura da ata, recomendamos a consulta ao original.

Com o objetivo de fornecer mais informações a respeito desse material, fizemos uma relação de todas as escolas participantes (quadro 1).

 

Quadro 1 – Escolas participantes do projeto em 1997

 

Escola

1

CAIC  “Zeferino Vaz”

2

EMEI Unicamp/ Prefeitura

3

E.M.E.I. “Agostinho Páttaro”

4

E.M.P.G. “Anália de Ferraz da Costa Couto”

5

E.M.P.G. “Angela Cruz Zákia”

6

E.M.P.G. “Avelina Canazza”

7

E.M.P.G. “Carmelina de Castro Rinco”

8

E.M.P.G. “Clotilde Von Zuben Barraquete”

9

E.M.P.G. “Correa de Mello”

10

E.M.P.G. “Dr. Edson Luis Chaves”

11

E.M.P.G. “Dr. João Alves dos Santos”

12

E.M.P.G. “Dr. Lourenço Bellochio”

13

E.M.P.G. “Edson Luis Lima Souto”

14

E.M.P.G. “Elvira Muraro”

15

E.M.P.G. “Elza Maria Pellegrini de Aguiar”

16

E.M.P.G. “General Humberto de Souza Melo”

17

E.M.P.G. “Júlio de Mesquita Filho”

18

E.M.P.G. “Leonor Savi Chaib”

19

E.M.P.G. “Maria Luiza Pompeo de Camargo”

20

E.M.P.G. “Maria Pavanatti Fávaro”

21

E.M.P.G. “Odila Maia Rocha Brito”

22

E.M.P.G. “Padre Domingos Zatti”

23

E.M.P.G. “Padre Emílio Miotti”

24

E.M.P.G. “Padre Francisco Silva”

25

E.M.P.G. “Padre José N. V. Ehrenberg”

26

E.M.P.G. “Padre Leão Vallerié”

27

E.M.P.G. “Padre Melico Candido Barbosa”

28

E.M.P.G. “Presidente Floriano Peixoto”

29

E.M.P.G. “Presidente Humberto de A. Castelo Branco”

30

E.M.P.G. “Professor André Tosello”

31

E.M.P.G. “Professor Benevenuto de Figueiredo Torres”

32

E.M.P.G. “Professor Ciro Exel Magro”

33

E.M.P.G. “Professor Vicente Rao”

34

E.M.P.G. “Professora Dulce Bento Nascimento”

35

E.M.P.G. “Professora Sylvia Simões Magro”

36

E.M.P.G. “Raul Pila”

37

E.M.P.G. “Violeta Doria Lins”

38

E.M.P.G. “Virginia M. A. Vasconcellos”

39

Externato São João

 

 

O material foi acondicionado em quatro caixas de arquivo, em ordem alfabética pelo nome da escola. Abaixo consta a relação do material das caixas de arquivo.

 

Quadro 2 – Relação de arquivos por escola

Caixa 1

Caixa 2

CAIC  “Zeferino Vaz”

E.M.P.G. “Dr. Edson Luis Chaves”

EMEI Unicamp/ Prefeitura

E.M.P.G. “Dr. Lourenço Bellochio”

E.M.E.I. “Agostinho Páttaro”

E.M.P.G. “Dr. João Alves dos Santos”

E.M.P.G. “Anália de Ferraz da Costa Couto”

E.M.P.G. “Edson Luis Lima Souto”

E.M.P.G. “Angela Cruz Zákia”

E.M.P.G. “Elvira Muraro”

E.M.P.G. “Padre Avelino Canazza”

E.M.P.G. “Elza Maria Pellegrini de Aguiar”

E.M.P.G. “Carmelina de Castro Rinco”

E.M.P.G. “General Humberto de Souza Melo”

E.M.P.G. “Clotilde Von Zuben Barraquete”

E.M.P.G. “Júlio de Mesquita Filho”

E.M.P.G. “Correa de Mello”

E.M.P.G. “Leonor Savi Chaib”

 

E.M.P.G. “Maria Luiza Pompeo de Camargo”

 

Caixa 3

Caixa 4

E.M.P.G. “Maria Pavanatti Fávaro”

E.M.P.G. “Professor Ciro Exel Magro”

E.M.P.G. “Odila Maia Rocha Brito”

E.M.P.G. “Professor Vicente Rao”

E.M.P.G. “Padre Domingos Zatti”

E.M.P.G. “Professora Dulce Bento Nascimento”

E.M.P.G. “Padre Emílio Miotti”

E.M.P.G. “Professora Sylvia Simões Magro”

E.M.P.G. “Padre Francisco Silva”

E.M.P.G. “Raul Pila”

E.M.P.G. “Padre José N. V. Ehrenberg”

E.M.P.G. “Violeta Doria Lins”

E.M.P.G. “Padre Leão Vallerié”

E.M.P.G. “Virginia M. A. Vasconcellos”

E.M.P.G. “Padre Melico Candido Barbosa”

Externato São João

E.M.P.G. “Presidente Floriano Peixoto”

 

E.M.P.G. “Presidente Humberto de A. Castelo Branco”

 

E.M.P.G. “Professor André Tosello”

 

E.M.P.G. “Professor Benevenuto de Figueiredo Torres”

 

 

Podemos construir o seguinte quadro geral das escolas:

Quadro 3 – Quadro com os números totais de atas por escola

 

Escola

Totais de atas

1

CAIC  “Zeferino Vaz”

73

2

EMEI Unicamp/ Prefeitura

35

3

E.M.E.I. “Agostinho Páttaro”

171

4

E.M.P.G. “Anália de Ferraz da Costa Couto”

132

5

E.M.P.G. “Angela Cruz Zákia”

39

6

E.M.P.G. “Avelina Canazza”

57

7

E.M.P.G. “Carmelina de Castro Rinco”

119

8

E.M.P.G. “Clotilde Von Zuben Barraquete”

43

9

E.M.P.G. “Correa de Mello”

166

10

E.M.P.G. “Dr. Edson Luis Chaves”

76

11

E.M.P.G. “Dr. João Alves dos Santos”

99

12

E.M.P.G. “Dr. Lourenço Bellochio”

88

13

E.M.P.G. “Edson Luis Lima Souto”

104

14

E.M.P.G. “Elvira Muraro”

143

15

E.M.P.G. “Elza Maria Pellegrini de Aguiar”

63

16

E.M.P.G. “General Humberto de Souza Melo”

73

17

E.M.P.G. “Júlio de Mesquita Filho”

137

18

E.M.P.G. “Leonor Savi Chaib”

64

19

E.M.P.G. “Maria Luiza Pompeo de Camargo”

73

20

E.M.P.G. “Maria Pavanatti Fávaro”

48

21

E.M.P.G. “Odila Maia Rocha Brito”

86

22

E.M.P.G. “Padre Domingos Zatti”

100

23

E.M.P.G. “Padre Emílio Miotti”

54

24

E.M.P.G. “Padre Francisco Silva”

180

25

E.M.P.G. “Padre José N. V. Ehrenberg”

54

26

E.M.P.G. “Padre Leão Vallerié”

63

27

E.M.P.G. “Padre Melico Candido Barbosa”

26

28

E.M.P.G. “Presidente Floriano Peixoto”

24

29

E.M.P.G. “Presidente Humberto de A. Castelo Branco”

90

30

E.M.P.G. “Professor André Tosello”

90

31

E.M.P.G. “Professor Benevenuto de Figueiredo Torres”

125

32

E.M.P.G. “Professor Ciro Exel Magro”

66

33

E.M.P.G. “Professor Vicente Rao”

63

34

E.M.P.G. “Professora Dulce Bento Nascimento”

195

35

E.M.P.G. “Professora Sylvia Simões Magro”

96

36

E.M.P.G. “Raul Pila”

109

37

E.M.P.G. “Violeta Doria Lins”

11

38

E.M.P.G. “Virginia M. A. Vasconcellos”

75

39

Externato São João

22

 

Total geral

3.332

 

Do total geral de 3.332 atas, temos para análise após a seleção de todo o material disponível:

Quadro 4 – Total de atas analisadas da amostra selecionada

 

Escolas selecionadas

Número de atas

1

Escola A

171

2

Escola B

137

3

Escola C

 180

4

Escola D

 195

 

Total de atas analisadas

683

Contexto histórico do Projeto Eureka

A fim de compreender o lugar histórico em que surge a proposta pedagógica do projeto, devemos contextualizá-lo registrando o movimento do processo de introdução da informática na educação.

Na década de 1970, houve as primeiras políticas públicas para a elaboração de uma base própria para o desenvolvimento na área da informática. O computador ainda não fazia parte da vida da grande maioria da população nessa década, portanto, esse movimento limitou-se à iniciativa governamental. Foram criadas a Comissão Especial de Informática e a Secretaria de Informática em nível federal. Essas instâncias surgiram como medidas protecionistas, procurando estabelecer no país uma capacitação científica e tecnológica.

O MEC[14] colocou-se à frente do processo de informatização da educação iniciando a estruturação do Projeto Educom, que propunha o uso do computador na escola.

O Projeto Educom foi desenvolvido em cinco universidades: Universidade Federal de Pernambuco, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Estadual de Campinas e Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A Unicamp, em sua proposta para o Projeto Educom, pretendia implantar o uso da linguagem Logo em escolas públicas de segundo grau, com base no trabalho de Papert. 

Papert coloca como fundamental não a linguagem por si mesma, mas o que chama de “o ambiente Logo de aprendizagem”:

“O contato com ambientes Logo vai gradativamente minando resistências fortemente arraigadas em relação à utilização de debugging e subprocedimentos. Algumas pessoas que observam a crescente tolerância das crianças em relação a seus ‘erros’ atribuem tal mudança de atitude aos professores que ensinam com Logo, que são realistas e não críticos na presença de programas que a criança  vê como ‘errados’. Acredito que haja algo ainda mais fundamental acontecendo. Num ambiente Logo, as crianças aprendem que o professor também é um aprendiz, e que todos aprendem a partir dos erros (...)

(...) Nas salas de aula tradicionais, os professores tentam trabalhar em colaboração com a criança, mas, em geral, o material em si mesmo não gera espontaneamente problemas a serem pesquisados. Um adulto e uma criança podem genuinamente colaborar num projeto de aritmética elementar? Uma das características importantes do trabalho com o computador é que o professor e o aluno podem engajar-se numa verdadeira colaboração intelectual (...) O ambiente Logo é especial porque fornece inúmeros problemas que crianças do 1o grau escolar podem entender com um nível de completude que raramente acontece na vida cotidiana.” (Papert, 1985: 142-143)

No trabalho de Papert, verificamos a linha construtivista piagetiana como fundamento de sua teoria, embora acrescente a sua própria visão do processo de aprendizagem:

“Observo nas teorias de Jean Piaget um modelo de crianças que podem ser vistas como construtoras de suas  próprias estruturas intelectuais. As crianças parecem ser aprendizes inatos.

Piaget está no centro das questões levantadas neste livro. Eu faço uma interpretação ligeiramente não ortodoxa de sua posição teórica e uma interpretação não muito ortodoxa das implicações de sua teoria para a educação. O leitor que desejar retornar às fontes necessita de alguma orientação, pois Piaget escreveu um grande número de livros, a maioria dos quais discute aspectos específicos do desenvolvimento das crianças, assumindo que outros livros já tenham sido lidos como um prefácio teórico.” (Papert, 1985:19).

Para Papert (1985), a atividade de programar permite à criança desenvolver uma nova relação com o conhecimento. Neste aspecto, concordamos com o autor quanto à transformação do processo ensino-aprendizagem:

“(...) quando a criança aprende a programar, o processo de aprendizagem é transformado. Em particular, o conhecimento é adquirido para um propósito pessoal reconhecível. A criança faz alguma coisa com ele. O novo conhecimento é uma fonte de poder e é experienciado como tal a partir do momento que começa a se formar na mente da criança.” (Papert, 1985:37)

Acrescentaríamos ainda que a estruturação do raciocínio acontece primeiro no momento da programação e depuração e posteriormente quando o aprendiz apresenta a sua produção (programa em Logo) para os colegas e professores. É fundamental, portanto, a troca constante entre alunos e professores.

Segundo Valente (1993), basicamente havia dois aspectos sendo explorados na proposta da Unicamp: o da infra-estrutura e o da metodologia.

Quanto à infra-estrutura, a proposta continha a solicitação de locais para a montagem de computadores que atendessem aos alunos e professores. No que se refere à metodologia, propunha a implantação do uso do Logo, pelos professores, nas atividades desenvolvidas nas escolas. A formação para os professores da rede pública no Projeto Educom consistia de 300 horas de curso em Logo. 

Esse projeto trazia, do ponto de vista da infra-estrutura, a inovação de ser desenvolvido na escola e não na universidade. Propunha-se a montagem de laboratórios nas escolas que seriam utilizados por professores de diferentes disciplinas do segundo grau. Um critério interessante do projeto foi:

“A  escola ou as escolas escolhidas deveriam ser da rede pública e o trabalho relativo ao uso do computador deveria ser desenvolvido pelos próprios professores das disciplinas mencionadas. Além disso, as escolas escolhidas deveriam ser representativas das escolas da rede estadual de ensino e contemplar alunos dos diferentes níveis sócio-econômicos.” (Valente, 1993:78).

O projeto foi desenvolvido pelo NIED[15] em três escolas públicas do ensino médio na região de Campinas: a E.E.P.S.G. Tomás Alves, representativa da camada média da população, localizada em Souzas (distrito de Campinas); a E.E.P.S.G. João XXIII, localizada em um bairro industrial de Americana, representando as camadas média e média-baixa da população; e a E.E.P.S.G. Carlos Lancastre, representativa da camada baixa da população, localizada em um bairro da periferia de Campinas.

Em 1985, foi iniciada a implantação do projeto nas escolas. O grupo da Unicamp responsável pela implantação era:

“Inicialmente o grupo da Unicamp que trabalhava no Projeto EDUCOM era formado por todos os docentes e pesquisadores que faziam parte do NIED. Nesse início de Projeto havia uma identidade muito forte entre o NIED e o EDUCOM. Trabalhavam no Projeto cerca de cinco docentes: Eduardo Chaves, especialista em teoria do conhecimento e coordenador do NIED; José Armando Valente, especialista em informática e educação; Afira Vianna Ripper, especialista em psicologia da aprendizagem; Maria Cecília C. Baranauskas e Heloísa V. da Rocha, ambas especialistas em ciência da computação. Além desses profissionais o Projeto contava com três pesquisadores, contratados pelo NIED, todos eles com especialidade em pedagogia: Maria Elisabette B. B. Prado, Beatriz Bitelman e Antonio F. Gagliardo. Portanto, o grupo do EDUCOM-UNICAMP era formado por oito profissionais, sendo cinco docentes e três pesquisadores” (Valente, 1993: 81).

Valente (1993) escreve em uma nota de rodapé, que destacamos por ser o texto em que encontramos documentado o fim do projeto:

“O EDUCOM foi um projeto cujo objetivo era o desenvolvimento de pesquisas e metodologias sobre uso da informática na educação. Era um projeto financiado pelo Ministério da Educação e foi implantado em 1985, em 5 centros (...). Estes centros trabalhavam com escolas públicas e desenvolviam atividades Logo, programas educacionais tipo courseware, ensino de informática, bem como formação de profissionais para desempenharem estas atividades. Esse projeto terminou em 1991 [grifo nosso].” (Valente, 1993:122)

A idealizadora do Projeto Eureka em 1989 participava do Projeto Educom. Com base nessa experiência, ela imaginou que poderia estruturar um projeto que viesse a contribuir com a inserção do computador no ensino fundamental. Nesta época, o Entrevistado 2[16] era estudante de pedagogia e trabalhava junto com a idealizadora do Eureka no Educom.

Iniciou-se assim o planejamento do Projeto Eureka, em um dos cursos de formação em Logo do Projeto Educom. Foi reservada uma vaga para a rede municipal de Campinas, vaga esta que foi preenchida pela Profª 1. Após o curso de formação, a Profª 1 iniciou o processo de implantação do projeto na pré-escola onde lecionava.

O Entrevistado 2 destacou que, no que se refere ao uso dos computadores, o Eureka propunha estrutura semelhante ao Educom, com a instalação de laboratórios para uso dos professores e alunos.

A Escola A era uma escola inovadora, pois já nessa época (1989) as professoras da escola trabalhavam com os cantinhos de atividades em sala de aula, favorecendo a socialização e a adaptação a diferentes ambientes para a realização de atividades. O computador foi incorporado no cantinho de leitura e escrita.

Neste contexto iniciou-se a história do Projeto Eureka, avaliada neste estudo a partir de relatos de sua trajetória.


O Projeto Eureka

 

Este projeto pretendia democratizar o uso do computador e principalmente a produção de conhecimento, pois, na época de sua estruturação, falar em computador na escola era uma utopia; não se tinha idéia de quais aspectos poderiam ser trabalhados na realização das atividades propostas.

“A questão de que o controle, a democratização e a produção de conhecimento também passa pela sala de aula é o elemento fundamental da filosofia de educação subjacente ao uso de informática em educação neste projeto. Ao propor criar o ‘ambiente Logo’ como parte integrante das atividades pedagógicas a expectativa é que os alunos desenvolvam não apenas as habilidades intelectuais e assimilem o conhecimento, mas adquiram, também, auto-confiança como aprendizes e elevada auto-estima, essenciais para o desenvolvimento da cidadania.” (Ripper et al., 1993:412)

Verificamos, a partir deste trecho, que o Eureka pretendia mudar as relações dentro da sala de aula, por acreditar que era nesse espaço de ensino que tanto o aluno quanto o professor poderiam desenvolver habilidades intelectuais, emocionais e afetivas.

O Entrevistado 2 considera que a parceria entre a escola pública e a universidade possibilita a implantação de novas teorias/tecnologias educacionais:

“O trabalho do professor era crucial neste processo. Para viabilizá-lo foi necessário o trabalho conjunto e integrado entre universidade e escola, rompendo os moldes tradicionais de pesquisa, em que a academia tem as perguntas e hipóteses prontas, construídas a priori, cujo trabalho de campo teria só uma função confirmatória. Não. O professor na escola também seria um pesquisador. A academia tinha um papel importante, no nosso caso específico, de integrar o ‘ambiente Logo’ ao cotidiano curricular da Fumec. Só poderia ser dada com total participação e integração de cada professor ao processo de formação e implantação dos projetos de informática educativa nas suas realidades escolares, no seu dia-a-dia do processo de ensino-aprendizagem.”

Ao propor a construção de uma metodologia de introdução do computador na educação no ensino de primeiro grau, o projeto apresenta um traço inovador no que se refere às estratégias utilizadas para a efetivação do processo de implantação, devido aos seguintes fatores:

1)      o projeto propunha estruturar-se por meio da formação continuada em serviço dos professores da rede municipal de ensino;

2)       do diálogo constante entre a escola (espaço privilegiado para prática) e a academia (centro da produção teórica) é que resulta o Eureka apresentado posteriormente.

O Entrevistado 2 destaca o diálogo entre a academia e a escola como algo muito marcante, pois, nessas trocas constantes com o objetivo de aprimorar e melhorar o projeto, houve o amadurecimento não só do próprio projeto como de todos os envolvidos nele:

“Havia uma troca constante entre a academia e a prática de sala de aula em que a avaliação dos cursos oferecidos e a reestruturação dos mesmos eram constantes. Os professores foram elaborando e construindo o projeto na troca de experiências no módulo extensivo.”

A elaboração resultante dessa troca constante é, segundo Braga (1994), um processo de amadurecimento do professor:

“O lado afetivo-pedagógico do professor é trabalhado desde o curso de Iniciação, onde se criam conflitos que o fazem refletir não apenas sobre a sua prática docente como sua própria atitude enquanto aprendiz.” (Braga, 1994:9)

No que se refere às contribuições desse projeto ao trabalho pedagógico, podemos verificar que a possibilidade dada aos professores, alunos e especialistas da educação de usar e transformar a escola a partir da implantação de uma ferramenta tecnológica, em função da mudança da prática pedagógica, propiciou uma verdadeira inovação. O computador passou a ser um recurso pedagógico poderoso no processo de ensino-aprendizagem, constituindo o “ambiente Logo de aprendizagem”. Assim, marcamos a importância da sala de aula na produção e na democratização de conhecimento, e da universidade como agente disso.

A academia deveria ocupar dois lugares na estruturação do projeto: 1º) fonte de conhecimento para fundamentar o projeto, e 2º) espaço institucional para documentação do projeto, fazendo história e construindo a memória da educação no país.

“Precisa-se de um local físico para preservar a memória. Você até registra, só que você não tem a segurança de que esse registro se transforma num histórico, em um documento, por isso vejo o seu trabalho como contribuição.”

Com base neste relato do Entrevistado 2, explicita-se uma das intenções de nosso estudo: a documentação do Eureka. Esta dissertação foi pensada para constituir-se num trabalho acadêmico sobre a trajetória do Eureka, daí constatarmos que ela vem ocupar o lugar da documentação e da construção da memória.

Ao falar sobre o Projeto Eureka e sua história, o Entrevistado 2 diz:

“O Projeto Eureka é importante pela história e pela sua inovação. Temos sempre que lembrar que o Eureka não era um programa de implantação da informática enquanto tal; o Eureka era um programa de formação continuada em serviço, inovando na metodologia proposta a formação pedagógica, usando o computador como ferramenta, como meio e não como um fim em si mesmo[17]. Então a confusão que sempre houve é que o Projeto Eureka era um programa para implantar o computador na escola; ele era muito mais que isso, por pretender transferir o know-how da academia para a rede municipal de ensino.”

O processo de inserção do computador na educação seria inevitável; caberia ao poder público optar por adaptar o uso à nossa realidade ou tentar, como em outras ocasiões na educação, a transferência de experiências de outros países sem ter o cuidado de adequar o produto ou ferramenta à nossa realidade. Acreditamos que se pretendia implantar o Eureka pensando justamente neste aspecto.

A inovação – neste caso, o computador – seria inserida como ferramenta auxiliar para o trabalho do professor no processo de implantação do projeto. A escola vivenciaria o processo de mudança cultural a partir da mudança da prática pedagógica dos professores. Essa mudança na prática pedagógica deveria ocorrer como resultado dos cursos do módulo intensivo e da vivência do professor com o projeto na escola por meio do módulo extensivo.

Portanto, o ponto central do projeto enquanto implantação em sala de aula era a mudança na metodologia do trabalho pedagógico. Esse processo de mudança foi pensado desde o início do projeto, sendo programado para ocorrer lenta e progressivamente. Para compreendermos isso melhor, basta destacar que, de 1990, ano do primeiro curso de formação para professores, até 1995, o universo de participantes do projeto era de cinco escolas.

Segundo a proposta do Eureka, o professor deveria primeiro construir a sua metodologia de trabalho, para posteriormente atuar expandindo o projeto para toda a escola, possibilitando assim mudar a cultura da mesma.

A oportunidade para a realização do projeto deu-se quando um membro da academia assumiu a função de secretário da Educação. Como destacamos no contexto do Eureka, a idealizadora do projeto imaginou a possibilidade de estruturar-se um projeto para o primeiro grau, introduzindo o uso do computador e utilizando a linguagem Logo de programação como ferramenta para o trabalho pedagógico. Ao conversar com o secretário de Educação da época, houve o interesse dele em estruturar um projeto que viesse a contribuir com a inserção do computador na educação, por meio da formação continuada em serviço para os professores da rede municipal de Campinas.

Para Kramer (1989), a formação continuada em serviço deve considerar:

“A compreensão da prática pedagógica como prática social e identificação do professor como um fator vital nesse processo;

Entendimento de que os mecanismos de formação do professor (no caso, em serviço) devem ser percebidos como prática social inevitavelmente coerente com a prática que se pretende implantar na sala de aula, entre professores e alunos.” (Kramer, 1989:190)

Esta autora propõe ainda alguns princípios para que haja uma formação em serviço de qualidade e comprometida com a mudança da prática pedagógica:

"Há que se ter em vista que a formação do professor que está em serviço é feita na escola e ela deve estar voltada as demais instâncias, a fim de que se fortaleçam os professores em termos teórico-práticos, possibilitando-lhes uma reflexão constante sobre sua atuação e os problemas enfrentados, e uma instrumentalização naqueles conhecimentos imprescindíveis ao rendimento da sua prática.” (Kramer, 1989:197).

Braga (1996) analisa o trabalho de Kramer da seguinte maneira:

"Complementa Kramer sugerindo algumas maneiras de como formação em serviço pode favorecer a melhoria da qualidade do ensino: pensando a prática,  buscando novos conhecimentos, transformando essa prática; favorecendo o acesso e a análise dos conhecimentos em jogo; abrindo espaço para o pedagógico, superando a alienação e o afastamento dos profissionais da escola em relação ao ensino; fortalecendo as escolas, definindo o papel dos especialistas, que passa de superior para desafiador o coordenador das discussões; oferecendo elementos de análise crítica sobre o papel do professor; propiciando a construção do projeto pedagógico na escola.” (Braga, 1996:66).

O Projeto Eureka foi pioneiro na época (final de 1989), pois não se falava em computador na escola, principalmente na escola pública, que apresentava limitantes financeiros[18] para a implantação de uma proposta como essa.

O Entrevistado 2 afirma que:

 

“A idealizadora do projeto e o secretário da Educação da época pensavam anos-luz à frente do seu tempo, propondo a implantação do computador na escola em uma época em que isso parecia utopia.”

Após o curso de formação com a participação da Profª 1, tiveram início as atividades na Escola A. A idealizadora do projeto e o secretário da Educação na época convidaram os diretores de algumas escolas da rede municipal de Campinas para uma palestra sobre a proposta do Eureka. Após a palestra, as escolas foram convidadas, na pessoa de seus diretores, a participar do projeto. A escola que prontamente aceitou o convite foi uma escola de ensino fundamental, a Escola B, segundo relato do Entrevistado 2.

Tendo sido aceito o convite, fazia-se necessária a elaboração do primeiro curso de formação em Logo pelo LEIA[19]. O grupo responsável pela estruturação do curso não possuía nenhum parâmetro ou modelo para estruturar um curso intensivo de 40 horas. Como inovadores que estavam construindo uma metodologia, o grupo se “internou” (termo usado pelo Entrevistado 2) na casa da idealizadora do projeto para estruturar o curso. Um questionamento que dirigia o trabalho da equipe era: “Como estruturar  a filosofia Logo e como passar isso num curso de uma semana, 40 horas”, segundo o Entrevistado 2.

Um aspecto que marcou o início do projeto, no período de 1989-1991, segundo o Entrevistado 2, foi que não havia remuneração: “as pessoas se reuniam por amor ao projeto”. Podemos concluir que as pessoas que dele participavam acreditavam e investiam seu tempo e trabalho no projeto. Um momento que ilustra este aspecto é relatado pelo entrevistado 2:

“Em 92 encerrou-se a primeira gestão, que foi quem iniciou o projeto. Entrou o PTB, então tinha que começar tudo de novo, não em relação aos professores; você tinha que conquistar a administração, uma porque o projeto não era deles – isso eu coloco como um problema de tempo para o projeto. É fundamental a fala da Terezinha e de seus professores, convencendo a secretária e todo o restante, ao ser questionada pela secretária de Educação da época: ‘A  sua escola não tem computador e mesmo assim vocês querem continuar no projeto Eureka?’. O discurso dos professores – lembrando que esse grupo de 90 a 92 estava em formação –, de que não tinha o computador na escola e tinha o Eureka lá, convenceu a continuar o projeto. Por mais que a academia falasse e tudo mais, a paixão desses professores foi fundamental para a secretária da época entender melhor isso, perceber que aquilo tinha uma importância, que ela nem pensava.”

Esse trecho permite que vislumbremos o grupo de professores que participava do projeto no período de 1989 a 1992. Esses professores compreendiam realmente a proposta do projeto e sabiam que a mudança na metodologia teria de ser pensada e estruturada antes mesmo que o computador chegasse à escola.

A partir da experiência do primeiro curso de formação, foi estabelecida a ligação, que destacamos, em relação às trocas entre a universidade e a escola. O projeto desde o início foi coordenado por sua idealizadora, com o auxílio de professores da rede municipal de ensino e alunos da Unicamp. A experiência nas escolas ofereceu um campo fértil para o surgimento de profissionais engajados com o projeto, que compreenderam sua estrutura e proposta, assumindo tarefas de coordenação e formação. Por exemplo, uma professora da Escola B, três da Escola C e um da Escola D fizeram parte da equipe de apoio e de instrutores do projeto nos anos subseqüentes.

No decorrer do período de 1990 a 1993, verificamos a estruturação do Eureka em dois módulos como resultado das trocas constantes entre a coordenação do projeto e os professores participantes. Havia democracia no funcionamento do projeto: todos podiam contribuir, opinando ou discutindo os encaminhamentos assumidos pelo projeto. E da própria rede municipal é que emergiam os profissionais responsáveis pelo projeto. Dessa forma, pretendia-se transferir o know-how da organização do projeto para a rede municipal de ensino.

 Nessa fase, o grupo de professores se reunia com a equipe do projeto uma vez por mês para discutir os caminhos que este deveria seguir. Dessa forma, foram sendo estruturados os módulos intensivo e extensivo, os quais serão definidos a seguir.

No trabalho de Braga, encontramos a seguinte definição do módulo intensivo:

“O módulo intensivo consiste em cursos de duração curta de 40 horas e são ministrados anualmente para os professores interessados em participar do projeto Eureka (iniciação), ou para professores que já estejam trabalhando dentro dessa proposta (cursos de aprofundamento).” (Braga, 1996:62)

O módulo extensivo consistia do grupo de trabalho (GT) com reuniões semanais, que eram realizadas em cada escola pelos professores que faziam parte do projeto, independentemente da classe ou série em que lecionavam. Uma outra parte integrante do módulo extensivo eram as reuniões, denominadas até 1993 como grupos de estudo, que eram encontros de professores de todas as escolas envolvidas para o aprofundamento teórico e prático a partir das trocas de experiências, favorecidas pelos encontros que começaram mensais e passaram a ser semanais. Mensalmente os professores reuniam-se, divididos em grupos por área de atuação.

A partir de 1994, as reuniões mensais do grupo de estudos, com todos os participantes do projeto, transformaram-se em grupos de trabalho por área, que eram reuniões em que os professores do Projeto Eureka trabalhavam divididos em quatro grupos:

·         Dois grupos do ensino fundamental, um de primeira a quarta série e um de quinta a oitava série;

·         Um grupo que se constituía de professores da educação de jovens e adultos/Fumec;

·         Um grupo formado por professores da educação infantil.

Portanto, havia em 1996 duas reuniões para organizar e estruturar o projeto: uma semanal (grupo de trabalho – GT), com os professores nas escolas, e uma mensal, com os professores divididos por área de atuação. Além disso, faziam parte do módulo extensivo seminários anuais com palestras de especialistas convidados e grupos de discussão.

É importante ressaltar que os módulos intensivo e extensivo não objetivavam a especialização em informática, mas pretendiam formar professores que pudessem articular sua experiência docente, sua especialidade curricular e a proposta pretendida no chamado ambiente Logo.

A realização dos seminários internos tinha dupla finalidade, no que diz respeito à formação do professor:

1)      possibilitar a troca de experiências entre professores de diferentes escolas e de diferentes disciplinas;

2)      possibilitar o desenvolvimento do educador, ao permitir que ele organizasse e apresentasse suas reflexões a respeito de sua prática pedagógica.

Esse espaço, que possibilitava a mudança na cultura da escola, ofereceu evidências de como o projeto alterou a prática dos professores.

O módulo extensivo era compreendido por Ripper et al. (1993) como o eixo condutor do projeto:

“O módulo extensivo é o âmago do projeto, e a participação nele que caracterizam o engajamento do educador no projeto. Compreende a gestão do processo de informatização das escolas envolvidas, através de várias atividades desenvolvidas durante o ano letivo. Essa gestão se dá mediante a realização de reuniões mensais da Comissão de Educação e Informática da Secretaria Municipal da Educação, sediada na Prefeitura Municipal de Campinas, da qual participam a coordenadora do projeto, o coordenador da equipe de apoio, os coordenadores do grupo de trabalho das escolas envolvidas e os representantes da Secretaria Municipal da Educação. Essa comissão é encarregada de planejar, deliberar e reavaliar o processo de informatização do ensino público municipal de Campinas.” (Ripper et al., 1993:412)

Portanto, o trabalho nas escolas era organizado pelo grupo de trabalho, que visava organizar o uso do laboratório de educação em informática na escola, assim como o aprofundamento e aperfeiçoamento da filosofia de linguagem computacional Logo, de modo a viabilizar o projeto no cotidiano pedagógico de cada uma das unidades.

A partir de 1992, a Secretaria Municipal da Educação (S.M.E.) resolveu remunerar os professores pela participação em reuniões de projetos e reuniões dos GT’s do Projeto Eureka. O GT de cada escola tinha um coordenador, eleito pelo grupo de professores, havendo como critério o rodízio entre os membros do grupo nessa função, a fim de que todos tivessem a oportunidade de desenvolver habilidades de liderança. O coordenador do grupo deveria dedicar-se 12 horas semanais, remuneradas e fora de seu horário de docência, ao projeto. As funções do coordenador compreendiam: participar da Comissão de Educação e Informática da Secretaria Municipal da Educação; organizar, participar e documentar as reuniões semanais do GT (elaborando as atas); elaborar a sua programação de atividades de acordo com as necessidades do programa, tanto ao nível de sua escola como do cronograma geral do projeto.

A ampliação para outras escolas foi pensada para acontecer de forma progressiva, permitindo aos professores a apropriação da filosofia e a mudança da cultura da escola, processo esse que exige tempo e dedicação. O tempo surgiu como uma entre as quatro categorias no estudo de Braga (1996): política, tempo, formação continuada em serviço e infra-estrutura. Essas categorias deveriam estar integradas e coerentes com o projeto pedagógico da escola e com a implantação da inovação.

Enquanto o projeto ia se estruturando, ganhava instâncias que no início não haviam sido imaginadas. Quanto a este aspecto, o Entrevistado 2 afirmou que, no início, a equipe não tinha idéia dos elementos de cunho burocráticos que seriam decisivos para o projeto, que viriam a ser estruturados a fim de possibilitar uma maior efetividade do mesmo.

Verificamos que, na prática, temos um projeto dividido em duas faces: uma acadêmica, que pretendia implantar a inovação na educação, estruturando uma metodologia e um processo para atingir este objetivo; e outra que diz respeito ao projeto implantado pela prefeitura.

Em relação à implantação da prefeitura, temos duas fases:

1)      fase inicial – em que o Eureka era definido como projeto por estar sendo desenvolvido em um número restrito de escolas;

2)      fase de expansão – em que o Eureka passou a ser definido como programa, por atingir todas as escolas da rede municipal.

Portanto, esta é a resposta para o fato de encontrarmos em alguns documentos “Projeto” (1989-junho/1995) e em outros “Programa” (julho/1995 até 1997). Quando o Eureka passou a ser chamado de programa, o Entrevistado 2 comenta que a coordenação do projeto temia a confusão que poderia acontecer em relação ao termo “programa”, que em informática significa software: havia o risco de as pessoas quererem adquirir o “Programa Eureka” para instalar em seu computador. O entrevistado relatou que essa confusão aconteceu em algumas situações.

A estruturação dos módulos do Eureka aconteceu ao longo do projeto: iniciou-se em 1990, pelos cursos de formação (módulo intensivo) e pelo grupo de trabalho (módulo extensivo). Em 1991, formou-se a equipe de apoio – composta por professores da rede, sendo alguns ex-alunos da Unicamp. Em 1992, foi formada a Comissão de Educação de Informática (CEI), da Secretaria da Educação, que tinha como objetivo resguardar o projeto dos movimentos políticos da prefeitura (mudança de governo a cada quatro anos). A importância de se criar uma estrutura independente do poder político é enfatizada por Papert (1994) ao escrever a respeito da experiência da Costa Rica, que estruturou uma fundação para supervisionar o projeto de informatização das escolas, resguardando-o de sua própria burocracia. A CEI não possuía essa autonomia, era uma comissão assessora do secretário municipal de educação estabelecida por portaria do prefeito. A sua composição incluía a coordenadora do projeto, a equipe de apoio, todos os coordenadores dos grupos de trabalho das escolas,  representantes da S.M.E.[20] e da IMA[21]. Em 1995, com a expansão do projeto, formaram-se o grupo de instrutores e o grupo de monitores. Desses grupos participavam professores que trabalhavam com o projeto desde a fase inicial. Dessa forma, transferia-se o know-how da academia para a rede pública. 

Quanto aos cursos de formação que no início eram ministrados de forma intensiva – 40 horas em uma semana –, ganharam as seguintes instâncias: Iniciação e Cursos de Aperfeiçoamento I, II e III, em que as 40 horas foram distribuídas em seis semanas. Também foram criados eventos para a divulgação de trabalhos: seminários internos (anuais), mostras de trabalhos e oficinas sobre temas específicos.

Podemos afirmar, baseados nesses dados, que realmente o tempo foi decisivo, pois somente com ele o projeto amadureceu e conseguiu criar uma estrutura que conseguisse manter-se de forma organizada e conveniada à prefeitura.

Assim, ao pensarmos o Projeto Eureka como estrutura e funcionamento, poderíamos listar vários aspectos passíveis de serem o foco para avaliação. Entre eles, optamos pela estrutura proposta para o funcionamento do Eureka, que foram os dois módulos: Intensivo, que visava à imersão dos professores na filosofia de trabalho com o ambiente Logo, e  Extensivo, que pretendia ser efetivamente a formação dos professores em serviço com relação à nova metodologia de trabalho. A coordenadora do projeto descreve a articulação que deveria haver entre teoria e prática para o bom desenvolvimento dos cursos:

“O módulo Intensivo caracterizava-se por um mergulho na filosofia e linguagem Logo tanto do ponto de vista teórico como prático. Esse mergulho é realizado através de cursos organizados pelas equipes do Projeto e da Unicamp e ministrados através da Escola de Extensão da Unicamp” (Ripper et al., 1993:412).

Segundo relato oral do Entrevistado 1, o módulo extensivo visava à construção da prática pedagógica, no que se refere à filosofia de trabalho da escola, repensando estruturas e práticas e modificando a cultura da escola.

Esse relato foi construído e será assumido neste trabalho como a “história oficial” do projeto. Todas as análises da história do Eureka serão confrontadas com os dados aqui relatados.

A fim de serem analisados, os dados documentais foram divididos em dois grupos: os planos de trabalhos e proposta do projeto, e as atas dos GT´s das escolas selecionadas. Os planos de trabalho serviram de base para os dois próximos tópicos e as atas forneceram material para o levantamento de temas que se segue.


A proposta do Eureka através dos planos de trabalho 

 

Esta análise inclui o texto “Projeto Eureka”, escrito em 1992 pela idealizadora do projeto. Esses documentos nos auxiliam a definir os módulos propostos como foco para avaliação do Eureka. Acreditamos que esses documentos são o fruto de um processo que integrou a academia e a escola, via professores, através de discussões e debates, como afirma o Entrevistado 2:

“Permite ao leitor verificar no que se transformou o sonho de uma professora que sempre acreditou no trabalho do professor e na prática em sala de aula como cenário para o uso da teoria da academia, comprovando na realidade a efetividade do pensar. É impressionante verificar no que se transformou um conjunto de idéias que, em 1990, não se sabia como seriam organizadas na prática. (...) Começamos o projeto sem moldes ou padrões. Construímos uma metodologia e principalmente uma estratégia para a implantação de inovações no âmbito escolar. Foi um constante repensar e reconstruir; a troca entre a academia e a escola era constante e efetiva.

(...) Nós sabíamos o que queríamos mas não sabíamos como. Tudo foi construído no processo.”

Por isso, analisaremos os planos de trabalho (como eram chamados até 1993), por serem os documentos que mais significativamente demonstram a estruturação do projeto. Focaremos a descrição da estrutura e do funcionamento propostos para o projeto.

Devemos ter cuidado com o termo “objetivo”, para não confundir os objetivos do projeto com os objetivos deste trabalho científico. Popham, citado por Goldberg (1982), afirma que é necessário partir dos objetivos de um projeto para verificar a efetividade do mesmo. Em nosso caso, porém, não partiremos dos objetivos do Eureka; em vez disso, construímos outros objetivos para a avaliação, no caso a compreensão por parte dos professores da estrutura do projeto, dividida em módulos intensivo e extensivo.

Estes módulos devem estar claramente enunciados. Ao escrever sobre a necessidade de clareza,  Popham escreve a respeito de duas tarefas da avaliação. A primeira seria verificar o mérito dos objetivos e definir aqueles que devem ser destacados nas avaliações.

“A primeira espécie [lemos como tarefa para dar sentido à proposta do autor] de avaliação na qual temos que engajar-nos refere-se aos próprios objetivos. Quais são os objetivos realmente dignos de serem perseguidos? Quais valeria a pena atingir? Descobrimos que, para avaliar objetivos educacionais, quanto mais articulados eles estiverem tanto mais racionalmente poderemos decidir quais deles deveriam ou não ser buscados em nossas escolas. Estamos começando a criar condições para que os estudantes, professores, pesquisadores, cidadãos e todos os interessados nas iniciativas educacionais possam apreciar o valor dos objetivos educacionais. Quanto mais claros e precisos forem esses objetivos, tanto melhores poderão ser os julgamentos avaliativos.” (Popham citado por Goldberg, 1982:6)

Com base nessa definição de Popham, citado por Goldberg (1982), definimos como foco os módulos, e não os objetivos descritos nos planos e demais documentos do projeto.

A segunda tarefa da avaliação refere-se à verificação do grau em que os objetivos foram alcançados. Uma vez decididas quais as metas realmente valiosas, cabe ao avaliador discernir se os objetivos foram atingidos graças ao empenho da ação educativa. Visto que os objetivos ocupam lugar central neste enfoque de avaliação, a definição clara e objetiva dos mesmos é fundamental, como escreve Popham citado por Goldberg (1982):

“Mais uma vez constatamos que um objetivo enunciado de modo explícito, em termos de comportamentos observáveis do aluno, permite uma verificação mais rápida.” (Popham in Goldberg, 1982:6)

Quando definimos o foco da avaliação, devemos pensar nos aspectos fundamentais para a realização da avaliação significativa e coerente. Para tanto, Worthen, citado por Golberg (1982), destaca que, em tudo que já foi escrito quanto aos sistemas de avaliação, está implícito que há bons e maus sistemas de avaliação. Portanto, este autor define critérios diversos para habilitar os educadores a distingui-los, ou seja, critérios que podem nortear a nossa avaliação a fim de termos uma avaliação válida. Dentre os componentes básicos que deveriam ser incluídos em qualquer avaliação, o autor propõe:

·         “Clareza conceitual;

·         Caracterização do objeto de avaliação;

·         Reconhecimento e representação das “audiências” legítimas;

·         Sensibilidade aos problemas políticos da avaliação;

·         Especificação das necessidades e fontes de informação;

·         Abrangência;

·         Adequação técnica;

·         Consideração dos custos;

·         Padrões/Critérios explícitos;

·         Julgamentos e/ou recomendações;

·          Relatórios adaptados as ‘audiências’.”

Dessa relação, definiremos os dois primeiros – clareza conceitual e caracterização do objeto de avaliação –, por compreendermos que podem contribuir para a fundamentação deste trabalho:

1)      Clareza conceitual: o autor define como sendo a compreensão da avaliação específica que está sendo proposta por parte do avaliador. A avaliação será formativa ou somativa. Estes dois conceitos fundamentam nosso trabalho, pois, por avaliação formativa, compreende-se o processo que acompanha a estruturação do projeto, permitindo alterações caso sejam necessárias; já no caso da avaliação somativa, temos os resultados de um projeto concluído, com a seqüência de ensino completa.

2)      Caracterização do objeto de avaliação: uma avaliação somente será completa se concluir uma descrição abrangente, porém pormenorizada, do objeto a ser avaliado. Sem este cuidado estaríamos emitindo julgamentos sobre entidades que na realidade jamais existiram. Não se pode avaliar adequadamente o que não se pode descrever com exatidão, alerta-nos Worthen, citado por Goldberg (1982).

Por avaliarmos um projeto já terminado, devemos ser mais prudentes na aplicação de nossos critérios de apreciação, como define Popham (1978):

“Os avaliadores somativos, ao trabalharem com seqüências de ensino já terminadas, devem ser mais prudentes na aplicação de padrões de apreciação. Tipicamente, as decisões de ação seguirão o trabalho do avaliador somativo.” (Popham, 1978:14)

O avaliador somativo é relacionado justamente com memória e documentação, por ser visto como fonte para a busca de informações ou fundamentos para a tomada de decisões futuras relacionadas ao projeto avaliado.

Acreditamos que o plano de trabalho do projeto era a documentação na qual poderiam ser encontradas as informações a respeito dele. Ela era o meio de comunicação formal do Eureka para os professores, participantes ou interessados no projeto, e o meio de divulgação do projeto para a rede municipal de ensino.

Assim sendo, cremos que esse plano deveria ser capaz de fazer qualquer leitor compreender os objetivos do Eureka e os elementos da sua estrutura.

Verificamos na leitura do plano de 1997 sobre o módulo intensivo que ele apresenta uma breve descrição ou citação superficial, que não aprofunda o módulo.

Buscamos, então, os planos anteriores a 1997 – ano que marcou o fim do projeto – para verificar como o módulo intensivo era definido ou descrito. Analisamos os planos de trabalho dos anos de 1993, 1995, 1996, além do de 1997.

Constatamos uma quebra na documentação do projeto em 1994. Recebemos a informação de que o responsável por toda a documentação do projeto teve um sério problema de saúde, mantendo-se afastado naquele ano e retomando a elaboração de documentos do Eureka em 1995.

Na análise dos planos, verificamos que em 1993 há uma estrutura diferente da presente no plano de trabalho de 1997. Em 1993, o plano apresenta um aspecto de projeto acadêmico, com introdução,  justificativa e desenvolvimento. Nesse plano, apresenta-se uma descrição breve do módulo intensivo e uma descrição extensa e profunda do módulo extensivo.

No plano de 1995, novamente encontramos uma descrição sucinta do módulo intensivo e agora também uma descrição sucinta do módulo extensivo. A partir da análise dos quatro planos de trabalho, podemos concluir que o de 1995 traz uma descrição sucinta, objetiva e realmente informativa sobre a estrutura do Eureka.

Em 1997, o plano apresenta a mesma estrutura do de 1996, havendo apenas uma modificação no nome: de Grupo de Trabalho por Nível (1996) para Grupo de Trabalho por Área (1997). Quanto à descrição dos módulos, obedece ao plano de 1995, pois é sucinto quanto ao módulo intensivo, e se assemelha ao de 1996, mais detalhado no que se refere ao módulo extensivo.


Análise da estrutura oficial do Projeto Eureka

A fim de analisar a estrutura oficial, recorremos aos planos de trabalho de 1995 e 1997,  com o auxílio do olhar de Demo (1993), que oferece uma contribuição significativa no que se refere ao processo de avaliação. Para ele, a qualidade educativa é compreendida como o acesso universalizado à formação básica[22], capaz de garantir a todos condições de participar e produzir ativamente conhecimento em sociedade. Essa qualidade educativa precisa dotar-se de qualidade formal e qualidade política.

A partir da leitura e do estudo do trabalho de Demo, entendemos por qualidade formal o acesso ao conhecimento disponível por meio de uma formação adequada. A qualidade política diz respeito ao uso do conhecimento adquirido de forma consciente e cidadã.

Essa definição de qualidade educativa para nós servirá como padrão para nossa avaliação. Avaliaremos como se configura a qualidade educativa do projeto no que se refere à sua estrutura: no módulo intensivo, analisaremos a qualidade formal e, no módulo extensivo, a qualidade política.

Devemos destacar que no módulo extensivo a qualidade formal e a qualidade política se entrelaçavam constantemente, pelo fato de haver momentos em que os professores colocavam em prática os conhecimentos adquiridos, assim como também, em grande parte do trabalho, eles estavam em processo de formação, adquirindo conhecimento.

Utilizaremos recortes dos planos a fim de realizar a análise. A íntegra dos textos encontra-se no volume 2 (anexos).

 

“Programa Eureka – 1995

Programa De Informatização Da Rede Municipal De Ensino De Campinas

Convênio Prefeitura Municipal De Campinas/Unicamp

Comissão De Educação e Informática (Portaria Nº 30244)

 Coordenação: Profa. Dra. Afira Vianna Riper (Unicamp/LEIA)

Introdução

O Programa EUREKA, em andamento desde o início do ano de 1990, foi concebido como uma resposta da Secretaria Municipal de Educação e Informática Aplicada – LEIA da UNICAMP tanto a questão de melhoria de ensino como da inserção de Campinas na área de alta tecnologia. O programa contempla a formação de ambientes computacionais em classes de pré-escola, primeiro grau e educação supletiva de jovens e adultos, instrumentando professor e aluno, a utilizar o computador como uma ferramenta pedagógica poderosa no processo ensino-aprendizagem. Além da instalação de laboratórios com computadores, o programa compreende a formação em serviço dos educadores, sendo estruturado em dois módulos, intensivo e extensivo, que se entrelaçam no tempo, garantindo a formação continuada destes educadores.”

Na introdução do plano de 1995, verificamos um peso político para o projeto, ou seja, ele foi identificado como a resposta da prefeitura ao desejo e à necessidade do ingresso do computador nas escolas.

Ripper (1992), ao analisar a introdução do computador na educação, afirma que, por estar sendo integrado ao dia-a-dia das pessoas, ele inevitavelmente deverá integrar-se à educação. A autora compara esse processo ao vivido pela sociedade na época da revolução industrial:

“A informática já está presente e seu uso é inquestionável em quase todos os ramos das atividades humanas. Do mesmo modo como outrora, com a revolução industrial, as máquinas mecânicas libertaram o homem do esforço físico, hoje as máquinas passam a fazer parte do trabalho intelectual de cálculo, controle e armazenamento de dados. A inserção do computador na atividade científica faz parte da realidade contemporânea. Como um dado de realidade, a tecnologia altera, inevitavelmente, o trabalho e as relações humanas.

A questão que se coloca hoje, portanto, não é mais se o computador deve ou não entrar na escola, uma vez que isto é inevitável, mas como o computador e o conhecimento da informática podem ser incorporados de modo a favorecer o processo de educação e a universalização do conhecimento, em especial o de natureza  científica.” (Ripper, 1992:8)

Concordamos com a autora no que se refere ao processo de inserção do computador na educação, e que caberia ao governo a vontade política de decidir o ritmo desse processo. Demo (1993) assinala que dose crescente de tecnologia se faz presente em  nosso dia-a-dia, precisando ser compreendida e comandada, pois ignorar isso é antimoderno, não porque seja antitecnológico, mas porque agir dessa forma é irreal. Em seu livro de 1997 o autor coloca que, se a educação, analisada por ele no nível da universidade, não se apropriar e dominar a tecnologia ou o conhecimento novo, em breve se tornará sucata e não terá mais atrativo. Ou seja, cabe à educação construir métodos para o uso adequado e consciente de cada uma das tecnologias. Portanto, cabia à prefeitura decidir como seria esse processo, não havendo possibilidade de continuar, como coloca Demo (1997), como uma “múmia paralítica” imóvel e inerte.

A opção da prefeitura enquanto instância governamental decisória foi optar por um projeto elaborado na academia, que pretendia assumir o paradigma “construcionista” na implantação do computador na educação. Construcionismo é um termo cunhado por Papert (1994), cujo significado acrescenta ao construtivismo de Piaget a idéia de que uma construção mental será mais poderosa quando articulada com uma construção de natureza pública, como uma teoria ou uma empresa, um programa computacional ou um artefato, o qual possa ser avaliado pelo outro. Este autor vê o computador como um instrumento capaz de possibilitar atividades de natureza construcionista na educação.

Ao analisarmos o plano de 1997, verificamos que o convênio entre a academia, representada pela Universidade Estadual de Campinas, e a escola pública, pela Prefeitura Municipal de Campinas, representava uma colaboração que recebia o apoio tanto de órgãos municipais quanto de agências federais de fomento. Encontramos em documentos oficiais esta marca do Eureka, como relata o Entrevistado 2:

“O Programa Eureka nasceu como projeto interinstitucional entre a Prefeitura Municipal de Campinas (Secretaria Municipal de Educação) e da Fundação Municipal para Educação Comunitária (FUMEC) e a Unicamp (Laboratório de Educação e Informática Aplicada da Faculdade de Educação, Escola de Extensão – EXTECAMP); ainda recebe o apoio técnico da Informática dos Municípios Associados – IMA (Empresa Municipal de Informática), Secretaria Municipal de Governo (SG/PMC) e financiamento pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (Programa RHAE/CNPq – Recursos Humanos para Áreas Estratégicas – e FINEP).”

Realizamos a análise dos itens presentes no plano de trabalho com base em Worthen, citado por Goldberg (1982), que propõe uma descrição pormenorizada para garantir a clareza quanto à caracterização, pois somente a partir dessa caracterização objetiva e clara é que poderemos analisar os resultados alcançados, sendo estes resultados imaginados ou não – quando se estrutura um projeto educacional, pretende-se atingir uma série de objetivos.

Muitos dos resultados alcançados com o projeto não foram imaginados inicialmente. Portanto, se nos detivermos à verificação apenas dos enunciados iniciais e não buscarmos por todos os resultados do projeto, estaremos cometendo um grave erro, destacado por Demo (1997) quando se refere à falta de memória dos conhecimentos transformados pela universidade, que não são organizados e disponibilizados à comunidade, descumprindo um compromisso fundamental da universidade.

O autor coloca que, se não disponibilizarmos estes conhecimentos estruturados de forma a oferecer soluções ou propostas para problemas que afligem ou dificultam o desenvolvimento de uma grande maioria da população, não estaremos cumprindo o papel social da academia. Concordamos com o autor e acrescentaríamos que, dessa forma, não estaríamos agindo coerentemente com a proposta de produzir conhecimentos para melhorar a condição de vida da população, o que configura uma postura cidadã da academia.

A fim de verificar como se encontram descritos os projetos, buscou-se em diferentes documentos acadêmicos e oficiais como era caracterizado o Eureka, para compararmos os dados colhidos nesses documentos com o relato estruturado a partir das entrevistas, pois, como definimos anteriormente, este relato é assumido, neste trabalho, como histórico do projeto.

Garcia (1995), ao descrever o Projeto Eureka, comete uma imprecisão, devido à falta de documentação e registro histórico a respeito do projeto:

“O Projeto Eureka originou-se em 1992, objetivando a implantação de computadores como instrumento pedagógico nas escolas da rede municipal da cidade de Campinas, e assim investigar os efeitos pedagógicos dessa implantação.” (Garcia, 1995:10)

O Eureka não se originou em 1992, mas teve seu início em 1989, com uma pré-escola. Ao utilizar o termo “originou”, poderíamos dizer que ele teve como contexto o Projeto Educom, mas os dois projetos atendiam níveis diferentes de ensino: o Eureka trabalhava com o 1o grau e o Educom com o ensino médio. O Eureka não pretendia somente investigar os efeitos pedagógicos da implantação do computador como instrumento pedagógico, mas também estruturar um método para que ocorresse a implantação em função do trabalho do professor, acarretando mudanças na prática pedagógica e, por conseqüência, mudando a cultura da escola.

Braga (1996) define:

“O Projeto Eureka é o programa de informatização da Rede Municipal de Ensino de Campinas (SP). Foi idealizado e é coordenado pela Profa. Dra. Afira Vianna Ripper, da Universidade Estadual de Campinas. Tem como objetivo a formação de “ambiente Logo de aprendizagem” em classes de pré–escola, ensino fundamental e supletivo, utilizando o computador como ferramenta educacional[23] e proporcionando a professores, alunos e especialistas da educação a possibilidade de utilizar e transformar esta tecnologia, o microcomputador, num recurso pedagógico poderoso no processo de ensino-aprendizagem.” (Braga, 1996:61)

Nesses textos, encontramos um aspecto que destacaremos: o que causou impacto na educação, no que se refere ao Projeto Eureka, foi o computador. Esse aspecto é destacado por Demo (1993) ao escrever sobre a modernidade, pois, como diz o autor, existia na época a euforia por “conhecer” o computador. Esse aspecto marca o desejo que havia e ainda há na sociedade em dominar essa tecnologia.

Demo (1993) acrescenta que à tecnologia era atribuído o poder de solucionar os problemas educacionais, tais como aulas enfadonhas e práticas pedagógicas que se mantinham imutáveis havia anos. Acreditamos, como o autor, que devem ser tomadas atitudes em relação ao processo de inserção das tecnologias na educação. Acrescentaríamos apenas que devem ser definidas também as formas como será  conduzido o processo, tendo em mente que ele somente pode ser válido se o professor assumir a proposta e integrar-se aos objetivos definidos.

O autor descreve três posturas frente ao processo de inserção da tecnologia na educação: moderno, modernista e modernoso. Tomaremos de empréstimo essa diferenciação, adequando-a ao nosso trabalho:

Modernista: postura constituída pela submissão a tudo que se diz moderno – em nosso caso o computador –, aceitando tudo de forma acrítica e apressada, sem reflexão ou adequação à sua realidade e muito menos repensando a sua prática em função do uso da tecnologia.

Modernoso: postura constituída por comportamentos aparentemente de modernidade, mas que no máximo imitam os comportamentos modernos, banalizando-os e perdendo-os no dia-a-dia.

Moderno: postura que se constitui na capacidade de dialogar com a realidade, inserindo-se nela como sujeito educativo, utilizando-a em seu dia-a-dia consciente de sua função com uma postura cidadã.

Essas posturas refletem o destaque para o computador, que é compreensível, pois estamos analisando o final da década de 1980 e início da década de 1990. Com base no texto anteriormente citado de Ripper (1992), sobre a presença e o uso inevitável do computador na educação, constatamos que realmente a máquina era o foco do processo e o acesso a ela era o objetivo que impulsionava o trabalho dos professores. No texto, a autora escreve que o computador já está presente em quase todas as atividades humanas, a autora compara o processo vivido na época pelo computador com a introdução das máquinas mecânicas pela Revolução Industrial, verificando a necessidade de uma metodologia para a introdução das inovações. Tal como a autora, Demo (1997) e também nós acreditamos que seja necessária a elaboração de um método para a inserção das tecnologias como ferramentas e não como fim em si mesmas.

 A respeito deste aspecto, Demo (1997) afirma que, atualmente, as inovações não podem ser consideradas como fim em si mesmas, devido ao fato de logo se tornarem ultrapassadas e obsoletas, acontecendo constantemente o desenvolvimento de modelos mais rápidos ou modernos. Acreditamos que é justamente por isso que devemos construir um método para a inserção das inovações na educação, coerente com o avanço técnico e capaz de contribuir para o bem comum, independentemente da inovação. Dessa forma ratificamos a compreensão das inovações como ferramentas e não como fim em si mesmas.

Ao ser introduzido como ferramenta, associa-se ao computador a capacidade de alterar as relações entre as pessoas e também entre as pessoas e o conhecimento. Encontramos em Ripper et al. (1993) a seguinte contribuição quanto ao Eureka:

“(...) na medida em que visa à integração vertical e horizontal: a integração entre os alunos, entre os professores e alunos, entre séries e componentes curriculares, através de trabalhos desenvolvidos por diferentes disciplinas de uma mesma série e diferentes classes de uma mesma série – através de temas geradores – integração entre classes; integração entre os professores da escola e da Fundação Municipal para Educação Comunitária (FUMEC), responsável pelo Programa de Alfabetização e Educação Continuada de Jovens e Adultos desta prefeitura, discutindo problemas comuns do projeto, através de reuniões semanais; a busca da autonomia do trabalho do professor e da própria produção de conhecimento dos envolvidos no trabalho pedagógico (professores e alunos). Estes objetivos se concretizam no trabalho com a filosofia e linguagem Logo.” (Ripper et al., 1993:110)

Nesse trecho, o computador é reconhecido como uma inovação capaz de alterar as relações inter e intrapessoais[24]. De acordo com Demo (1997), a implantação consciente das inovações acarreta as mudanças acima descritas, de forma natural[25], sem a necessidade das imposições hierárquicas. Esse autor destaca que os processos decorrentes de imposições não se fortalecem e não se sustentam na constante mudança que vivemos, portanto os projetos dessa envergadura não conseguem se manter. 

Demo (1997) escreve que o conhecimento atualmente exige uma reconstrução constante. Compreendemos que essa reconstrução é tanto do sujeito (aluno/professor) quanto do próprio conhecimento, pois, com o advento da internet, recebemos um número infinito de informações que muitas vezes não sabemos como processar devido à falta de um método de trabalho com essas ferramentas.

A reconstrução atualmente faz parte do processo de ensino-aprendizagem, seja por parte do aluno ou do professor, na relação horizontal (interpessoal) ou vertical (intrapesssoal) do conhecimento. Esses processos exigem as capacidades definidas por Demo (1993), como reciclar-se e formar-se por meio do aprender a aprender.

No que se refere à alteração da relação professor-aluno-conhecimento, devemos buscar um autor que nos auxilie na conceitualização de um termo que já utilizamos e agora definimos “metodologia” de ensino. Compreendemos metodologia como apresenta Geraldi (1994) :

“(...) é o processo de ensino, realizado, compreendido como as mediações concretamente estabelecidas entre aluno, professor e o conhecimento, dentro de uma instituição escolar. Entendo metodologia de ensino apoiada livremente em Fisher (1978), como a construção criativa e idiossincrática que o professor produz ao articular suas visões de mundo, suas opções diante da vida, da história e do cotidiano [seus sonhos e utopias de sociedade, de escola e de trabalho; sua compreensão da situação política e social do país; sua inserção como pertencentes a uma classe  social, nos  movimentos da sociedade civil; seus conhecimentos], ao processo desencadeado nas aulas [que envolve as concepções de conhecimento vivenciadas e de suas condições de produção;  a seleção temática e bibliográfica; as interações constituídas e as produções realizadas pelos alunos; a dinâmica construída nas aulas; os materiais e recursos usados; as relações de poder e controle que permeiam esse ensino; a participação dos alunos e seus grupos na definição e realização das aulas; o processo utilizado para acompanhar e partilhar a aprendizagem dos/com os alunos e o seu trabalho de condução do ensino; as relações que estabelece com os demais componentes curriculares e a proposta curricular ensejada pelo curso; as relações institucionais  de que participa etc.].” (Geraldi, 1994:35)

Como Demo (1997), esta autora associa ao trabalho do professor um cunho político ligado ao conceito de qualidade educativa. Assumimos essa postura acrescentando que as inovações são implantadas ou inseridas em um contexto social, devendo ser adequadas a cada uma das salas de aula do professor. Cada grupo formado pelo professor e seus alunos carrega idéias e ideais de educação próprios a cada indivíduo, de acordo com suas vivências e experiências.

No plano do Eureka do ano de 1997, temos:

“Em 1990 foram realizados os primeiros cursos de Módulo Intensivo e iniciada a implementação de Laboratórios de Informática Educativa (LIEDs) nas Unidades Educacionais da SME, privilegiando-se o “Ambiente Logo como proposta pedagógica, tendo a participação, nesta fase, de três escolas fundamentais  e, como projeto piloto, duas pré-escolas.”

Ao compararmos os dados contidos nesse plano com a cronologia que construímos, verificamos que alguns não são exatos: a Escola A começou em 1989 como piloto, e nessa fase não havia o panorama descrito no plano de duas pré-escolas, pois a segunda pré-escola ingressou no projeto somente em 1993. E, de acordo com o Entrevistado 2, esta segunda pré-escola nunca ocupou o lugar de projeto-piloto. Nas entrevistas foi dito, no que se refere ao projeto-piloto do Eureka, que a Escola A sempre ocupou o lugar de piloto do Projeto Eureka, acrescentando que a segunda pré-escola não utilizou o computador como a Escola A em “cantinho de interesse”, mas como um laboratório à parte.

Questionamos o Entrevistado 2  quanto à definição de projeto-piloto, presente no plano de 1997. Ele expôs que a experiência na segunda pré-escola não pode ser considerada piloto por ter acontecido três anos depois da implantação do projeto, quando muitas estruturas já estavam sendo construídas. Se tivéssemos de definir alguma escola como piloto, concordamos com o Entrevistado 2 de que as escolas A e B ocupariam esse local histórico.

Como afirmamos anteriormente, a expansão do Projeto Eureka deveria ser gradual,  dando tempo aos professores e à própria escola para mudarem a cultura e a relação professor-aluno-conhecimento. Essa implantação gradual pode ser constatada nos objetivos formulados no plano de 1995:

“Os objetivos principais deste Programa consistem em:

·         Criar uma estrutura de apoio abrangendo desde a SME até os educadores na sala de aula que viabilize a introdução de inovação educacional;

·         Estender a aplicação progressiva dos métodos desenvolvidos nas pesquisas e nos projetos-piloto até hoje realizados para um sistema educacional público ampliado;

·         Ampliar a base científica de conhecimentos, com vistas a permitir um planejamento futuro da utilização em ampla escala do computador como ferramenta de ensino, de modo coerente com a cultura brasileira;

·         Possibilitar o uso do computador como ferramenta na elaboração de projetos dentro do currículo do primeiro grau e educação de adultos.

Adicionalmente aos objetivos acima descritos, este programa deverá:

v  Melhorar a qualidade do ensino-aprendizagem, a fim de assegurar não apenas a permanência do aluno na escola, mas também o retorno daqueles que abandonaram;

v  Criar uma maior motivação profissional para professores, administradores e orientadores do ensino público;

v  Organizar as atividades do Programa em módulos – intensivo e extensivo – a fim de possibilitar a formação continuada dos educadores;

v  Desenvolver metodologia de ensino integrando atividades de sala de aula e do laboratório de informática, que possa ser estendida a outros sistemas escolares;

v  Criar condições para informatizar toda a rede escolar municipal de Campinas, introduzindo o computador como ferramenta didática. Em cada escola da rede municipal participante do programa deve haver uma sala com microcomputadores que será utilizada alternadamente pelas diversas turmas;

v  Habilitar os profissionais de educação a utilizarem a informática como instrumento pedagógico através de formação em serviço;

v  Aumentar a massa crítica de pesquisadores e outros profissionais na Área envolvendo no projeto alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado;

v  Utilizar a escola como um centro de irradiação de educação e cultura, incluindo a informática para a comunidade, como centros de informática comunitários para usos em projetos ligados à população do bairro, como por exemplo clubes de ciência, ensino supletivo, etc.;

v  Utilizar a UNICAMP (em particular o laboratório de educação e Informática Aplicada – LEIA da Faculdade de Educação) como centro de geração de tecnologia educacional, formação de professores e apoio geral ao programa.”

Ao analisarmos os planos do projeto, verificamos que os objetivos permanecem coerentes, pois desde os primeiros documentos até o último plano, em 1997, encontramos a mesma definição.

Nossa avaliação pretende verificar a apropriação por parte dos professores da estrutura do projeto – os módulos intensivo e extensivo, portanto buscamos nos planos a sua definição. O plano de 1995, ao descrever a organização dos módulos, enfatiza o objetivo do  projeto de promover a formação continuada em serviço dos educadores para o uso do computador como instrumento pedagógico, como podemos constatar na  descrição a seguir:

“A organização em dois módulos, intensivo e extensivo, visa dar uma formação continuada ao educador, através de cursos de formação e uma estrutura de apoio em seu local de trabalho e na SME.”

Quanto ao módulo intensivo, encontramos nos planos de 1995 e 1997 um crescente enxugamento em sua descrição:

“1995: Módulo Intensivo – Compreende cursos intensivos de formação sobre a linguagem e filosofia Logo, organizados pela Equipe de Apoio e ministrados pela Escola de Extensão da UNICAMP.

Atualmente, os cursos em tempo integral de 40 horas são desenvolvidos em três níveis:

Logo no Ambiente da Escola de Primeiro Grau I

Logo no Ambiente da Escola de Primeiro Grau II

Logo no Ambiente da Escola de Primeiro Grau III”

No plano de 1997, encontramos:

“Módulo Intensivo: Cursos de capacitação com carga horária de 45 h/a: O computador como instrumento pedagógico (I e II)”

Verificamos, ao analisar essas descrições, que o enxugamento pode ser explicado pela crescente burocratização do projeto, a qual produz um texto voltado mais a informações factuais sobre o módulo. Outro aspecto a se notar é a mudança do nome dos cursos: em 1995, eles referem-se explicitamente à linguagem Logo, como vinha ocorrendo desde o início do projeto; em 1997, mudam para um uso mais geral do computador na escola. Essa mudança coincide com o aparecimento de outros programas computacionais que podem ser usados dentro de uma abordagem construcionista (Papert, 1994), como processadores de texto e planilhas mais amigáveis ao usuário.      

Outra constatação em relação ao módulo intensivo é que a sua descrição foi superficial, o que pode acarretar limitações à avaliação, como salienta Popham (citado por Goldberg, 1982), dificultando, a nosso ver, a verificação dos resultados atingidos:“Quanto mais claros e precisos forem esses objetivos [leia-se como objetivos: os módulos intensivo e extensivo], tanto melhores poderão ser os julgamentos avaliativos” (Popham citado por Goldberg, 1982: 6).

 Popham (1983) ainda enfatiza outro problema encontrado na descrição de planos educacionais: o modo muito geral de explicitar os objetivos ou metas:

“Os educadores têm sempre louvado as metas. Afinal, como poderia qualquer plano racional de ensino ser planejado se não se soubesse o que deveria ser alcançado? Mas, os tipos de metas empregados tipicamente pelos educadores, até muito recentemente, eram articulados de maneira demasiado geral para permitirem que se inferisse com qualquer grau de confiança exatamente o que as metas significavam de fato. Por exemplo, estantes e gavetas de arquivo das bibliotecas de currículo em todo o país poderiam ser vasculhadas para descobrir grande número de objetivos formulados como os que seguem:

Os estudantes deveriam tornar-se  melhores cidadãos.

Os alunos desenvolverão sua compreensão do mundo quantitativo.

A criança aprenderá a apreciar a boa literatura.

Ora, obviamente é difícil dizer quando a criança está apreciando a boa literatura. Embora possamos distinguir quando uma criança põe molho num hambúrguer, em vez de colocar mostarda nele, a averiguação da apreciação da literatura é bem mais ardilosa. [No texto original, o autor faz um trocadilho com a palavra relish, que em inglês significa tanto “molho” quanto “apreciar”. Esse trecho foi colocado no livro como nota de rodapé, mas optamos por colocá-lo no corpo da citação para dar sentido ao trecho]. Aí está o defeito proeminente de metas e objetivos vagamente enunciados: não se pode dizer quando foram atingidos.

Além de apresentar seus objetivos muito vagamente, alguns educadores também os enunciavam em termos de conteúdo a ser tratado.” (Popham, 1983:63)

Neste trabalho, interpretamos desse texto de Popham (1983) que os módulos intensivo e extensivo deveriam estar claramente definidos, para favorecer a verificação dos resultados dos mesmos no processo de implantação do projeto, constatando as evidências da qualidade educativa do projeto, pois eles serão os medidores da qualidade.

No que se refere ao módulo extensivo, temos no plano de 1995:

“É o âmago do programa, compreende a organização de atividades de suporte ao trabalho do educador no laboratório de informática e na sala de aula, visando a integração do computador como ferramenta de aprendizagem às práticas pedagógicas. É a participação nele que caracteriza o engajamento do educador no programa.”

Verificamos nessa definição do módulo extensivo objetivos muito vagos, o que, segundo Popham, não possibilitam uma avaliação mais precisa.   

O módulo extensivo compreende, segundo o plano de 1995, várias atividades destinadas a dar suporte ao trabalho do professor:

“Grupo de Trabalho (GT)

Em cada Unidade Educacional, todos os educadores participantes do Programa Eureka se reúnem semanalmente, fora da jornada docente, para organizar os aspectos administrativos e pedagógicos a fim de viabilizar o desenvolvimento do programa no cotidiano da U.E. Cabe ao GT organizar o uso do laboratório de informática educativa na escola, estabelecendo regras comuns. Cabe também ao GT a preparação e operacionalização de encontros interdisciplinares, feiras, exposições internas e externas. Cada GT é coordenado por um de seus membros, escolhido pelo grupo, com mandato de um ano letivo, podendo ser reeleito. O rodízio da coordenação possibilita o desenvolvimento de lideranças internas, contribuindo para a formação dos educadores.

Grupo de Trabalho por Área (GTA)

São reuniões mensais com o objetivo de aprofundar a  discussão  teórica do uso do computador como instrumento pedagógico e viabilizar a troca de experiência entre os educadores participantes do Programa Eureka. Atualmente, essas reuniões se organizam em grupos temáticos: pré-escola, 1ª à 4ª série, 5ª à 8ª série e FUMEC . A Equipe de Apoio é responsável  pela organização e coordenação do GTA.

Oficinas

Serão oferecidas mensalmente oficinas de Linguagem Logo, a fim de aprofundar o domínio da Linguagem pelo educador e assessorá-lo nas questões surgidas no trabalho com os alunos. Serão ministradas por especialistas da área de informática educativa.”

Esse processo é constatado no plano de 1997, no qual temos novamente uma descrição detalhada do módulo, apresentado a seguir:

“Módulo extensivo:

GT – Grupo de trabalho:

Este grupo era o âmago do Programa, sendo a participação no GT  que caracterizava o engajamento do educador no mesmo. O GT era responsável pela organização dos aspectos administrativos e pedagógicos na viabilização do desenvolvimento do programa no cotidiano da U. E., através de reuniões semanais fora da jornada docente, na Unidade Educacional, entre o monitor e os professores integrantes do Programa. Cabe ao GT organizar o uso do Laboratório de Informática Educativa da escola, estabelecendo regras comuns (em conformidade com a Portaria 58/96 da SME/PMC, publicada no DOM/Campinas em 08/11/96 – pp. 12-13); preparar e operacionalizar encontros interdisciplinares, feiras, exposições internas e externas, ou qualquer outro evento que envolva a participação dos professores do GT.”

Constatamos, nos trechos em destaque, que houve uma coerência entre os planos do projeto, da mesma forma como ocorreu em relação aos objetivos, ou seja, a descrição manteve-se fundamentalmente a mesma, destacando este módulo como o âmago do projeto. Cremos que o destaque e detalhamento do módulo extensivo sejam decorrentes justamente desse fato.

No plano de 1995, mesmo havendo uma descrição sucinta do módulo extensivo, verificamos que toda a estrutura de funcionamento pensada, para o módulo extensivo encontrava-se descrita, permitindo ao leitor compreender o módulo extensivo completo, incluindo o grupo de trabalho dos professores por escola e o grupo de trabalho por área. Sabemos por meio das entrevistas que o plano de 1997 tornou-se um documento que conteria o cronograma do projeto, com todas as atividades descritas e agendadas. Constatamos, dessa forma, que a institucionalização gradativa do projeto gerou a sua burocratização, fazendo com que o plano perdesse a concepção educacional que o fundamentava. Na entrevista 2, encontramos:

“Não havia condições de continuarmos com a estrutura próxima da época em que trabalhávamos com cinco escolas. Para não perder o histórico e poder acompanhar o processo de implantação em cada escola, o projeto realmente burocratizou-se”.

Esta análise pretende mostrar que o projeto sofreu um processo de burocratização decorrente da institucionalização na prefeitura, pois, como foi colocado no relato do projeto, ele vivenciou dois momentos: no primeiro, era um projeto implantado em um número limitado de escolas, preservando sua identidade acadêmica; no segundo momento, em função da expansão para toda a rede municipal, sofreu uma institucionalização pela prefeitura, tornando-se um programa.

Portanto, com a leitura dos planos de trabalho não foi possível ter uma visão mais aprofundada dos módulos, pois, conforme constatamos, a descrição do módulo intensivo nos planos foi sucinta e superficial. Baseados em Popham (1993), podemos concluir que houve destaque ao conteúdo e não à descrição ou caracterização do processo. Dessa forma, dificulta-se a compreensão do objetivo do módulo por parte do leitor.

Pelo fato de encontrarmos os módulos descritos superficialmente nos documentos analisados, buscamos em outro texto uma definição objetiva e clara para cada um dos módulos, para permitir o acesso do leitor a essa descrição. Recorremos ao texto “Apoio à aquisição do conhecimento: módulo intensivo”, presente no trabalho de Ripper (1992), que consideramos elucidativo para a compreensão dos módulos a partir da filosofia que os estruturou, assim como seus objetivos.

            O Módulo Intensivo caracterizou-se por um mergulho na filosofia e linguagem Logo tanto do ponto de vista teórico como prático. Esse mergulho é realizado através de cursos intensivos organizados pela equipe do Programa e Escola de Extensão da UNICAMP. Os cursos, de curta duração, foram realizados anualmente para os professores interessados em ingressar no projeto (Iniciação) ou professores já engajados (Aprofundamento I e II). Outro objetivo foi a formação de um núcleo disseminador do programa, formado por professores mais identificados, tanto com a filosofia do programa como com a programação Logo, para serem os principais agentes formadores dos educadores nos cursos, cabendo à equipe da UNICAMP o papel de assessoria e avaliação.

Em todos os cursos o trabalho foi desenvolvido entrelaçando teoria e prática, num processo descrito por Ackerman (1992) como ‘hands on and heads in’, ou seja, a atividade no/com o computador ficará sem sentido sem a reflexão sobre o que se está fazendo. Sem um afastamento para refletir e poder voltar com um novo patamar de compreensão da atividade/projeto que se está desenvolvendo [grifo nosso]. A compreensão/experiência do seu próprio modo de aprender os objetivos do conhecimento é tematizada pelo grupo, o que proporciona novos ‘insights’ sobre o modo de aprender de seus alunos. ‘O lado afetivo-pedagógico do professor é trabalhado desde o curso de Iniciação, onde se criam conflitos que o fazem refletir não apenas sobre sua prática docente como sua própria atitude enquanto aprendiz.’ (Braga, 1994:9).” (Ripper, 1993:72-73)

Segundo Ripper (1996), a estrutura do Eureka visava contornar os problemas encontrados na implantação de projetos pedagógicos inovadores:

“Esses cursos procuraram cuidar de uma das principais falhas observadas em outros programas de informática educativa, ou seja, a falta de formação adequada dos profissionais que vão atuar na sala de aula como salienta Linard (1990). Em todos os cursos é enfatizada a análise dos projetos já desenvolvidos nas escolas e formulação de novas propostas, a fim de que os educadores participem de forma ativa no desenvolvimento da metodologia.

A formação em serviço dos profissionais da Educação envolve não apenas os professores, mas também os orientadores pedagógicos e diretores de escola, a fim de garantir o suporte da escola como um todo ao projeto. Os pais também foram envolvidos através de reuniões e mostras anuais dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos.” (Ripper, 1996:74)

Nesse trecho, a autora fundamenta a estrutura de dois módulos. Acreditamos que esta  proposta de formação continuada em serviço para os professores seja a forma mais adequada para se introduzir uma inovação na educação. Demo (1997) coloca que a introdução da inovação deve ocorrer via professor, propiciando a ele uma oportunidade de inovar-se, mudando a sua postura e prática pedagógica.

A autora acrescenta que a formação não se restringe ao professor em sala de aula, mas também a diretores, coordenadores e orientadores pedagógicos, criando um ambiente diferenciado de aprendizagem em diferentes instâncias escolares. Além de atingir essas diferentes instâncias, atinge a própria academia no que se refere à formação de pesquisadores, possibilitando, a partir desses profissionais, expandir a metodologia que era estruturada com a implantação do projeto. Verificamos, nesse sentido, o que Demo afirma quanto ao retorno para comunidade de conhecimentos reestruturados na academia.

“A formação de recursos humanos incluía também pesquisadores e outros profissionais na área, como alunos de doutorado, mestrado, iniciação científica e de estagiários de outras instituições. Além de fortalecer a equipe, estes profissionais ao retornarem e/ou serem contratados por outras instituições, irão colaborar para a difusão das metodologias desenvolvidas.” (Ripper, 1996:65)

Quando a autora define o módulo intensivo como apoio à aquisição do conhecimento, verificamos o caráter da qualidade formal do projeto, primando pela formação consciente e coerente com uma postura cidadã, como coloca Demo (1993). Porque, ao definir a qualidade formal, o autor escreve que ela constitui-se de toda estrutura que permita o acesso a um conhecimento moderno, por meio da formação em cursos para o aprendizado do trabalho com a tecnologia, firmando um compromisso de utilizar o conhecimento adquirido, implantando-o na sociedade como bem comum a todos.

Ao definir o módulo extensivo, a autora afirma:

“Apoio ao trabalho cotidiano: Módulo Extensivo        

O módulo extensivo compreendia a formação, em cada escola participante, do Programa de grupo de trabalho (GT), constituído pelos educadores da escola envolvidos no programa. A inclusão do Programa no Plano Pedagógico dessas escolas formalizaria o compromisso de envolvimento das mesmas. O Módulo Extensivo é o âmago do Programa, é a participação nele que caracterizaria o engajamento do educador no Programa. Os critérios para a participação dos professores no programa foram:

– Participar dos cursos do Módulo Intensivo.

Após ter realizado o módulo intensivo, estar participando efetivamente, ou seja, trabalhar com seus alunos no laboratório de educação e informática da sua escola, dentro do cotidiano curricular da sua classe/série.

– Participar do Grupo de Trabalho e do Grupo de Estudos (módulo extensivo).

As atividades em cada escola são organizadas pelo Grupo de Trabalho, integrado pelos educadores engajados no programa. As reuniões semanais foram marcadas para um horário fora do horário de docência do professor, sendo  remuneradas. Esses grupos visavam organizar o uso do laboratório de educação e informática da escola, assim como o aprofundamento e aperfeiçoamento da filosofia e linguagem computacional LOGO, de modo a viabilizar o projeto no cotidiano pedagógico de cada uma das unidades educacionais (UE´s).

(...) O grupo de estudos tinha o objetivo de viabilizar a troca de experiências entre as escolas. Palestras ou oficinas de caráter mais abrangente foram desenvolvidas em reuniões mensais, visando o aprofundamento pedagógico entre todos os professores e especialistas envolvidos neste Programa. É importante destacar que esta formação não tinha como objetivo primeiro formar professores de Informática, mas ao contrário, formar professores que pudessem articular sua experiência docente, sua especialidade curricular e a metodologia Logo. A realização de seminários internos tinha a dupla finalidade de possibilitar a troca de experiências e o próprio desenvolvimento do educador ao colocar suas observações/reflexões no papel e apresentá-las oralmente.” (Ripper, 1996:74-76)

Nesse trecho, a autora descreve o módulo extensivo como apoio ao trabalho do professor, constituindo o acompanhamento à implantação do projeto na escola via atuação do professor. Portanto, constitui a qualidade política do projeto ao enfocar a aplicação dos conhecimentos adquiridos no módulo intensivo.

Destacamos o enfoque dado para o papel do professor, considerado um dos alicerces do Projeto Eureka, pois, quanto maior o engajamento do e no projeto, mais o professor poderia caracterizar a qualidade educativa do projeto. No módulo extensivo, verificamos dois aspectos: 1) o da formação continuada, caracterizada pelos seminários, oficinas e exposições, pois nessas ocasiões o conhecimento sofria um processo de reestruturação, como escreve Demo (1997) – quando o professor estrutura o conhecimento adquirido e compartilha com outras pessoas o conhecimento, sofre uma reestruturação a partir dos questionamentos que poderão acontecer, assim como também do próprio processo de exposição. 2) a aplicação do conhecimento adquirido no dia-a-dia. Portanto, vemos no módulo extensivo tanto a qualidade formal, descrita no item 1, quanto a política, descrita no item 2. Dessa forma, encontramos a lógica para o discurso da idealizadora do projeto de que os módulos se entrelaçam todo o tempo no decorrer do projeto.

O ambiente Logo constitui-se, então, como um espaço para troca de experiências e de saberes entre os professores, fazendo com que eles ocupassem o lugar de aprendizes e de mestres. Nóvoa (1992) escreve sobre esse tema definindo os papéis que podem ser ocupados pelo professor, de formador e formado:

“A troca de experiências e a partilha de saberes consolidam espaços de formação mútua, nos quais cada professor é chamado a desempenhar, simultaneamente, o papel de formador e de formado.” (Nóvoa, 1992:26)

Quanto à definição de Nóvoa (1992), cremos ser conveniente alterar o termo formado por formando, pois no primeiro temos a idéia de finalização, ou seja, o professor é formado e posteriormente forma. Em nossa análise, tanto o professor quanto o aluno estão em constante formação, havendo trocas significativas entre professores, definida por Garcia (1995) como relações simétricas, e entre professor e aluno como relações assimétricas.

Analisaremos neste trabalho as trocas de experiências entre professores, compreendidas por Garcia (1995) como relações simétricas:

“Esse diálogo entre os professores se estabelece e adquire verdadeiro significado quando inserido em um grupo coletivo, onde os parceiros[26] se encontram para discutir, refletir, planejar e redirecionar a sua prática em sala de aula, com base em seus objetivos (...)” (Garcia, 1995:93)

Outro elemento do plano de 1995 que será destacado neste trabalho é a estrutura de apoio. Essa instância foi criada justamente ao se estruturar o módulo intensivo e o módulo extensivo. De acordo com os entrevistados, pretendia-se acompanhar o trabalho dos professores nos grupos de trabalho de maneira “constante e próxima”, dentro do universo de duas a cinco escolas que estavam integradas ao projeto no período de 1990 a 1995: “era relativamente simples acompanhar os grupos e dar um atendimento mais individualizado” (Entrevistado 1).

Ripper (1996) escreve quanto à essa estrutura:

“Estrutura de Apoio

A gestão do processo de introdução do computador como instrumento pedagógico é realizada por meio de uma infra-estrutura organizacional e política dentro da SME.

Comissão de Educação e Informática (CEI)

Estabelecida por portaria do Prefeito, essa Comissão é encarregada de planejar, deliberar e avaliar o processo de informatização do ensino público municipal de Campinas. Participam da Comissão a coordenadora do Programa, presidente da Comissão, a Equipe de Apoio, os coordenadores dos GTs (monitores) e representantes da SME, FUMEC e IMA que se reúnem mensalmente.

Equipe de Apoio

Concebida para assessorar os GTs no uso do computador como instrumento pedagógico, a Equipe de Apoio sendo responsável pela organização do GTA e Oficinas. É encarregada também da coordenação administrativa do Programa, integrando a Coordenadoria de Projetos e Programas Especiais da SME.

A equipe de Apoio é composta por docentes da Rede Municipal de Ensino de Campinas e da FUMEC.”

É importante destacar que a autora considera a Comissão de Informática, criada em 1992, como estrutura de apoio. Podemos compreender essa postura da autora ao pensarmos no que Papert (1995) afirma sobre a fundação criada na Costa Rica, que tinha como objetivo resguardar o programa de informatização da burocratização e das mudanças políticas governamentais.

Ao pensarmos nas mudanças políticas na prefeitura de Campinas, vemos que, a priori, haveria mudanças no panorama político, como definiu Braga (1996) em seu trabalho. Dessa forma, o fator tempo foi marcante para o processo de implantação do projeto, pois a cada quatro anos, em decorrência das mudanças políticas, poderiam ocorrer alterações em relação ao projeto e a seu espaço dentro da prefeitura.

A estrutura de apoio era constituída por profissionais engajados no projeto e que se encontravam como professores da rede municipal de ensino. Ao ingressar na equipe de apoio, os professores recebiam uma licença para dedicar-se inteiramente ao projeto (Entrevistado 2).

Na entrevista 1 foi colocado que “a equipe de apoio visava realmente apoiar o trabalho dos professores, oferecendo-lhes respaldo em seu trabalho pedagógico”. A  Unicamp sempre desempenhou esse papel, como verificamos nos trechos a seguir:

“O suporte teórico e metodológico para o desenvolvimento do programa é proporcionado pela UNICAMP através de seus laboratórios e núcleos de pesquisa na área de informática na educação (LEIA e NIED).”

“A IMA (Informática de Município Associados S/A – Campinas), empresa municipal, veio dando apoio ao programa, através de compra e manutenção do equipamento.”

A Unicamp já trazia uma experiência significativa na área de informática educativa como escreve Ripper et al. (1993):

“A experiência da Unicamp na área de Informática na Educação vem de longa data através do Núcleo Interdisciplinar de Informática Aplicada à Educação (NIED) e do Laboratório de Educação e Informática aplicada (LEIA), proporcionando suporte teórico e metodológico para o desenvolvimento do projeto.” (Ripper et al., 1993:409)

Já analisamos a formação oferecida pelo projeto, a implantação na escola, a estrutura de apoio elaborada para oferecer respaldo técnico-metodológico e político. Portanto, deveremos incluir as condições para participação e permanência dos professores no projeto. Como analisa Demo (1997), para a mudança de postura do professore e a reelaboração do conhecimento, há condições imprescindíveis na construção de uma nova metodologia de trabalho com a inovação.

“Condições para participação

No estágio atual do programa,  será privilegiada a participação de professores efetivos, a fim de assegurar a sua continuidade nas escolas envolvidas. Quando o programa estiver implantado nas demais escolas de primeiro grau, essa condição será desnecessária.

Ao longo do ano letivo, a participação do educador nas atividades dos módulos intensivos e extensivos é condição fundamental para sua permanência no programa:

   Módulo intensivo: cursos.

   Módulo extensivo: GT  (3 reuniões mensais)

                                 GTA (1 reunião mensal)

A freqüência mínima para a permanência no programa é de:

80% de presença para GT

80% de presença para GTA

OBS.: Serão dispensados das oficinas e GTA dos sábados apenas os professores que freqüentem cursos regulares neste período, implicando na não emissão dos certificados destes eventos.”

Constatamos que uma das condições para a participação no projeto era o professor ser efetivo na escola, pois, como destaca o Entrevistado 2:

“A dança das cadeiras nas escolas afetava o encaminhamento do projeto. Ao realizar o trabalho de imersão de um grupo de professores de uma determinada escola, nada garantia que este grupo se mantivesse o mesmo no ano seguinte, havendo uma quebra no trabalho e exigindo a retomada de todo o processo.”

Conforme a proposta do projeto de formação continuada em serviço, verificamos a necessidade da participação dos professores dos cursos de formação e dos eventos organizados para a divulgação e aprofundamento teórico-prático. A qualidade educativa realmente resultaria do entrelaçamento dos módulos intensivo e extensivo.

O plano de 1995 traz descrita de forma objetiva a dedicação ao programa, definida como parte integrante das funções do professor participante do projeto, que passou, inclusive, a ser remunerada: os professores passaram a receber pelas horas de participação nas reuniões e cursos do projeto.

“Dedicação ao Programa

O professor participante dedica ao programa 3h/a remuneradas, fora de sua carga docente para participação nas reuniões do GT e GTA.

O professor-monitor dedica ao programa 12h/a remuneradas, fora da sua carga docente para a preparação e organização do GT, participação das reuniões da CEI, GM, GT GTA e para contatos com a equipe de Apoio.

O professor membro da Equipe de Apoio presta assessoria em tempo integral ao Programa.

A coordenadora geral do Programa dedica 8hs semanais, cedidas pela UNICAMP, para assessorar a SME e presidir a Comissão de Educação e informática.

Certificados

Serão emitidos certificados pela Escola de Extensão da UNICAMP para os cursos do Módulo Intensivo e pela SME para as atividades do Módulo Extensivo (GT, GTA e Oficinas). A freqüência mínima necessária para obtenção de certificado é de 90%.”

No plano do projeto, era necessário estarem definidas as funções de cada participante. Nas palavras do Entrevistado 1, “era necessário para cada professor saber as suas funções e dos demais também”. Dessa forma, como coloca Popham (1983), a clareza e objetividade permitem a avaliação mais clara e objetiva dos resultados do projeto.

“Funções

A operacionalização do Programa se dá por meio do desempenho de funções diferenciadas por seus agentes:

Professor

Além do trabalho com o aluno no laboratório de informática dentro de sua jornada docente é de responsabilidade do professor dispor de horários extrajornada para participação nas atividades de formação previstas pelo programa: GT, GTA e Oficinas de Linguagem, Oficina Especial de Informática, Seminário e Cursos do Módulo Intensivo.

Monitor

Além das responsabilidades previstas para os professores, ao professor-monitor cabe:

v  Organizar, participar e documentar por meio de atas as reuniões semanais do GT. Deve registrar a freqüência dos membros do GT. Entregar essa documentação à equipe de Apoio no último dia de cada mês;

v  Participar das reuniões quinzenais do grupo de monitores (GM);

v  Participar das reuniões mensais da Comissão de Educação e informática da SME, e informar ao seu GT as decisões e encaminhamentos tomados;

v  Encaminhar à secretaria da escola a lista de presença das reuniões do grupo de trabalho, constando nome e carga horária dos professores participantes, para que seja solicitado o pagamento no livro ponto;

v  Encaminhar ao coordenador de unidade da FUMEC a lista de presença dos professores da FUMEC, para que este envie esta lista à divisão Administrativa da FUMEC, para que seja solicitado o pagamento dos professores da FUMEC.

v  Coordenar a elaboração do cronograma de atividades de seu GT, com supervisão da direção da escola, atendendo tanto as necessidades da escola quanto as da SME/FUMEC.

Equipe de Apoio

v  A Equipe de Apoio é responsável pelas ações administrativas e pedagógicas do Programa Eureka:

v  Participar das reuniões da Coordenadoria de projetos e Programas Especiais da SME;

v  Secretariar e documentar as reuniões mensais da Comissão de Educação e Informática da SME;

v  Executar as tarefas administrativo-burocráticas inerentes à operacionalização do Programa:

v  Coordenar as reuniões dos GTAs e GM;

v  Planejar e operacionalizar Oficinas e Seminários;

v  Participar do planejamento e execução dos cursos do Módulo Intensivo;

v  Participar da elaboração do Plano Anual do programa;

v  Participar do processo de avaliação anual do programa;

v  Assessorar os GTs no uso do computador como instrumento pedagógico;

v  Participar da elaboração do Cronograma Anual de Atividades;

v  Organizar a participação do programa em eventos externos.

Coordenação Geral do Programa

A coordenação geral do programa é responsável pela formulação e avaliação do programa:

v  Assessorar a SME na formulação das políticas de implementação do Programa Eureka, inclusive a busca de financiamento externo;

v  Dar suporte teórico e metodológico para o uso do computador como instrumento pedagógico;

v  Presidir a Comissão de Educação e informática da SME;

v  Coordenar a elaboração do Plano Anual do programa;

v  Coordenar o planejamento e execução dos cursos do Módulo Intensivo;

v  Coordenar as ações da Equipe de Apoio;

v  Coordenar a avaliação do impacto do programa na melhoria da qualidade de ensino;

v  Coordenar a elaboração do Cronograma Anual de Atividades;

v  Organizar a participação em eventos externos.”

A escola também encontra-se representada no plano a partir de suas responsabilidades, não havendo a possibilidade de a mesma não assumi-las ou deixar de responder pelo funcionamento adequado dos LIED’s. O aspecto infra-estrutura será analisado e explorado na parte referente à análise das atas dos grupos de trabalho dos professores.

“Responsabilidade da escola

É de responsabilidade das escolas participantes do Programa Eureka cuidar da conservação do laboratório e do equipamento nele contido através das seguintes ações:

v  Ambientação da sala:

Ø  Cuidar para que a sala do laboratório mantenha temperatura baixa, protegendo o equipamento do Sol com cortinas ou persianas externas;

Ø  Conservação do Equipamento:

Ø  Manter limpo o laboratório, diariamente, livre de poeira;

Ø  Manter limpas as máquinas, também livres de poeira;

Ø  Providenciar aspirador para limpeza periódica dos teclados.

v  Conservação da rede elétrica.

Ø Manter sempre em ordem as tomadas, tomando um cuidado especial com aquelas que se apresentarem soltas ou sem espelho;

Ø Providenciar o aterramento para o equipamento que o necessite (quando o equipamento estiver fora de laboratório).


O Projeto Eureka na prática dos professores

Nesta parte do trabalho, realizamos uma análise de conteúdo com base no trabalho de Krippendorf (1980), que define a análise de conteúdo como “uma técnica de pesquisa para fazer inferências válidas e replicáveis dos dados para o seu contexto” (Krippendorff, 1980:21). Segundo Lüdke & André (1986), este autor procura explicar sua definição dizendo que a análise de conteúdo pode ser caracterizada como um método de investigação do conteúdo simbólico das mensagens, sendo que as mensagens podem ser abordadas de diferentes formas e sob inúmeros ângulos. Foi justamente esse aspecto que nos fez optar por este tipo de análise: faremos inferências válidas que poderão ser replicáveis sobre os dados em diferentes contextos.

Segundo o autor, pode haver variações nas unidades de análise, tomando-se como unidade a palavra, o parágrafo, a sentença ou o texto todo. Alguns analistas preferem a contagem de palavras ou expressões, enquanto outros – entre os quais nos incluímos – optam por fazer análises temáticas. Da análise temática inicial resulta a construção de categorias para a análise da qualidade educativa do projeto.

Kripperdorff (1980) afirma que o analista opta pelo enfoque interpretativo que estiver de acordo com o objetivo do trabalho. A necessidade de consenso entre os pesquisadores sobre o conteúdo do material analisado é outro ponto importante a se observar. Mas entendemos que a concordância só deva ocorrer para os aspectos mais óbvios da comunicação ou quando há pontos de vista culturais e sociopolíticos similares entre os pesquisadores-analistas, pois a diversidade de pontos de vista e de enfoques parece contribuir mais para aumentar o conhecimento sobre algo do que para limitá-lo. Segundo Lüdke & André (1986):

“A exigência de consenso parece, pois, muito mais uma exigência do formalismo analítico característico dos esquemas clássicos de pesquisa do que da necessidade do ato de conhecer.” (Lüdke & André, 1986:41)

As autoras levantam ainda a questão de que o consenso fundamental anteriormente definido para a análise de conteúdo não é necessário para uma análise de conteúdo com enfoque qualitativo. Portanto, neste trabalho definimos que a análise de conteúdo que realizamos tem como enfoque uma abordagem qualitativa.

Krippendorff (1980) enfatiza o fato de as mensagens transmitirem experiências vicárias, ou seja, que o indivíduo aprende a partir da experiência alheia expressa por meio de mensagens, e acrescentaríamos que o receptor ao receber a mensagem faz inferências dos dados a partir de seu contexto.

Dessa forma, no processo de decodificação das mensagens, o receptor utiliza não só o conhecimento formal e lógico, mas também um conhecimento experiencial que envolve sensações, percepções, impressões e intuições. Retomando a definição de Krippendorff (1980), após a análise do conhecimento formal/lógico e do conhecimento experiencial, consideramos que o contexto definido pelo autor compreende esses dois tipos de conhecimento. O reconhecimento desse caráter subjetivo da análise é fundamental para que possam ser tomadas medidas específicas e utilizados procedimentos adequados à análise pretendida.

Com base nessa definição da análise de conteúdo, elaboramos o conceito[27] que será a base para análise realizada neste trabalho. Compreendemos a análise de conteúdo como uma técnica de investigação feita por meio de uma análise qualitativa do conteúdo manifesto nas comunicações, a partir do conhecimento formal e experiencial, tendo por finalidade a interpretação dessas comunicações e a elaboração de um levantamento temático que resultará na construção de categorias de análise para os dados coletados.

 Inicialmente, como diz a definição, realizamos uma análise qualitativa elaborando um levantamento dos temas que surgiram de forma significativa[28] nas atas de reunião. Desse levantamento temático, resultaram:

v  Troca de experiências

v  Infra-estrutura

v  Burocracia

v  Remuneração

v  Produção dos professores

v  Discussões pedagógicas

v  Formação 

v  Limitações

v  Estrutura de apoio

Dos temas acima relacionados, construímos categorias de análise. Ao analisar cada uma das categorias, trazemos as “palavras” dos professores como evidências, investindo-os, como coloca Demo (1997), de poder argumentativo, possibilitando-lhes assumir o lugar que lhes foi atribuído desde o início de atores principais do projeto. Esse lugar foi descrito no texto de Ripper (1996).

Por acreditarmos na importância dos professores no processo de implantação do projeto  é que assumimos como foco os módulos propostos por ele. Portanto, a partir da análise das atas, teríamos acesso ao processo de implantação do projeto a partir do ponto de vista do professor.

Faz-se necessário conceituar o termo categoria. Lüdke (1986) nos auxilia na definição do conceito, pois descreve o processo realizado neste trabalho de pesquisa:

“Depois de organizar os dados, num processo de inúmeras leituras e releituras, o pesquisador pode voltar a examiná-los para tentar detectar temas e temáticas mais freqüentes. Esse procedimento, essencialmente indutivo, vai culminar na construção de categorias ou tipologias.

A construção de categorias não é tarefa fácil. Elas brotam, num primeiro momento, do arcabouço teórico em que se apóia a pesquisa. Esse conjunto inicial de categorias, no entanto, vai ser modificado ao longo do estudo, num processo dinâmico de confronto constante entre teoria e empiria, o que origina novas concepções e, conseqüentemente, novos focos de interesse.” (Lüdke & André, 1986:43).

Para conceituar o termo categoria em nosso trabalho, buscamos também a contribuição de Freitas (1997):

“Quando estamos tentando encontrar categorias no âmbito da prática pedagógica nós estamos tentando encontrar categorias que tenham esse poder explicativo de uma grande quantidade de fenômenos que estão acontecendo no âmbito da sala de aula.”

Portanto, neste estudo usamos o conceito de categoria como sendo um grupo com um conjunto de atributos ou características comuns, que tem o poder de explicitar uma grande quantidade de fenômenos presentes no processo de implantação do projeto. Com esse conceito, definimos como categorias de análise:

v  Trocas de experiências;

v  Infra-estrutura;

v  Burocracia;

v  Cotidiano do professor;

v  Discussões pedagógicas;

v  Processo de formação.

A partir das categorias, realizamos a avaliação da qualidade educativa do projeto com base na efetividade[29] da qualidade formal e da qualidade política. Definimos cada uma das categorias e, em seguida, apresentamos os dados encontrados nas atas de reunião, divididos por escola. A íntegra das atas encontra-se no volume 2 desta dissertação.


Troca de experiências

 

Uma das categorias é a troca de experiência, que, nas palavras dos professores, recebeu destaque, pois ocupou grande parte dos GT´s e foi significativa para o trabalho dos professores. Essa categoria aparece em 580 das atas analisadas, ocupando um universo de 85% do total.

Em nossa análise, essa categoria é compreendida com a contribuição de Nóvoa (1992). Ele afirma que é fundamental para a formação do professor que ele possa trocar suas experiências com outros professores, constituindo a formação continuada em serviço de acordo com nossa análise dos planos e das atas de reunião.

Outro autor que nos auxilia na compreensão dessa categoria é Demo (1997), que escreve que é justamente na troca de experiências que ocorre a reelaboração e a reestruturação do conhecimento, a partir de questionamentos e contribuições entre os professores. Para nós essa categoria emerge da vivência dos professores que não tinham espaço para sentar e conversar sobre o trabalho nem sobre a experiência de cada um.

Constatamos que o projeto oferecia um espaço para que os professores trocassem experiências, por pensarmos, como Demo (1997), que deve existir espaço para a reestruturação e reelaboração do conhecimento, que se constitui como parte integrante do processo de formação.

Portanto, essa categoria permite que vislumbremos uma contribuição desse projeto para o fortalecimento da relação professor-professor e professor-aluno, por reconstruírem mutuamente o conhecimento.

Acreditamos que, no processo de estruturação do relato do que considera importante, o professor estrutura o conhecimento a fim de transmiti-lo. Quando este relato é recebido por outro professor, é processado com base no conhecimento formal/lógico e no conhecimento experiencial, o que pode provocar questionamentos. Segundo Demo (1993), esses questionamentos são fundamentais para a consolidação do conhecimento moderno.

Há a necessidade constante de reestruturação e reconstrução do conhecimento, por parte do professor. Seja motivada pelos questionamentos ou pela necessidade de estruturar para compartilhar o conhecimento, é na troca de experiências que se fortalecem o conhecimento e são construídas as práticas pedagógicas.

Ao processo de reconstrução e reelaboração do conhecimento, acrescentaríamos um elemento colocado por Nóvoa (1992), que é o fato de o próprio professor se reconstruir quando lhe são proporcionados momentos para troca de experiências. Por isso estaremos  realizando algo importante, que é investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência, que compreendemos como significativo para a formação e para a prática do professor.

Os professores consideravam essa oportunidade de sentar para trocar experiências uma oportunidade única e que fazia o diferencial na escola e na sua prática como professor. Eles afirmaram que essa situação contribuiu significativamente para o seu trabalho: “As trocas de experiências continuam sendo a tônica de nossos encontros, sendo sempre de grande valor para todos” (Escola B: 07)[30].

Nessa categoria, consideramos trocas de experiências todas as oportunidades em que os professores poderiam relatar as suas experiências contribuindo com o processo de construção do conhecimento e da prática dos colegas.

Verificamos nas atas que, nas trocas de experiências, os professores contribuíam uns com os outros para a estruturação do trabalho no laboratório com os alunos e se ajudavam em relação à ansiedade e à angústia que os assolava em alguns momentos. No trecho a seguir, verificamos esse aspecto:

“Partimos de ansiedades e incertezas, queixas e insatisfações de diversas ordens, mas através de necessidades individuais que depois se verificava serem do grupo. A partir destas necessidades construía-se a prática que resultava da cooperação, trabalho em conjunto, diálogo entre pessoas e entre pessoas e disciplinas, gerando novas formas de conhecimentos e construindo a prática do dia-a-dia.” (Escola B: 03)

O acesso à experiência do outro fortalecia e dava segurança ao trabalho dos professores. Verificamos a seguir:

“Relato de professor sobre como estão sendo as aulas no LIED e a partir das dificuldades encontradas conversamos, trocamos idéias e buscamos soluções, fazendo algumas atividades no computador para que as crianças (alunos) possam desenvolvê-las na aula.” (Escola C: 10)

Na troca de experiências, os professores verificavam mudanças no relacionamento afetivo entre os alunos e entre eles mesmos:

“O grupo tem que discutir contando as angústias e insatisfações, porque é muito importante a reflexão a partir destes sentimentos, além de estreitar os laços entre os próprios professores e também entre os professores e alunos.” (Escola C: 15)

O grupo tinha consciência da necessidade de se discutir o projeto a partir de sentimentos e emoções que influenciavam diretamente a produtividade no projeto, pois a insegurança em relação à máquina era presença constante.

 A troca de experiências envolveu também os pais, que foram convidados a conhecer um pouco do projeto, por meio de uma palestra e de uma minioficina, como foi chamada pelos professores. Eles acreditavam ser importante para o projeto que os pais experienciassem o trabalho com o Logo para compreender melhor a proposta.

“A coordenadora do GT colocou a questão de trazer a profa. coordenadora para falar sobre o projeto para a comunidade. A coordenadora do projeto enviou duas datas para serem agendadas. Além disso, a coordenação do GT colocou a idéia de abrir uma possibilidade para os pais experenciarem o trabalho do Eureka, através de uma minioficina para eles, através de inscrição prévia. O grupo seria de 17 pais no primeiro semestre e mais 17 no segundo semestre.” (Escola D: 02)

Os professores discutiam as experiências a partir de relatos orais e também de filmagens, como fica evidenciado no relato a seguir:

“O objetivo das filmagens é registrar as dificuldades dos professores; as primeiras pessoas que irão ver as filmagens serão os professores e a equipe de apoio; o professor é quem decide se pode ser ou não utilizada a filmagem para exposições ou discussões posteriores. Este é um material que pode ser discutido nos GT’s. Se algum outro professor quiser ser filmado, é só comunicar a equipe de apoio. Será destacado nas filmagens o que cada professora está desenvolvendo, o que os professores estão percebendo como progresso pedagógico após a utilização do Logo. Será analisado também o número de alunos no projeto; o número de aulas de cada professor; o número de aulas por semana no projeto como também é importante que cada professor escreva um texto e indicando no que o projeto tem ajudado o seu trabalho em sala de aula.” (Escola D: 05)

Verificamos nesse destaque que havia o respeito a cada professor em relação à filmagem. Eles tinham a oportunidade de optar por expor ou não seu trabalho à filmagem. O foco da filmagem era a prática dos professores no laboratório. Consideramos esse destaque como evidência para a valorização da experiência de cada professor e da importância de se discutir, com base nas experiências, futuros passos para o projeto.

No processo de opção por discutir a sua experiência ou não, já verificamos a mudança na postura do professor, ao abrir espaço para análise, diálogo e avaliação de seu trabalho. Constatamos o que Nóvoa (1992) afirma a respeito da reconstrução do professor como indivíduo e não somente em relação à sua prática.

Verificamos a construção da prática pedagógica com o computador como resultado da troca de experiências. Uma evidência desse processo é o texto a seguir:

“Combinamos, depois de alguns relatos dos professores que já trouxeram seus alunos ao laboratório, que será bom uma conversa com os alunos sobre suas dúvidas em sala de aula, antes de virem para cá (pelo menos no início), devido à grande ansiedade deles quando se deparam com as máquinas. Talvez até pedir que façam alguns planos (projetos para executar no computador), ensinar à tartaruga.” (Escola B: 06)

Segunda evidência das atas para esse aspecto: “Proposta para solucionar os problemas no trabalho com os alunos decorrentes da quantidade, a partir da experiência de cada um” (Escola B: 13).

Os professores compreendiam que desse processo de troca resultavam novas práticas educacionais em informática. Evidenciando esse fato, temos: “Os professores puderam trocar experiências e elaborar novas práticas educacionais em informática no Logo” (Escola B: 01).

Encontramos a seguinte evidência da compreensão por parte dos professores do processo de construção e reconstrução do conhecimento:

“Os professores e alunos venceram os desafios decorrentes do aprimoramento de seu conhecimento, ambos sentiram-se valorizados e motivados, proporcionando trocas de experiência e a continuidade do projeto.” (Escola B: 10)

Ao verificar que um sentimento era partilhado pelo grupo, os professores sentem-se seguros o bastante para elaborar e expor o que estão vivenciando em relação ao projeto como grupo, e não como opinião individual: “Os professores contaram a respeito do sentimento que está presente em sua prática, a ansiedade” (Escola C: 14).

Constatamos no trecho a seguir a maturidade do grupo em relação à importância dessa categoria para o funcionamento do projeto:

“Quanto à integração, notamos que está faltando entrosamento entre os professores e chegamos à conclusão da necessidade que temos em relação à comunicação entre o que um professor e outro da mesma classe está fazendo e como fazer.” (Escola D: 01)

Outro aspecto destacado na análise das atas foi que, com base nas trocas, os professores aprofundavam a discussão da proposta do projeto e também elaboravam o seu próprio fundamento para o trabalho com o computador:

“O que pode ser feito com a filosofia Logo em seu computador? A partir do relato de experiência de um professor em sala de aula houve a troca entre o grupo objetivando a elaboração de atividades em sala de aula para favorecer a aprendizagem dos alunos.” (Escola D: 08)

Portanto, para esses professores o foco era o processo de ensino-aprendizagem, tendo como centro o aluno.

Esse espaço era compreendido também como oportunidade de construir em conjunto soluções para as dificuldades encontradas em relação ao trabalho com o aluno:

“Foi proposto por uma professora que o GT discutisse a introdução da linguagem Logo a partir do relato das experiências dos professores com os alunos no LIED. Essa troca de experiências serve para discutir as idéias e propostas verificando a melhor forma de resolver os problemas existentes, procurando incentivar aqueles que estão mais ansiosos e com dificuldades no trabalho pedagógico.” (Escola D: 16)

Portanto, essa categoria comporta o processo de construção e reconstrução do conhecimento adquirido no módulo intensivo, elaborando uma prática pedagógica nova em que os professores auxiliavam-se mutuamente, resultando desse processo a reconstrução da prática pedagógica e do próprio professor.

Escola A

01

Acesso a outras experiências em pré-escola via internet.

02

Levantamento de quem já começou o trabalho no computador e das dificuldades das crianças.

03

Feira de Informática anual na escola, para troca de experiências entre os professores.

04

Socialização, por parte de uma professora, de roteiros por ela elaborados para entrar no Logo. Criar diretórios e páginas.

05

As professoras contavam as suas experiências no uso do computador nos GT´s. Esse tópico era fundamental para o desenvolvimento das reuniões.

06

As professoras contavam suas dificuldades buscando nas experiências de outras  professoras propostas para solucionar seus problemas. Havia abertura por parte das professoras para relatar as suas experiências.

 

Escola B

01

Os professores puderam trocar experiências e elaborar novas práticas educacionais em informática no Logo.

02

No seminário, houve a oportunidade para relatos do que estava sendo feito em cada escola e, dessa forma, poder mapear o que era o Projeto Eureka.

03

“Partimos de ansiedades e incertezas, queixas e insatisfações de diversas ordens, mas através de necessidades individuais e depois de um grupo estas necessidades tornaram-se prática de busca em cooperação, trabalho, diálogo entre pessoas e entre pessoas e disciplinas, gerando novas formas de conhecimentos.”

04

Os professores disseram que, nas trocas de experiências, foi possível verificar qual era seu papel dentro do processo ensino-aprendizagem.

05

Professora da Fumec é auxiliada por três colegas para levar seus alunos ao LIED.

06

Combinamos, depois de alguns relatos dos professores que já trouxeram seus alunos ao laboratório, que será bom uma conversa com os alunos sobre suas dúvidas em sala de aula, antes de virem para cá (pelo menos no início), devido à grande ansiedade deles quando se deparam com as máquinas. Talvez até pedir que façam alguns planos (projetos para executar no computador), ensinar à tartaruga.”

07

As trocas de experiências continuam sendo a tônica de nossos encontros, sendo sempre de grande valor para todos.”

08

As atividades de integração entre os projetos, neste semestr,e foram muito positivas também.”

09

A cooperação no trabalho a partir do diálogo entre os professores e também com os alunos.”

10

Os professores e alunos venceram os desafios decorrentes do aprimoramento de seu conhecimento. Ambos sentiram-se valorizados e motivados, proporcionando trocas de experiência e a continuidade do projeto.”

11

Oficina para troca de experiências no trabalho com os alunos e seus progressos em programação x aprendizagem.”

12

Proposta para solucionar os problemas no trabalho com os alunos decorrentes da quantidade, a partir da experiência de cada um.”

 

Escola C

01

Ligamos um computador que estava funcionando e um professor mostrou algumas atividades que uma professora desenvolveu e explorou as opiniões de outros professores.”

02

Uns professores ensinavam os outros.”

03

Integração do novo participante do GT sobre a Linguagem Logo na experiência da escola e dos professores com seus alunos.

04

Atividades no computador com a ajuda mútua.”

05

Comentários sobre as experiências com os alunos no LIED.

06

Uma professora levou seus alunos e eles estavam ansiosos. Não gostaram do Logo, no primeiro dia saíam do programa o tempo todo. No segundo dia ficaram mais tempo sem tanta ansiedade e não saíram tanto. No terceiro dia trabalharam direito, sem sair.”

07

Troca de informações a respeito da prática dos professores, com base na leitura de um texto que tratava de tema pedagógico.

08

Troca de experiências em que os professores contavam como ocorreu o trabalho  com os alunos no LIED, tentando ajudar e saber da experiência dos outros professores.

09

Troca de informações e experiências entre os professores quanto às atividades no LIED com os alunos.

10

“Relato de professor sobre como estão sendo as aulas no LIED e a partir das dificuldades encontradas conversamos, trocamos idéias e buscamos soluções fazendo algumas atividades no computador para que as crianças (alunos) possam desenvolvê-las na aula.”

11

O professor Marcos trouxe atividades (caça-palavras e labirinto) para os professores conhecerem. “O material pronto trazido foi colocado em todos os micros devido ao fato de serem interessantes.” Os professores elaboraram atividades para trabalhar com os alunos, a partir do material oferecido pelo instrutor.

12

Relato de experiência no LIED em 1997, por parte dos professores.

13

Cada professora apresentou o seu projeto para este semestre com as atividades que serão desenvolvidas pelos alunos.

14

Os professores contaram a respeito do sentimento que está presente em sua prática, a ansiedade.

15

“O grupo tem que discutir contando as angústias e insatisfações, porque é muito importante a reflexão a partir destes sentimentos, além de estreitar os laços entre os próprios professores e também entre os professores e alunos.”

16

No primeiro semestre de 1995, as atividades de integração entre os projetos da escola foram muito positivas, permitindo a integração de diferentes conteúdos e professores.

17

Ligamos um computador para cada membro do GT e programamos trocando experiências.

 

 

Escola D

01

30 de março de 1993 – Quanto à integração, notamos que está faltando entrosamento entre os professores e chegamos à conclusão da necessidade que temos em relação à comunicação entre o que um professor e outro da mesma classe está fazendo e como fazer.

02

“A coordenadora do GT colocou a questão de trazer a profa. coordenadora para falar sobre o projeto para a comunidade. A coordenadora do projeto enviou duas datas para serem agendadas. Além disso, a coordenação do GT colocou a idéia de abrir uma possibilidade para os pais experenciarem o trabalho do Eureka, através de uma minioficina para eles, através de inscrição prévia. O grupo seria de 17 pais no primeiro semestre e mais 17 no segundo semestre.”

03

Reunião para a comunidade no dia 18/5. Foi pedida a presença do maior número possível de professores do projeto.

04

A oficina para os pais foi marcada no dia 16/6/1994. A coordenadora do GT fará a divulgação para os pais e as devidas inscrições. Foi proposto pela coordenadora do projeto que os professores iniciantes começassem a assistir às aulas dos professores que já trabalham com as turmas no laboratório, para que estes conheçam a realidade do laboratório e do trabalho com os alunos.

05

“O objetivo das filmagens é registrar as dificuldades dos professores; as primeiras pessoas que irão ver as filmagens serão os professores e a equipe de apoio; o professor é quem decide se pode ser ou não utilizada a filmagem para exposições ou discussões posteriores. Este é um material que pode ser discutido nos GT’s. Se algum outro professor quiser ser filmado, é só comunicar a equipe de apoio. Será destacado nas filmagens o que cada professora está desenvolvendo, o que os professores estão percebendo como progresso pedagógico após a utilização do Logo. Será analisado também o número de alunos no projeto; o número de aulas de cada professor; o número de aulas por semana no projeto como também é importante que cada professor escreva um texto e indicando no que o projeto tem ajudado o seu trabalho em sala de aula.”

06

A coordenadora pediu para que cada professora escreva um parágrafo sobre como está acontecendo o projeto em sua disciplina, disponibilizando aos colegas sua experiência com o projeto em relação ao Eureka-conteúdo-sala de aula.

07

Uma professora apresentou seu problema, que era não poder pedir afastamento para realizar o curso de formação. Essa professora não poderia pedir afastamento novamente neste período.  A profª coordenadora do GT colocou a importância para o Programa Eureka que todos os professores façam parte dos cursos, pois existe por parte da comunidade e do GT o interesse de que todas as crianças da escola estejam integradas ao projeto, principalmente porque os professores de primeira a quarta série participantes do projeto são em número reduzido. O grupo, a partir de suas experiências, elaborou três soluções ou propostas para solucionar o problema da professora: 1) a professora somente assistiria às aulas do curso da tarde e daria aula normalmente no período da manhã; 2) a professora deixaria seis alunos em reforço de matemática com uma outra professora em outra turno; 3) a professora deixaria os mesmos seis alunos de reforço de matemática com outro professor da casa deixando todo o material, uma vez que esta semana tinha sido separada pela escola para a recuperação de alunos com defasagem de aprendizagem. Houve anuência da diretora e dos professores para as três propostas. A coordenadora do GT ficou de consultar a profª coordenadora do projeto para verificar a possibilidade da proposta de número 1 resolver o problema da professora.

08

O que pode ser feito com a filosofia Logo em seu computador? A partir do relato de experiências de um professor em sala de aula, houve a troca entre o grupo objetivando a elaboração de atividades em sala de aula para favorecer a aprendizagem dos alunos.

09

Os iniciantes ainda sentem fortemente a ansiedade de estar iniciando um processo novo. Um desses professores diz que as oficinas e os grupos de trabalho são importantes para a reflexão do professor, reportando-se para o lugar do aluno,  havendo a troca de papéis e de experiências e de aprendizado em conjunto.

10

No primeiro semestre de 1995, as atividades de integração entre os projetos foram muito positivas, pois possibilitaram a troca de experiências entre professores.

11

Discussão sobre atividades da terceira série com a integração dos professores de educação física e educação artística.

12

Uma professora expôs a dificuldade em atender individualmente tantas crianças, o interesse desta primeira série por jogos e sua falta de estímulo em trabalhar com escritor, pois só querem os joguinhos.

13